domingo, 19 de abril de 2009

A CHUVA QUE SABIA DEMAIS - LÁ FORA ,NEGRA ERA A NOITE



A noite estava se indo, encerrei a leitura de “O Pálido Olho Azul” um thriller de Louis Bayard e fiquei quieta na minha cama, ouvindo o barulho dos trovões, ao mesmo tempo em que observava através da janel envidraçada do meu quarto, os rasgos de luz que cortavam o céu em ziguezague; levantei e me dirigi até a janela com o intuito de cerrar as pesadas cortinas, mas não o fiz de pronto, encostei o meu rosto na vidraça embaçada e assim permaneci.


Lá fora, negra era a noite; lembrei que, pelo calendário, a lua cheia deveria brilhar no céu. Abatida irritante dos pingos d’água na vidraça me fez afastar o rosto,mas continuei presa à janela. Sim, já tinha vivido situações iguais a esta, tendo a chuva como parte do cenário e testemunha desses momentos.


Talvez, na condição de partícipe, eu pudesse até dizer, queela, a chuva, sabia demais...


Sabia que neste momento ao meu lado estava faltando alguém... E se a chuva fazia negra a noite e representava o choro da Natureza, as lágrimas dos meus olhos, que embaçados tal qual a vidraça da janela, representavam o choro sofrido pela ausência sentida do ser amado.


Sentia falta de sua presença, de seus braços cingindo a minha cintura, seu queixo forte pressionando o meu ombro, observando a chuva e o seu hálito quente explicando-me didaticamente o que ocorria para que houvesse a sonoridade dos trovões e a descarga elétrica chamada relâmpago, e eu rindo do seu didatismo, ao mesmo tempo em que me encolhia nos seus braços por conta das cócegas que sentia dos seus beijos na minha orelha...


Do seu jeito gracioso e meio moleque de sugerir fazer amor, apontando-me a cama, esta mesma cama para a qual estou voltando; agora vazia dele e onde me jogo sem a mínima vontade de trocar-me nem tampouco de dormir...


Lá fora a chuva continua e dentro de mim a velha angústia. E cá estamos:eu, a minha solidão e o poeta maior, para quem digo: Ah, meu poeta...Se ao menos eu endoidecesse de vez e não “deveras”...


Cerro os olhos,antes fechando mais um livro... Agora de Fernando Pessoa.


Boa noite, meu amor.

Um comentário:

Chica disse...

Maravilhosa mais uma vez, essa tua crônica.Zelia!És brilhante sempre!Na chuva ou no sol...um beijo,chica