terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

EMOÇÃO INDIFERENTE





A televisão exibe um rapazinho caído ao relento e desfalecido, alguém o carrega sob os olhares curiosos dos que dele se acercaram. Quadro de novela.

A cena acima descrita suscita emoção. Então, questiono: por ser uma mera representação? Até onde a realidade também nos comove?

Sobre tal assunto li certa vez do mestre Mário Moacyr Porto, um texto onde ele fez uma explanação a respeito do sofrimento de verdade e a desgraça de ficção, como isso nos atinge. Sustenta o mestre que no mundo moral – "que é um mundo construído pela inteligência – o bem e o mal só existe para nós como forças contraditórias e atuantes quando passam da condição de juízo de valor do raciocínio para a categoria de estados emocionais, vividos pela imaginação. O espetáculo da miséria humana, as brutalidades do egoísmo, o sofrimento real e irremissível dos nossos iguais não nos tocam, por isso mesmo, como realidades sensíveis e contagiantes. Basta, porém, que se substitua este sofrimento de verdade por uma desgraça de ficção para que o sintamos em toda a sua plenitude. Um mendigo andrajoso, faminto, miserável, que nos pede ajuda, não provoca, habitualmente, emoção ou piedade, se o espetáculo da sua flagrante miséria não se valoriza com um “décor” estético. É uma realidade neutra. No entanto, o sofrimento de ficção que nos revela o teatro, o cinema, ou qualquer forma de expressão artística, comove-nos até as lágrimas. Como se explicaria, assim, esta aparente contradição da sensibilidade humana, isto é, indiferença aa vista de um sofrimento real e comovido enternecimento em face de um infortúnio de ficção? Por que o sofrimento no teatro é mais real do que o sofrimento que a vida expõe a nossos olhos?"

Explicação do mestre: “ É que o bom e o belo não é o que vemos, e sim o que sentimos". .









Um comentário:

Paulo de Poty disse...

Zélia, encontrei aqui uma possível explicação para meus momentos de apatia.