terça-feira, 31 de março de 2009

EU SÓ QUERIA SABER




Possuo uma alma inquieta, não essa alma que dizem desprender do corpo e que recebe um par de asinhas quando a gente morre. A alma de que falo é indissociável do corpo: corpo morto, alma morta, pensamentos mortos..



Melhor dizendo: sou uma pessoa inquieta e parece que vim ao mundo para me preocupar; ficar presa a sentimentos; questionamentos; por quês. Eu queria me desvencilhar dessas coisas. Eu só queria saber quando poderei caminhar e sentir que esse caminhar não é vazio nem os meus dias são tristes e nem minhas sextas-feiras representam as da paixão do Cristo.



Eu só queria saber quando existirá em mim uma razão latente de viver e a minha alma de bolero reclamará uma alegria renovada. Eu só queria saber se após juntar o meu último pedacinho, me sentirei inteira, viva e não mais morta nem tampouco “ solitária na companhia de meu próprio cadáver”(A Terceira Renúncia – Gabriel Garcia Márquez).



Eu só queria saber quando me desprenderei das amarras que me prendem. Eu só queria saber quando abrirei os meus braços e exprimirei todo o meu sentimento de liberdade!

segunda-feira, 30 de março de 2009

MULHERES PERDIDAS - PERDIDA EM MEU PRÓPRIO LABIRINTO A CAMINHO DE UQBAR



E lá ia eu meio desarvorada, tentando fugir de não sei o quê, caminhando sem rumo certo por uma dessas veredas da vida, que nem me dei conta de um amigo meu que me seguia a passos largos. Era tão idiota e desligado quanto eu e ainda por cima era metido a intelectual o infeliz .


Juntou-se a mim para chorar suas mágoas; estava fugindo também, e foi logo perguntando: você sabe onde fica esse país Uqbar? Saber eu sabia, pois li Ficções de Jorge Luiz Borges, mas como não estava afim de muita conversa, respondi assim: eu não, então ele emendou : se não me engano fica pras bandas do Iraque ou da Ásia Menor e prosseguiu: estou sabendo que está havendo por lá uma gigantesca conspiração de intelectuais para imaginar a criação de um novo mundo, a quem daria o nome de Tlon. Que tal irmos nos juntar a essa gente e conspirar um pouco, já que andamos tão injuriados com este mundinho aqui? É..., pode ser, tô fazendo nada, mas como é que a gente chega lá? Perguntei. Ô criatura de Deus, para que serve a imaginação?


Senta aqui perto de mim, dá tua mão, feche os olhos, concentre-se, que te garanto alcançaremos o destino. Ham, ham... disse eu e fiz o que o amigo mandou. Mas quando abri os olhos, estava só, acho que concentrei errado, ele foi e eu me perdi pelo caminho, ou mais precisamente dentro do meu próprio labirinto físico. E por não falar a língua dos anjos, cadê achar a saída? Prendi um pé num emaranhado de vísceras, chutei um útero, pisei um rim, fui imprensada entre dois pulmões ,caí em cima de um baço, tropecei num pâncreas, deslizei num fígado, esmaguei uma vesícula, até chegar ao centro da cavidade torácica, onde percebi um órgão oco com duas câmaras uma superior que se dilatava quando recebia sangue e a outra inferior que se contraía quando ejetava esse sangue.


Eu fiquei observando aquilo, sabia que era o coração, e se ele era oco, por certo os meus sentimentos, os meus amores, as minhas saudades, as minhas lembranças as minhas tristezas, as minhas alegrias, os meus momentos felizes estavam todos dentro dele... Então..., eu pensei... é... Se eu conseguir sair daqui, tentarei arrancar desta coisa oca e levar comigo algumas coisinhas que andam me incomodando...


Como fazer era que eu não estava sabendo. Também não sabia como sair desse labirinto, estava realmente me sentindo perdida. Lembrei do meu camaradinha, devia também estar pegando tempo lá por Uqbar, como estaria sendo feita a comunicação com os heresiarcas? Está me dando sono, é tudo tão escuro aqui por dentro...


E eu me pergunto, teria algum sentido eu estar perdida neste labirinto? Os gnósticos consideram o labirinto como um símbolo de iniciação. Em seu percurso haveria um centro espiritual oculto uma dissipação de trevas e luz e o renascimento pessoal. Nesse sentido a superação seria encontro da verdade ou opus... Eu acho que dormi...


Mas quando acordei ao meu redor já não havia trevas e sim luz aí eu pensei: será que aconteceu o meu renascimento pessoal? Eu encontrei a verdade? Contudo, só de uma coisa eu sei: estava fora do labirinto e fazia o caminho de volta para o lugar de onde eu jamais deveria ter saído...

LINHA CRUZADA



Sei que não foi elegante nem correto de minha parte não ter desligado o telefone quando me deparei com uma linha cruzada, mas ando numa “Comedy of Errors” de fazer inveja a criatividade de Shakespeare. Mas o que ouvi foi pathetic. A conversa rolava entre dois seres, tratavam de suas intimidades, de seus próprios sentimentos, dos seus desacertos e dos seus desamores e pelo que pude perceber havia um certo antagonismo entre o sentir dos dois.


O ser masculino, pelo tom de voz deixava passar uma frieza desconcertante e bem poderia representar o “não te quero”. O outro ser, o feminino, com certeza, seria “o porque te quero”. E eu lá de ouvido colado. O ser masculino suspirou impaciente e resmungou qualquer coisa. Houve um silêncio, que eu, com vergonha de mim mesma, aproveitei para cuidadosamente colocar o fone no gancho. Levantei-me da cadeira onde estava e me dirigi até a cama, deitei-me, coloquei os braços sob a minha cabeça e comecei a imaginar como seriam fisicamente “não te quero” e “porque te quero”... seriam jovens ou não? Namorados, noivos, casados...?


Teriam condições de fazerem as pazes? Essa “escuta cladestina” me fez lembrar um texto interessante que li outro dia na Internet e que vou transcrever, omitindo o crédito por não saber quem é o autor; também retrata o fim de um amor e o título é “Não te quero querer mais”. É o que se segue:Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te.


Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim.


Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei.


Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.

terça-feira, 24 de março de 2009

EM BUSCA DA MONTANHA MÁGICA




“Por que você me ama? Porque
você permitiu. Essa frase remete ao
mais simples mecanismo de reciprocidade e
lealdade se um pergunta ao outro a razão de seu
sentimento em direção a ele, a resposta só poderia ser essa.”


Às vezes eu converso com os meus comigos. Hoje pela manhã, diante do espelho eu disse : hei dona Zélia, que cara estúpida é essa? Comeu e não gostou, foi? Vamos lá, como diz a musiquinha, enxuga a lágrima faz um sorriso, mostre a essa gente que é feliz e não começa com crises existências que eu não estou afim de ficar com peninha de ti. Fiz uma careta, ensaie um sorriso, só que amarelo... Ai, o comigo disse lá: Um conselho? Por que não fazes as malas e partes em busca da tua “Montanha Mágica”?( fazendo alusão ao livro de Thomas Mann, escrito em 1924, no original com o título em alemão Der Zauberberg e entre nós, “Montanha Mágica). Vai te “curar” em algum sanatório em Davos, nos Alpes suíço, vai procurar tua turma, desligue-se do tempo, sai da “planície” vai discutir com os que têm tendências e pensamentos iguais aos teus, sobre política, arte, cultura, religião, filosofia, a fragilidade humana, o caráter subjetivo do tempo, sobre o amor.


Falar sobre o amor... Qual? Amor físico? Amor platônico, amor materno, amor a Deus, amor a vida? E por falar em amor platônico, sabia que é uma expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos ( um amor impossível de realizar). Mas há quem afirme tratar-se de uma má interpretação da filosofia de Platão, quando vincula o atributo “platônico” ao sentido de algo existente apenas no plano das idéias. Porque Idéia em Platão não é uma cogitação da razão ou da fantasia humana.


É a realidade essencial. O mundo da matéria seria apenas uma sombra que lembraria a luz da verdade essencial. Disso pode-se concluir que o amor Platônico é uma interpretação equivocada do conceito de Amor na filosofia de Platão. O amor em Platão é falta. Ou seja, o amante busca no amado a Idéia – verdade essencial – que não possui. Nisto supre sua falta e se torna pleno, de modo dialético, recíproco. Nem de longe é a noção de amor covarde que nunca se realizará. Em contraposição ao conceito de Amor na filosofia de Platão está o conceito de Paixão.


A Paixão seria o desejo voltado exclusivamente para o mundo das sombras, abandona-se a busca da realidade essencial. O amor em Platão não condena o sexo, ou as coisas da vida material.E, feito a Esfinge, fico por aqui espantando Tebas, até que Édipo me decifre e eu por conta me atire no abismo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

POR QUE VOCÊ SE FOI?




PARA VOCÊ, QUE JÁ NÃO ME FALA E JÁ NÃO MAIS ME OUVE E NO ENTANTO, EU NÃO CONSIGO ESQUECER...

Não, não foi a cotovia que cantou e me despertou, foi o meu próprio silêncio que gritou e roubou o meu pensamento que até então te abraçava. Sentindo a tua fuga, absorvo o perfume que ainda está impregnado na minha pele e no lençol da minha imaginação e me perco nas lembranças...



Mas, o que farei com as lembranças? Me levará a entorpecer de saudade? O que farei com a saudade...? Por quê? Por quê? viver esta fantasia em câmara lenta quando o bom seria ter uma câmara que devolvesse você em forma rápida? Mas, de qual filme quero participar? Não! Não quero estar num filme choramingando feito uma pobrezinha abandonada. Quero um filme que fale de nós dois.



Quero ser a própria heroína, serei uma Dra. Han Suyin e serás o meu Mark Elliott e reviveremos Love Is a Many-Splendored ThingE me ponho a indagar: tudo isso é sonho ou realidade? Deitado estiveste comigo por uma noite toda? Confundem-me as lembranças e tenho medo da minha imaginação que de tanto desejar-te cria fantasias, que se perdem na bruma e nunca mais perto de mim consigo te encontrar, só te imagino, só te descubro perdido dentro de mim, mesmo assim te desejo e te sinto forte e dono.



Enquanto eu... Apenas lembranças... Por que você se foi...?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

BATE MEU CORAÇÃO PORQUE TU AMAS


Queixava-se de uma velha angústia, que dizia carregar a século e que sentia transbordar naquele momento. E como se manifestava a tal angústia? Através do medo? Da tristeza? Da dor? Do sentimento de perda?


Ora, se carregava a tal angústia através de século, por que não aprender a conviver com ela? Precisava pedir para endoidar de vez só por que não sabe ser um angustiado lúcido, sem saber como se conduzir na vida?

Por acaso conheces a vida num manicômio? Queres experimentar? Posso te internar. Então ficarás doido de vez. Dormirás doido e acordarás louco, teus sonhos não terão sentido, não serão sonhos, ficarás alheio.
Esta é tua casa, reconheces? Corrias por aqui quando menino e dormias sossegado naquele quarto. Ainda dormes sossegado? Vais me responder: e a angústia deixa? Você não é mais menino são. Quer Ficar doido quando homem? Por quê? Pelo terror da angústia? Estou com peninha de ti.

Ainda crês em alguma coisa? E religião, tens? Ah, tu és esquisito mesmo! Vai lá, diz pra mim o porquê da tua angústia. Não me digas que sofres por amor, se for eu riu de ti, não lembras quando por amor chorei e zombastes de mim por dizer desconhecer tal sentimento? Pois é, parece que o dia veio atrás do outro e teve esta noite para atrapalhar e enquanto clamas por uma loucura eu lúcida estou. Enquanto pedes um “manipanso” para crer, eu creio. Enquanto pedes que o “teu coração de vidro pintado estale” eu peço ao meu: bate coração porque tu amas!

PS: Qualquer semelhança com o poema “Velha Angústia” de Fernando Pessoa, pode considerar este texto um plágio.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

AINDA BEM QUE TUDO NÃO PASSOU DE UM SONHO



Sonhei que era Teseu e que matei um minotauro para conseguir escapar do labirinto em que me encontrava e assim me sentir livre, livre para voar. Tentei, mas as minhas asas de penas juntas com cera, iguais as do vaidoso Ícaro, derreteram pelo calor do sol e me fizeram cair sobre as águas revoltas do mar. No meu sonho não foi possível visualizar quem me retirou das águas. Só sei, que logo me vi num caminho vazio e sem fim e quanto mais andava a lugar nenhum chegava; as horas não passavam, os relógios não tinham ponteiros; os dias da semana resumia-se num só dia, sempre sexta-feira, triste como a da paixão. Sentia que fugia de mim a razão de viver, não havia alegria renovada para a minha alma.


De repente me vi juntando pedaços de mim... E não sabia se viva ou morta estava. E me senti “Solitária na companhia de meu próprio cadáver”... Não, morta não estava, ouvi um cachorro latir e tinha a impressão que tinha perfeita noção do que acontecia ao meu redor. Mas aquele caixão... Eu dentro dele... Aquelas flores murchas... Aqueles ratos... Aquela escuridão... Aquela falta de ar... Aquele cheiro... E os meus óculos? Cadê os meus óculos? Não, não estava viva, estava sem óculos, estava morta. A idéia foi tomando conta de mim e confesso que já estava me acostumando com a minha morte, embora alguma coisa negasse isto. Foi quando o pavor começou a tomar conta de mim... E se me enterrassem viva?


Tentei movimentar os meus membros e não consegui, também não consegui expressar-me e quando estava resignada a morrer por resignação, acordei. Sobre mim, aberto na página 21, Olhos de Cão Azul - “A terceira Renúncia – de Gabriel García Márquez. Ai, dei um sorriso amarelo, limpei o suor que escorria pelo meu rosto, levantei, bebi água, me certifiquei que estava viva de verdade e voltei pra cama. Afinal, estava explicado o sonho.

MAS, QUAL É O TEMA?



Uai! Meu céu está mais para nebulosa difusa do que para brigadeiro. E olha que o panorama visto daqui não é o de cima de um tamborete, mas sim de uma ponte .

Mas, qual é mesmo o tema para a crônica de hoje? Não sendo astrônoma, de nebulosa difusa que não é, como posso falar de uma coisa de tão difícil definição óptica, como diria das galáxias. Sobre brigadeiro, adoro os de chocolate, só não sei a receita. Além do mais, crônica no dizer de Fernando Sabino tem que ser uma coisa simples, amena. Se bem que haja controvérsia a respeito, há quem diga que ninguém tem mais tempo para ler as chamadas amenidades.

Diante do impasse como faço para entreter meu caro leitor, minha cara leitora... quando na realidade o que eu queria mesmo era falar mal do presidente e do seu governo? Pelo jeito tenho que me livrar de meter o bedelho nas questões graves, como essa da economia global, que ocupa a atualidade. Mas de uma coisa eu não abro mão, já que paira ameaça sobre nós, é de ir ali na botica da esquina mandar aviar uma receita composta de uma dose de moderação, duas de prudência e três de verdade, etiquetar e despachar para Brasília para ser entregue à Sua


Excelência, senhor e amo de todas as excelências.
E agora? Sem originalidade e com tanta gente boa aqui no Recanto escrevendo crônicas, como é que fica a minha? Não fica, dirão os entendidos. Acho que só me resta reclamar dos e das coleguinhas feito o escritor alemão Gottfired Keller, que queixava-se de Shakespeare acusando-o de ter aproveitado todos os temas fecundos, antecipando-se, assim, aos escritores que vieram depois dele, e prejudicando-os na própria originalidade. Isto é o que nos conta Carlos Alberto Nunes em “Introdução Geral e Plano da Publicação do Teatro Completo de Shakespeare”. Não é sem razão que a “obra prima” deixada por Keller foi "Romeu e Julieta na Aldeia". (Pelo título percebe-se de onde lhe veio a inspiração).

Ainda pensando nas excelências, e por isso e por mais aquilo, bateu saudade do meu avó Bernardino, pois se vivo fosse, e me visse “mocoronga” depois de uma bela carraspana, olhava pra mim, chamava pra si, apertava o meu braço nada magrinho (era gordinha quando garota) e dizia: aprenda mais esta, citando Suetônio: Vulpes pilium mutat nom mores. “A raposa muda o pêlo, mas os costumes não”.

AO APAGAR DAS LUZES



Havia um Ser. Havia uma canção no ar... Não era o bolero de Ravel, era L’indifferént com Jessye Norman. O Ser não era nenhuma Capitu de olhos de ressaca, obliquo e dissimulado procurando saída para seus sonhos. Nem tampouco nenhum Werther querendo entender o coração humano nem a queixar-se dos homens, que sofreriam menos se não se aplicassem tanto a invocar os males idos e vividos, em vez de esforçar-se para tornar suportável o presente .


Era apenas um Ser patético, que na sua quase ignorância nas coisas do amor e na sua lerdeza de Quasímodo, agarrava-se a um punhado de palavras escritas, procurando entender o significado delas, pois soavam tão destoantes das que já lhes foram ditas. Aos ouvidos do Ser, todas as palavras machucavam, mas apenas uma mais que as outras e que tanto lhe confundia: louco! Louco! Louco! Por que louco! Por ter amor dentro de si? Por não enxergar a maldade? Por confiar nas pessoas? Por ser tido como bonzinho? Para o Ser, quão difícil estava sendo desviar o olhar daquelas palavras, mas ele sentia que precisava se desligar delas, estavam carregadas de lembranças outras e exigiam dele que fossem sufocados sonhos e bem querer... Ao seu alcance um Caneletto não aberto, não era de vinho que precisava o Ser, ele precisava embriagar-se com aquelas palavras, elas precisavam embotar o seu cérebro, queimar os seus neurônios. Não foi sem dificuldade que o Ser levantou-se. Madrugada já se fora e logo mais a cotovia canta. Ao apagar das luzes, cortinas cerradas, na escuridão do quarto tropeçou em algo, segurou o palavrão e jogou-se por sobre a cama, braços cruzados sob a cabeça virada para um lado, atento ao irritante tic tac do relógio, que foi arremessado contra a parede. Reinando o silêncio, os olhos foram fechados esperando o dia raiar, afinal, um outro dia surgiria e um outro dia é sempre um outro dia...


E o outro dia surgiu , tão calmo e tão sereno, que ao Ser, só coube - observando o quarto em desordem, uma cadeira num canto virada e o sem número de papeis amassados, jogados por todo o ambiente - indagar: VIVI ISTO? SE VIVI, ESQUECI. Cadeira levantada, papeis apanhados e sem mais serem lidos, atirados um a um na cesta do lixo... E com passos firmes e decididos, caminhou o Ser em direção à porta, destrancando-a e saindo para oferecer o seu primeiro sorriso e desejar um bom dia a quem primeiro surgisse à sua frente. E deu bom dia e sorriu para o pequeno jornaleiro.

SOBRE O MEDO



Existem tantas maneiras de sentir medo e muitas vezes ele se manifesta através da angustia, do pavor da inquietação, temor e outras tantas formas inquietantes.
E o que dizer do medo que se passa a sentir de alguém? Há quem afirme que possa parecer um paradoxo, mas quando estamos sentindo medo de alguém, provavelmente este alguém também está com medo de nós. Afinal, somos todos iguais.

Li de Fábio Ferreira Balota, uma descrição sobre o medo, que transcrevo abaixo:
“ O medo é o movimento fantasioso que a mente faz, na tentativa de repelir, de impedir que um acontecimento indesejável do passado ocorra novamente no futuro. Esta repulsão acaba por reforçar a lembrança da dor. É o apego a dor, apego a idéia da dor, da punição, da vergonha, da humilhação. Tal repulsão é o desejo, a expectativa, a ansiedade de que estas coisas não se repitam. Tal repulsão é o desespero para evitar que venhamos a sentir dor , que venhamos a sofrer. É o apego ao pior, ao ruim”.

E acrescenta: “ O medo nasce da comparação entre nossas ações e nossos conceitos, padrões e valores ou das comparações que fazemos entre nós e as outras pessoas o que na realidade também acaba por se remeter a nossos padrões, conceitos, valores, aos nossos julgamentos”.
No meu entender, o mais importante sobre esses conceitos sobre o medo é o que diz: “ O medo embota a mente. Impede-nos de agirmos de forma correta, de forma reta, impede-nos de falarmos diretamente e nos leva à mentira e à falsidade . Com medo não podemos ser retos”

A propósito, antes de se deixar levar pelo medo, é bom nunca esquecer , também, que as lentes dos óculos determinam o modo como você percebe a realidade, segundo Jostein Gaarder. Ainda Gaarder, tudo o que você vê é parte do mundo que esta fora de você mesma; mas o modo como você enxerga tudo isto também é determinado pelas lentes dos óculos e se estas forem vermelhas/escuras, você não pode dizer que o mundo (ou pessoas)é vermelho/escuro ainda que neste momento ele pareça vermelho/escuro. Mas isto são termos comparativos de visão entre racionalistas e empíricos. Disto falarei noutro momento

CRER, FAZER CRER, EIS A QUESTÃO



O meu pensamento está disperso e vadio e nesta condição iniciarei o texto de hoje, se tropeçar nas palavras, paciência, é que também estou me sentindo tal qual Manuel Bandeira quando afirmou: “ Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”.

E esta coisa pensante que sou, que não sabe o que quer , que em nada crer e que só vive enleada em tantas dúvidas e quanto mais procura instruir-se mais descobre a sua santa ignorância, quer saber de quem sabe se quando não existe a razão de crer, como é que fica a vida?
Alguém soprou no meu ouvido parafraseando o chato do Shakespeare: crer, fazer crer, eis a questão.

Quem me fará crer? Que venha a mim “Fiat Lux” e com ela palavras que dêem prazer aos meus ouvidos, prendendo-me e subjugando-me e que os meus sentidos coloquem-se atrás da razão e não se neguem a acompanhá-la para que eu possa deixar de ser para mim própria esse enigma que sou.
Enquanto luz nenhuma alcanço, fico aqui brigando comigo mesma e tentando me situar entre os filósofos do barril (os cínicos) de Antístenes e os estóicos de Zenão, pois estes acreditavam que todas as pessoas são parte de uma mesma razão universal e que cada pessoa é um mundo universal em miniatura, um “microcosmo”, reflexo do “macrocosmo”. Mas também posso descambar para o lado dos epicurus, filosofia criada por Epicuro, baseada no pensamento de Aristipo, que acreditava que o objetivo da vida seria obter dos sentidos o máximo possível de satisfação. Afirmava também que o prazer era o bem supremo e a dor, o mal supremo. Essa filosofia libertadora resumia-se em “quatro remédios”:

Não precisamos temer os deuses.

Não precisamos nos preocupar com a morte.

É fácil alcançar o bem.

É fácil suportar o que nos amedronta.

E por aqui fico. Eu e o Mundo de Sófia...

PERDIDA NO JARDIM DE CAMINHOS QUE SE BIFURCAM



Hoje amanheci perdida no “Jardim de caminhos que se bifurcam” de propriedade de Jorge Luiz Borges, e não faço a menor questão de ser achada . Por favor, ninguém se dê ao trabalho de chamar o Corpo de Bombeiros. Estou fugindo que nem o snoopy, cansada deste mundinho, de me sentir tautológica, de explicar por formas diversas, a mesma coisa: não sou isso; não fiz isso; não faço isso; quê quê isso; não quero isso; quem fez isso; por que isso; isso, isso, isso; de ser indagada “se em B influem A ou C; em Aproximação a A, pressente ou advinha através de B a remotíssima existência de Z. a quem B não conhece”. Agora, eu indago do leitor/leitora se já leu The Secret Fount (1901) pois, desavergonhadamente, confesso, que puxei o aspeado ai de cima, de lá, com a aquiescência do dono do Jardim.

E nessa minha fuga percorri alamedas, transpus corredores, ouvi conversas estranhas sobre espelhos, considerados monstruosos e tão abomináveis quanto a cópula, porque multiplicam o número de homens. Coisa de louco, ou melhor, pensamento dos heresiarcas de Uqbar, relatado por Bioy Césares. Deixa pra lá, coisas saídas da cachola do escritor Jorge Luiz Borges
Cáspite! Mas esta minha crônica está saindo mais complicada do que o texto da criativa escritora AnaMarques: O Testículo Que Não Queria Sair , que, para comentar, pedi help à autora. Quem quiser fazer um teste de inteligência vá lá na Ana, leia o texto e descubra no final, se é o cachorro ou o testículo quem fala.

E assim, caminhando, cheguei às terras baixas - terras baixas, sim senhor, ta lá escrito, de Tsai Jaldún... Estou cansada, se ao menos encontrasse um meio-fio eu sentaria e jogaria pedras a esmo. Mas, também, serviria a margem de um rio... Quando falei em terras baixas me veio à mente “terras elevadas ” da Ana, (sem sobrenome) personagem de que muito gosto da escritora Marília Paixão e em homenagem a tal personagem, o rio bem que poderia ser o Mandu, ai eu penduraria a minha harpa num ramo de um salgueiro, se nessa margem tivesse, sentaria e choraria... Mas, espere ai, eu choraria por quê ? Por isso? Isso? isso? Ah, tenha paciência, choro nada!

SAUDADE DE UM BEIJO QUE NUNCA DEU



Sinceramente, como pode alguém sentir saudade de um beijo que nunca deu? É do que está se queixando o Nelson Gonçalves de sua amada Maria Betânia, musa da canção que interpreta e que a FM executa no momento. Coisa do amor e este tema não é da minha seara, aqui no Recanto tem quem domine o assunto , com a maestria de fazer inveja a qualquer expert , as escritoras Evelyne Furtado (de sensibilidade à flor da pele), que não me deixa mentir, tamanho o conhecimento de causa e a Marília, que apesar de sua versatilidade e capacidade de abordar vários temas e cujo sobrenome: Paixão, parece autorizá-la, junto com o seu jeito peculiar de sentir e dizer as coisas, tecer considerações que envolvem tal sentimento e que muito agrada a nós leitores.

Contudo, didaticamente, posso até falar sobre o beijo. Duvide não, viu? Veremos como me saio:
Quantos beijos imagina o leitor, que trocamos no decorrer de nossas vidas? No mínimo 24 mil beijos! Com relação a “química”, que envolve o beijo o que acontece com os nossos sentidos? Aciona 29 músculos, acelera o ritmo cardíaco de 60 a 150 batidas por minuto, produz uma forte descarga de adrenalina e fortalece os pulmões.

Como surgiu o ato de beijar na boca? De acordo com alguns cientistas o beijo teria se originado no costume das mães primitivas de passarem a comida triturada em sua boca para a boca de seus bebês – uma forma rústica de fazer a papinha ( só que os tais cientistas não explicaram até hoje, porque o hábito de se unir as bocas teria sido mantido mesmo após essa antiga técnica de alimentação ter desaparecido)

Interessante também, é a descoberta do homem da idade da pedra. Ele acreditava que o sal lhe devolvia as forças nos dias de calor e percebeu que poderia obtê-lo lambendo a pele e também os lábios de seus semelhantes.

Demorou alguns séculos até que a teoria da psicanálise fundamentasse que as pessoas encontram prazer através do beijo, simplesmente porque a boca é uma fonte de excitação, assim como outras partes do corpo, não necessariamente próximas dos órgãos genitais. Só que ainda não houve uma explicação quando e porque o beijo amoroso do casal humano se diferenciou do beijo entendido como sinal de afeto ou de reverência.

E para encurtar esta conversa fica dito por mim, que beijar é um ritual inspirado, solene, apaixonado e gentil e constitui há séculos uma forma de transmitir sentimentos entre dois seres que se amam.
Fonte de pesquisa: Tudo - Livro do Conhecimento – Editora 3 .

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

VOA MINHA LIBERDADE



Já não me sinto Sísifo castigado pelos deuses, rolando pedra acima, vendo-a descer encosta abaixo para erguê-la de novo, onde o esforço representa o nada.

Agora me sinto livre, estou pronta para assumir o poder sobre mim mesma, pelo que represento e por quem represento. E eu represento a minha própria liberdade de expressão. Então, eu me permito pensar e falar, e plagiando Jessé vos digo: “Voa minha liberdade/ no estalo do meu grito/ quero ver teu infinito / neste azul sem dimensão...” Só não me permito sonhos desvairados e nem penar, pois a minha liberdade não está mais na dor.

Assim, mudo eu, a “vida, vidinha, vidona”, mas as portas cerradas permanecem fechadas e o que sobra é a diáspora. Afinal, quem matou a paz foi Raskolnikov e não eu. (verdade, Dorian, que está no céu?)

O pensador católico Alceu do Amoroso Lima, sentenciou quando vivo: “Somos todos patéticos”. Acredito que sim. Olhe eu aqui, repetindo o fraseado de um homem de nome pomposo, Dom José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo não salvo a mim mesmo” (sem conotação metafísica). Tem quem afirme (Nivaldo Cordeiro), que depois do “Penso logo existo” de Descartes, esta é a síntese filosófica mais perfeita de um pensador.
Provando mais uma vez o quanto admiro os loucos, deixo de Nietzsche o “VI Selo” (Assim Falou Zaratustra):

Se a minha virtude é virtude de bailarino, se muitas vezes pulei entre arroubamentos de ouro e de esmeralda;
Se a minha maldade é uma maldade risonha que se acha em seu centro entre ramadas de rosas e sebes de açucenas, porque no riso se reúne tudo o que é mau, mas santificado e absolvido pela sua própria beatitude;

E se o meu alfa e ômega é tornar leve tudo quanto é pesado, todo o corpo dançarino, todo o espírito ave: e, na verdade, assim é o meu alfa e ômega;
Como não hei de estar anelante pela eternidade, anelante pelo nupcial dos anéis, pelo anel do regresso das coisas (...)

sábado, 29 de novembro de 2008

DO QUE OUVIA E DO QUE LIA



O que ouvia: Prelúdio, introdução Bachianas Brasileiras nº 4 de Heitor Villas Lobo, executada ao piano por Miguel Proença; O que lia: Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam.
A música continua. Pausa na leitura..., quero saber de mim se a senhora “Moria” ( loucura em grego) preocupa-me. Respondo de pronto: Canguru, que numa das línguas australiana significa “Não sei”.

Por que não sei? Porque não se deve qualificar de loucura todo erro de espírito e de senso; porque não se pode taxar de louco alguém de vista curta, que toma burro por jumento; ou por falta de senso crítico entender como ótimo um mau poema; porque alguém confunde o zurro de um burro com uma sinfonia ou porque sendo alguém de origem humilde acredita ser o rei Creso, da Lidia, que foi o homem mais rico da terra, criador da moeda de ouro e que certa vez perguntou para Sólon se não era ele mais feliz dos mortais, o filósofo respondeu-lhe: “ Majestade, vós me pareceis muito rico, tendes um grande reino; reservo-me, porém, para responder à vossa pergunta quando fordes muito feliz”. (aprendi com Erasmo)

Então, como definir a loucura? Se eu uso da semântica no meu discurso de louco, não me acerco da razão de ser? Não falo o que penso?

Não cabe mais em nossa época a visão de Homero, de que o homem não passa de boneco nas mãos dos deuses e que o nosso destino é manipulado ao bel prazer dos “moiras”, levando a certo grau de loucura. Sócrates acreditava nisso e estabeleceu quatro tipos de loucuras: a profética; o oráculo; a loucura amorosa produzida por Afrodite e a loucura poética produzida pelas musas.
Fica com Hegel a palavra final, pois afirmou que a loucura não seria a perda abstrata da razão: "A loucura é um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente". A loucura deixou de ser o oposto à razão ou sua ausência, tornando possível pensá-la como "dentro do sujeito", a loucura de cada um, possuidora de uma lógica própria. Hegel tornou possível pensar a loucura como pertinente e necessária à dimensão humana, e afirmou que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, pois a razão humana só se realizaria através dela.



segunda-feira, 24 de novembro de 2008

É HORA DE "ARAR O MAR"



Verdade, o tempo está passando célere e logo, logo tomarei o rumo da minha "ilha da fantasia" , o que muito me deixa feliz porque sinto que já é hora de "arar o mar", limpar a casa, abrir portas e janelas, expulsar fantasmas, deixar a alegria outra vez entrar

Enquanto esse dia não chega, fico cá com esta minha vidinha boa que o papai e a mamãe me deram, não me importando se o santo venerado seja o padrinho padre Cícero do Juazeiro ou Nossa Senhora Aparecida. É tutto cosa nostra ( no bom sentido ).

Mas existe quem reclame da vida e deste mundo e o considere um eterno vale de lágrimas, haja vista, que nem o Filho do Criador escapou quando pôs os pés por aqui .

E qual a opinião dos grandes pensadores que viveram no século passado, tendo a Europa como berço e que foram testemunhas sensíveis das tragédias da época, levando-os a descrer, muitos deles, que este planeta fosse sustentado pelas mãos de um Deus inteligente e benévolo e outros tantos, diante do problema do mal, erguiam "uma interrogação muda às estrelas indiferentes, a indagarem por quanto tempo, ó Deus, e por quê? Seria calamidade universal a vingança de um Deus justo contra uma Idade da Razão e da descrença?


Seria um chamado ao intelectopenitente para que se curvasse diante das antigas virtudes da fé, esperança e caridade? Nisso acreditavam Schlegel, Novalis, Chateubriand, Musset, Southey, Wordswort e Gogol; e eles voltaram-se para a velha fé tal como filhos pródigos contentes de regressarem ao lar.

Mas outros tinham uma resposta mais dura: a de que o caos não era senão o reflexo do caos do Universo; que não havia afinal ordem divina nem nenhuma esperança celestial; que Deus, se é que existia, estava cego e que o Mal proliferava na face da Terra. A este último grupo pertenciam Byron, Heiine, Lermontof, Leopardi e Schopenhauer" ( fonte: A Filosofia de Schopenhauer).

De minha parte, vos digo: não custa nada ter um pouco de fé e esperança em Deus, já que não faz mal a ninguém e que apesar dos pesares, prevaleça em todos nós uma "visão consoladora de uma vida mais ampla, em cuja beleza e justiça final esses males horrorosos que nos assaltam se dissipem."

QUANDO ZÉLIA CHOROU



"Nenhuma moral, nenhumaObediência, nenhuma açãoProduz aquele sentimentoDe potência e liberdade que0 amor engendra".(Nietzsche)

Zélia chorou e não foi por conta de nenhum psicoterapeuta. Não foi D. Yalon que escreveu a sua história, mesclando elementos reais com a ficção. Zélia chorou quando ao ler, que certa vez, já no auge de sua loucura, Nietzsche ao perceber que sua irmã o olhava com lágrimas nos olhos e não compreendendo por que ela chorava, indagou: " Lisbeth, por que estás chorando? Não Somos felizes?".

Chorou Zélia por Nietzsche, ou chorou Zélia por Zélia? Afinal, ela não é feliz também? Tão feliz, que age como os idealistas que, se são expulsos do céu, fazem um ideal do seu inferno? (Nietzsche).

Zélia é conhecedora da obra de Nietzsche? Não , não é. Ela não é nenhum Foucault, Deleuze, Klossowski, Marx ou Freud. E o que Zélia busca em Nietzsche? Uma "máscara". Uma máscara para esconder a vergonha de não tê-la; uma máscara para sufocar sentimentos; uma máscara para através dela observar a vida, as pessoas e aceitá-las como de fato são.

Observar as pessoas, seus sentimentos, o amor. Ah, o amor... L'amour est de tous les sentiments Le plus egoiste, ET, par conséquent, lorsqu'il est blessé Le moins généreux (O amor é o mais egoísta de todos os sentimentos e, consequentemente; quando contrariado é o menos generoso Benjamim Constant)

E aquele que me lê, que tire sua conclusão a respeito do que se segue: "A vida só se pode conservar e manter-se através de imbricações incessantes entre os seres vivos, através da luta entre vencidos que gostariam de sair vencedores e vencedores que podem a cada instante ser vencidos e por vezes já se consideram como tais. Neste sentido a vida é vontade de poder ou de domínio ou de potência.


Vontade essa que não conhece pausas, e por isso está sempre criando novas máscaras para se esconder do apelo constante e sempre renovado da vida; pois, para Nietzsche, a vida é tudo e tudo se esvai diante da vida humana. Porém as máscaras, segundo ele, tornam a vida mais suportável, ao mesmo tempo em que a deformam, mortificando-a à base de cicuta e, finalmente, ameaçam destruí-la".
PS: Este não é necessariamente o meu pensamento.

VISÃO DE GOVERNANTE



Ouvindo sua excelência o presidente da república, desfilando toda segunda-feira, no seu programa de rádio, os seus portentos, confesso a minha frustração, não com sua excelência, mas pela minha falta de visão de governante, pois sem ela sou incapaz de enxergar o mais cor-de-rosa possível o meu país; a condição favorável de vida de sua gente.


Ver, sentir como é dito, que tudo funciona à contento: saúde, educação, agricultura, reforma agrária, assentamentos, enfim, tudo que diz respeito as metas preestabelecidas pelo então candidato e hoje nosso presidente, em consonância com os reais deveres do Estado.

Quisera eu, transpirando esperança, com uma visão de governo-3D, lançar um olhar atravessado pros pessimistas e com cara de quem já venceu a ignorância, os males da carne, a dor, a fome, a miséria, a angústia do desemprego, a morte e alcançou o atman (o eu) e já se acha em conexão com o mar eterno do ser que flui por trás das aparências ilusórias, proclamar: brava gente brasileira, regozijai-vos, alcançamos o tão sonhado porvir; a Etiópia não é mais aqui! (viu Mônica Mello?)

Infelizmente, a minha visão é de vassalo subserviente com perda parcial da transparência do cristalino. Assim sendo, sem querer ofender, indagaria de sua magnificência, - e ai não vai nenhum desdém, haja vista reconhecer a vossa qualidade de magnificente, não só eu, como o Mundo, que o terá brevemente entre os seus mais destacados líderes – pelos vossos passos e manifesto desejo, corroborado pelas palavras de mim sibila que, para a consagração terrena, só falta aparecer no programa de domingo do Paulo Henrique Amorim na TV do honorável papa/bispo Edir Macedo, senhor e dono da IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS.

Mas, como ia dizendo, indagaria de vossa magnificência, se não seria hora de deixar de rodopiar pelos salões ocidentais e orientais, freqüentados por presidentes, príncipes e imperadores e dar uma voltinha pela nossa periferia, só para conferir se de fato as coisas caminham como imagina, antes que seja tarde e não se veja surpreendido pelas mazelas impostas a nós pobres mortais, como aconteceu com um certo rajá de nome Sidarta, filho do rei Suddhodana, que reinava próximo ao Himalaia, na atual fronteira do Nepal, lá pelos idos do século VI a.C. e que tentava isolar o filho do mundo, impedindo-o de ver o sofrimento.


Mesmo assim, Sidarta, deixando a vida faustosa da corte resolveu à revelia do pai, acompanhado de seu escudeiro-cocheiro Xana, verificar o que acontecia além dos muros do palácio. De pronto deparou-se com um velho enrugado, trêmulo, apoiado a uma bengala. "O que é isso?" – perguntou assustado ao cocheiro – É a vida, meu senhor" – respondeu este. E a mesma coisa disse quando Sidarta encontrou um enterro e um doente coberto de chagas.

Dessa forma o rajá conheceu a dor, a morte e o tempo que tudo consome, e se sentido impotente diante do sofrimento que tomava conta de seus súditos, Sidarta abandonou a corte e suas benesses e virou Buda, que o mundo conhece.

Agora, aqui pra nós: saber dos nossos males sabeis, e até deles vossa magnificência provou em priscas eras, mas nem por isso anda macambúzio, vai largar a corte e nem partir para a penitência, pois não?

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE CINEMA



"Os relacionamentos não realizados são sempre mais românticos" ( Maria Helena, personagem vivida por Penélope Cruz).

"Vicky Cristina Barcelona", sob a ótica de Contardo Calligaris, (Folha de S. Paulo),é mais um filme típico de Woody Allen, que trata do relacionamento entre casais e segundo Contardo, descamba para o amor-paixão, que é uma tentação irresistível e um protótipo da vida intensamente vivida. Mostra também que nem sempre os relacionamentos dão certo, mesmo aqueles que parecem certo.


A análise que Contardo faz, - e ai usarei suas próprias palavras - diz respeito aos casais que se amam por "paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -. É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível, por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida".

É sabido que o amor-paixão não é um sentimento comum entre casais "normais". Normalmente vivemos relações não tão conflituosas. Mas ainda Cotardo, não seria tão mal vivê-la " em geral, nesses casais "normais", ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: "O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar..."

Deixo as considerações finais com Contardo, que nos diz: " como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (as más línguas diriam, aliás, que é mais fácil idealizá-la sem tê-la vivido em momento algum). Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a "normalidade" amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais "razoáveis" do que racionais .


Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde. A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida.. Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.

Por fim fica dito, que o filme do Wood Allen é "triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas , no fim, tudo isso não transforma ninguém. Os personagens vão embora iguais ao que elas eram no começo". Ficando provado assim, que o amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona". Segundo Contardo.

CADA UM QUE SEJA RESPONSÁVEL PELO QUE ESCREVE. ASSIM FALOU O PROFETA



Nem precisei queimar as pestanas debruçada sobre os alfarrábios para saber que o alfabeto – sem as vogais, que foram criadas pelos gregos – foi invenção dos da cidade de Biblos, Na Fenícia. Assim o método de Biblos com a adaptação grega tornou a escrita fácil e espalhou-se rapidamente pelo mundo. Em que pesasse a necessária autorização do governo para o uso de tal alfabeto. Antes de tomarem rumo os textos escritos careciam da fiscalização do Conselho de Serepta.


Havendo quem indagasse se diante da nova invenção Deus desapareceria das palavras. No que respondeu um profeta do Senhor: "Continuará nelas. Mas cada pessoa será responsável diante Dele, por tudo que escrever.

Sei destas coisas porque li " O Monte Cinco", de Paulo Coelho, escriba cujos "manuscritos sagrados" estão espalhados e lidos por cinqüenta e seis países – e note bene – premiado pela Itália, Austrália, Estados Unidos e França. E que já, segundo afirmou, sentou-se à margem do rio Pedra, pendurou a sua harpa no ramo dos salgueiros e chorou. Só não sei se foi por conta do salmo 137, que por "coincidência" diz: " Junto aos rio de Babilônia nos assentamos e choramos, lembrando-nos de Sião". Além de ser responsável diante do Senhor por tudo quanto escreve. Assim falou o profeta.

Também está escrito no livro do mago, que trata da história romanceada do profeta Elias, baseada no Livro I - Reis da Bíblia, que "ninguém pode desejar o amor de Deus, se antes não conheceu o amor humano". Quem afirma isto é um anjo do Senhor ao angustiado Elias, apaixonado que estava pela viúva de Serepta e por conta dessa paixão, o Senhor ordenou a Elias que procurasse a viúva e com ela juntasse os trapinhos e fosse por ela sustentado.


Pela conversa entre o anjo e o profeta, percebe-se que não se trata de amor fraterno, platônico, mas de amor carnal. O que me levou a pensar: e aí como é que ficam os já passados de anos, na condição de donzelos/donzelas, enfim, toda a clerosada diante dos seus votos de castidade? Como é que eles podem desejar o amor de Deus se não conhecem o amor humano (carnal)?

Que responda o mago , foi ele que pôs na boca do anjo dita sentença. Afinal, ele é responsável por tudo o que escreve. Assim falou o profeta.