terça-feira, 11 de setembro de 2007

DE CISMA, PENSAMENTO E SONHO









A respeito da Natureza, do Desconhecido, cada um de nós, cisma, sonha à sua maneira. Sei de alguém que se chama Gilliatt, protagonista de um romance escrito por Victor Hugo, no ano de 1866, sob o título “Os Trabalhadores do Mar”, que costumava, diante da imensidão do mar, cismar, pensar, sonhar assim:


.Dizia Gilliatt, que tinha visto algumas vezes, na água do mar, completamente límpida, animais inesperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quais fora da água assemelhavam-se a cristal mole e, tornados à água, confundiam-se com ela pela identidade de transparência e de cor; disto concluía ele que, se a água era habitada por transparências vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparências igualmente vivas. Os pássaros não são os habitantes, são anfíbios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. S


Se o mar está cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera está vazia?-Indagava. Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que estas criaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáfanos, beneficio da providência criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz através de sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava que, se se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma porção de criaturas surpreendentes. E acrescentava ele na sua cisma, muitas coisas explicariam.


A cisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preocupa-se a respeito dele, como de sua própria fronteira. O ar habitado por transparência vivas seria o começo do Desconhecido; além abre-se a vasta porta do possível. Outros seres e outros fatos.


Nada sobrenatural; mas a continuação oculta da natureza, era um observador estranho e fantástico. Chegava a observar o sono. O sono está em contato com o possível, que também chamamos o inverossímil. O mundo noturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma coluna atmosférica de 15 léguas de altura, chega à noite fatigado, cai de fraqueza, deita-se, repousa: fecham-se os olhos da carne: então, naquela cabeça adormecida, menos inerte do que se crê, abrem-se olhos, aparece o Desconhecido.


As coisas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhos do homem, ou porque as distâncias do abismo tenham crescimento visionário; parece que as criaturas invisíveis do espaço vêm contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma criação fantasma sobe e desce para nós, no meio de um crepúsculo; ante a nossa contemplação espectral, uma vida que não é a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entrevê as animalidades estranhas , as vegetações extraordinárias, as cores lívidas, terríveis ou risonhas, as larvas, as máscaras, os rostos , as hidras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodígio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a flutuação de formas nas trevas, todo esse mistério que chamamos sonho, e que não é mais do que a aproximação de uma realidade invisível.


O sonho é o aquário da noite.


Assim sonhava Gilliatt. Assim sonho eu.

Um comentário:

Yasmine Lemos disse...

Já li uma vez esse texto. E novamente ao ler penso está assistindo ao um sonho,uma imaginação. Confuso como nossos pensamento e cismas ,que na minha opinião não se separam ,são conseguem conviver sem estarem aliados. Os monstros(medos) ,criaturas do ar,do mar,transparentes ,tudo nosso segredos escondidos, que nem nós mesmos sabemos onde estão,de tanto sonhar ,cismar e pensar.
beijoss