sábado, 29 de novembro de 2008

DO QUE OUVIA E DO QUE LIA



O que ouvia: Prelúdio, introdução Bachianas Brasileiras nº 4 de Heitor Villas Lobo, executada ao piano por Miguel Proença; O que lia: Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam.
A música continua. Pausa na leitura..., quero saber de mim se a senhora “Moria” ( loucura em grego) preocupa-me. Respondo de pronto: Canguru, que numa das línguas australiana significa “Não sei”.

Por que não sei? Porque não se deve qualificar de loucura todo erro de espírito e de senso; porque não se pode taxar de louco alguém de vista curta, que toma burro por jumento; ou por falta de senso crítico entender como ótimo um mau poema; porque alguém confunde o zurro de um burro com uma sinfonia ou porque sendo alguém de origem humilde acredita ser o rei Creso, da Lidia, que foi o homem mais rico da terra, criador da moeda de ouro e que certa vez perguntou para Sólon se não era ele mais feliz dos mortais, o filósofo respondeu-lhe: “ Majestade, vós me pareceis muito rico, tendes um grande reino; reservo-me, porém, para responder à vossa pergunta quando fordes muito feliz”. (aprendi com Erasmo)

Então, como definir a loucura? Se eu uso da semântica no meu discurso de louco, não me acerco da razão de ser? Não falo o que penso?

Não cabe mais em nossa época a visão de Homero, de que o homem não passa de boneco nas mãos dos deuses e que o nosso destino é manipulado ao bel prazer dos “moiras”, levando a certo grau de loucura. Sócrates acreditava nisso e estabeleceu quatro tipos de loucuras: a profética; o oráculo; a loucura amorosa produzida por Afrodite e a loucura poética produzida pelas musas.
Fica com Hegel a palavra final, pois afirmou que a loucura não seria a perda abstrata da razão: "A loucura é um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente". A loucura deixou de ser o oposto à razão ou sua ausência, tornando possível pensá-la como "dentro do sujeito", a loucura de cada um, possuidora de uma lógica própria. Hegel tornou possível pensar a loucura como pertinente e necessária à dimensão humana, e afirmou que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, pois a razão humana só se realizaria através dela.



5 comentários:

Evelyne Furtado disse...

Um breve e lúcido ensaio sobre a loucura através de seus pensadores e de sua verve, Zelinha. Para muitos , loucos são os que pensam diferentes deles. De minha parte acrescento que até simpatizo com os "malucos belezas" que não fazem mal a ninguém. Começo bem o fim de semana matando a saudade dos seus textos ricos e sábios.
Beijos e tudo de bom , minha amiga!

clelio disse...

muito boa zelinha... num poema meu chamado deprimente eu digo:

É deprimente ser classificado
Como um louco
Só porque não sou como
Os que me classificam
Querem que eu seja
Como eles são.


bjuuuu zelinhaa adorei o texto! MANEZINHOOO!!! RSRSRSR

clelio disse...

muito boa zelinha... num poema meu chamado deprimente eu digo:

É deprimente ser classificado
Como um louco
Só porque não sou como
Os que me classificam
Querem que eu seja
Como eles são.


bjuuuu zelinhaa adorei o texto! MANEZINHOOO!!! RSRSRSR

Ângela disse...

E o eu são so conceitos senão uma forma de poder? Como sempre D. Zélia você dá um show de sabedoria. Estava com saudades. Afetuoso abraço. Bom final de noite e um excelente domingo.

chica disse...

Muito bom,Zelia!
Muitas vezes somos considerados loucos, porque não entramops na "loucura geral"... Queremos ser apenas nós mesmos. Então, deixa que digam que o somos...Sabemos que somos só um pouquinho!!!um beijo,chica