quinta-feira, 6 de novembro de 2008

MANUELA, MANUELA...


Nasci pobre, em termos de escala social é o que se pode chamar de pauperismo, sem berço. Recebi o nome de Manuela, aguardavam o nascimento de um varão, que se chamaria Manuel e apenas por castigo de ter nascido mulher meu pai me pos o nome de Manuela, incomum entre os nomes do lugar onde nasci e onde ainda nascem tantas outras crianças pobres e se criam apenas para contrariar os princípios de saúde, higiene e nutrição.


Não tive na infância o amor nem tampouco o carinho que uma criança precisa, embora não fosse diferente de nenhuma outra, gostava de brincar, de preferência sozinha, buscando na imaginação um outro mundo cheio de fantasias.


Atingi a adolescência cercada das dificuldades que me viram nascer. Por essa época tinha um gosto acentuado pela leitura; e a leitura comum entre o nosso meio eram os folhetos da literatura de cordel, sempre arranjava um jeito de os comprar na feira aos sábados. Algum tempo depois descobri na cidade onde morava uma biblioteca, passando a ter contato mais direto com os livros, principalmente os romances, que iriam povoar mais ainda a minha imaginação .


Fui criando outra mentalidade, a pequena visão que tinha do mundo alargou-se; descobri outros horizontes, a nossa pobreza, que até então não considerava passou a ser incômoda. Também não via com bons olhos a diferença de classes essa senti na pele aos dez anos de idade quando pretendi participar de uma festa de aniversário. Quis ser criança, igual àquelas que se divertiam num imenso casarão; entrei sem ser convidada, mas o meu vestido remendado e os meus pés descalços denunciaram a minha condição de pobre. Eles eram ricos. Puseram-me para fora do portão.


Tinha consciência das nossas dificuldades financeiras e embora achasse incômoda a pobreza não me revoltada pelos meus vestidos remendados sem pelos meus sapatos rotos. Havia descoberto uma coisa muito minha: a minha imaginação, que a cada dia se tornava mais fértil pelo hábito adquirido da leitura.


Passei a achar o mundo real muito complexo e exigente. As pessoas que nele viviam eram medidas e pesadas pelos valores matérias para depois serem separadas em classe. Senti que não havia lugar para mim nesse mundo. Quixotescamente criei o meu próprio. Fiz com o meu corpo a armadura; da minha rede o meu cavalo; do livro a minha lança; da minha imaginação os caminhos à percorrer.


Fui rainha, fui princesa, tive jóias, castelos e roupas finas. Viajei por terras distantes, por mim lutaram e morreram garbosos príncipes. Sentei-me na primeira fila dos bancos das igrejas e ouvi meu nome ser citado pelas doações generosas.


Os dias iam passando, a monotonia da vida real não me atingia, as aventuras criadas e vividas me enchiam quase todas as horas. O meu comportamento aos poucos foi chamando a atenção dos meus pais Já não levantava da rede, a não ser para as necessidades mais prementes e quando o fazia, meu porte de rainha e as minhas exigências à mesa ao notar a falta de toalha, talhares, taças, guardanapos, muito irritavam a minha mãe. Não tínhamos essas coisas. - "Só podia tá com um encosto" – dizia minha mãe – "ora onde já se viu uma moçona dessa não querer fazer nada! O diabo desses livro tão te deixando abilolada! É bem um esprito que ta te atanazando, tou cum vontade de chamar a comade Marluça pra dá uns passe"


Consultada a comadre Marluce e constatado por ela que realmente eu estava com um "encosto", foram feitos os acertos para uma sessão espírita. Esta realizou-se numa sexta-feira. Por mais concentrada que demonstrasse estar, não conseguiu a comadre Marluce que o "espírito" invocado baixasse. Depois de algumas rezas e benzeduras deu-se por encerrada a sessão.


Como não mostrasse sinais de melhora durante os dias que se seguiram, isto porque continuei entre aos meus devaneios - no que muito contrariavam meus país – estes acharam por bem providenciar, sem mais tardar, um noivo para mim. Um nome foi lembrado: João, o filho do compadre Antônio.


-"Ôxente, por que não me alembrei disso antes! – exclamou minha mãe.

- " Inté que é um bom casamento, João tem emprego seguro, é cabo de polícia" – acrescentou meu pai.


Foi um dia de domingo, previamente combinado, que o João veio até nossa casa; eu havia ganho sapatos e vestido novos, minha rede foi desarmada da sala, a casa foi limpa e arrumada. Também estava entusiasmada com a idéia de um noivo, seria o meu príncipe encantado,adorava homens de farda, cheio de estrelas e condecorações, ele por certo seria alto, forte e valente!


Finalmente chega meu pai e com ele o João. Este ficou parado na soleira da porta. - "entra home! Vai se abancando, tira o boné e fica a vontade e pra começo de conversa vamo tomá uma lapada de cana pra esquentá as idéia' – falou meu pai – e apontando para mim, disse: - "aquela lá é a Manuela".


Olhei fixamente aquele tico de homem , desengonçado dentro de uma farda mal talhada; seu ar era de aprovação, sorria largamente e pude ver debaixo do seu grosso bigode dois solitários caninos. Fechei os olhos com bastante força, já havia criado uma imagem perfeita para o meu João. Aquele homem que estava à minha frente fugia completamente ao esperado! Mas, bem que eu poderia resolver a situação... ele seria como eu queria que fosse! Meus olhos se abriram, só que dessa vez reconheci o meu garboso João, que não era mais cabo e sim capitão. Daí por diante as coisas foram ficando mais confusas na minha mente, vagamente me lembro de minha mãe chorando pelos cantos da casa e o meu pai mais sério.


Num dia qualquer distingui pessoas sempre vestidas de branco que se movimentavam apressadas por um imenso corredor... Depois dessa visão perdi a noção das coisas por completo... por um longo espaço de tempo...

6 comentários:

clelio disse...

Êtaaaa Manuelaaaa... adoro esse nome.o meu é Emmanuel!!! rsrsrsr, bom texto zelinha! bju se cuida!

chica disse...

Eu queria saber por que não fazes mais e mais contos. São sensacionais e me emocionam. Essa Manuela, revela o que acointece com muitas pessoas...
No fundo, no fundo, só têm a imaginação e essa não pode ser roubada... Lindíssomo,Zélia, do inícipo ao fim, com a riqueza dos detalhe que nos faz viver com Manuela cada momento até que ela descansa de tudo...Parabéns! Aguardo muitos e muitos contos...Vai trabalhar,Zelinha! Aproveita a TUA imaginação e ele te leva longe! um beijo, Chica

Ariadne disse...

Adorei, como já tinha te dito...
é um excelente conto , vc escreve divinamente!!!
Abraço!!!

Ariadne disse...

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Ângela disse...

Um conto muito rico... E são tantas as Manuelas!!! Abraços Zélia. Boa Noite!

maria luzia disse...

Adorei Zelinha!!!



beijos