sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

SOMOS OU NÃO SOMOS DIABÓLICOS?




Ando tão vazia de pensamento, que me pus a cascavilhar o pensamento dos outros.

E vamos atacar de Humberto Eco, dissecando e questionando Pirandello, que do alto de sua sabedoria, tratou nos seus estudos, lições e ensaios sobre o tema “Humorismo”, ficando registrado que o único animal que sabe rir é justamente àquele que, devido a sua irracionalidade e ao seu desejo frustrado de racionalizá-la, não tem razão nenhuma para rir. Ou melhor, que ri justamente e somente por razões muito tristes.

Já Baudelaire, define o riso como profundamente humano, portanto é diabólico, e explica: os anjos não riem; o diabo sim. Tem tempo a perder, toda uma eternidade para cultivar o próprio mal-estar, numa associação do cômico à sensação de mal-estar.

Pensando bem, Baudelaire tem lá suas razões. Vejamos numa seqüência de fatos, que o riso nasce geralmente de alguma coisa errada que não nos diz respeito, e quando somos capazes de rir da desgraça de um semelhante nos tornamos diabólicos.

Quem de nós pode conter o riso diante de um semelhante empertigado a escorregar e ir ao chão?

Quem diz nós não ri de uma piada de marido traído?

Quem de nós não ri de uma caracterização cômica expondo o desvio sexual de um nosso semelhante?

Quem de nós não ri da miséria explorada de forma humorística?

Quem de nós não ri das piadas irreverentes sobre os nossos homens públicos?

O bêbado nos faz ri, a velhice camuflada provoca o riso, os loucos idem..

E sobre tudo o que foi dito, chega-se a seguinte conclusão: “pode-se até sorrir, mas as razões pelas quais se sorri são as mesmas pelas quais se chora”.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

JOSÉ DE ALENCAR E A MÁQUINA DE COSER


Hoje, nada de cogitar idéias nem parafusar novidade, vou dar um mergulho no tempo, me reportar ao ano de 1854, quando aos 25 anos de idade José de Alencar, antes de se transformar no nosso maior escritor romântico, exercitou a pena como cronista nos jornais do Rio de Janeiro.

Segundo João Ribeiro Faria (crônicas escolhidas José de Alencar - Folha de São Paulo) naqueletempo a crônica chamava-se folhetim e era destituída das características que tem hoje. Publicadas aos domingos, tinha por objetivo comentar e passar em revista os principais fatos da semana de forma genérica. E num único folhetim podiam estar, lado a lado, notícias sobre a guerra da Criméia, comentários a respeito do espetáculo lírico, especulações na Bolsa, um baile no cassino ou sobre o asseio da cidade do Rio de Janeiro (acometida na época por um surto de cólera, que o cronista o tratava como "diabo azul" por não ter certeza a qual gênero pertencia, se masculino ou feminino).

José de Alencar em seu folhetim, que levava o nome de "Ao correr da pena", datado de 3 de novembro de 1854, expressa a sua opinião a respeito da "máquina de coser", invenção americana chegada ao Brasil e que ele foi conhecer de perto numa visita que fez à fábrica de coser de Madame Besse, situada à rua do Rosário, n. 74.

Eis algumas considerações do folhetinista a respeito dos "malefícios" da tal invenção no que fiz respeito ao belo sexo:

Sobre a "maldita invenção" diz o cronista, que o belo sexo não pode deixar de declarar-se contra, pois priva os seus dedinhos mimosos de uma prenda tão linda e acaba para sempre com todas as graciosas tradições da galanteria antiga. As mãozinhas delicadas da amante, ou da mãe extremosa, trêmulas de felicidade e emoção, não se ocuparão mais com aquele doce trabalho, fruto de longas vigílias, povoadas de sonhos e de imagens risonhas. Que coração sensível pode suportar friamente semelhante profanação do sentimento?

Para o cronista, no entanto, a invenção da máquina não despoetizou a arte. E diz: " Até agora, se tínhamos a ventura de ser admitidos no santuário de algum gabinete de moça, e de passarmos algumas horas a conversar e a vê-la coser, só podíamos gozar dos graciosos movimentos das mãos, porém não se nos concedia o supremo prazer de entrever sob a orla do vestido um pezinho encantador, calçado por alguma botinazinha azul; um pezinho de mulher bonita, que é tudo quanto há de mais poético neste mundo".

Em 1855, o folhetinista tarado por um pezinho de mulher, prevendo os meios de comunicação de nossa era, sentenciou: "Tempo virá em que uma palavra que cair do bico da pena daí a uma hora correrá o universo por uma rede imensa de caminhos de ferro e de barcos de vapor, falando por milhões de bocas, reproduzindo-se infinitamente como as folhas de uma grande árvore. Esta árvore é a liberdade; a liberdade de imprensa, que há de existir sempre, porque é a liberdade do pensamento e da consciência, sem a qual o homem não existe; porque é o direito de queixa e de defesa, que não se pode recusar a ninguém".


domingo, 17 de fevereiro de 2008

A CULPA É DE MEU PAI


Quando eu era menina de engenho eu queria conduzir carro-de-boi; manobrar as engrenagens do engenho; mexer os tachos de mel efervescente; por às costas os sacos de açúcar e mais: subir no coqueiro; ser vaqueiro e até feitor. Aí o meu jovem pai me dizia: menina não leva jeito para essas coisas. E me mandava brincar com bonecas feitas de espigas de milho verde.

Quando eu era mocinha da cidade eu queria estudar música, compor e ser tão famosa... Como desconhecia uma mulher compositora de nome consagrado, eu dizia: igual a Schubert, por conta de sua Ave Maria, que escutava todos os dias. Queria ser inventora, como Thomas Edson, Santos Dumond, Alexandre Grham Bel, de cujas invenções tanto o meu avô falava. Queria ser filósofa, admirava Platão porque dele me falava o velho professor Cabral, afirmava ele que Platão possuía a sabedoria e também a arte e que o filósofo e o poeta moravam numa só alma. Queria ser dramaturga, como Shakespeare. Queria ser igual a Machado de Assis, afinal já tinha lido e relido A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia. Então o meu velho pai me dizia: mulher não tem cabeça para essas coisas. E me mandava aprender a fazer bolo com a minha mãe, cuidar de crianças, lavar pratos e arrumar a casa com a Júlia e lavar roupa com a dona Maria Ventura.

Hoje, sem pai para me dizer o que me é permitido fazer e do que sou capaz, fico imaginando se de fato essa diferença de quatro milhões de células nervosas, apregoada pela doutos cientistas deixam nós mulheres menos inteligentes do que os homens De minha parte, uma coisa eu sei que não sei: a falta que os tais neurônios me fazem , nem aonde eles deveriam atuar: se no cérebro, cerebelo ou bulbo.

Agora, de uma coisa eu sei que sei: se rodaram poucas saias entre as cabeças pensantes que deixaram legados notáveis à humanidade, a culpa é de meu pai, do pai dele, do pai do pai dele e por aí vai...


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

EMOÇÃO INDIFERENTE





A televisão exibe um rapazinho caído ao relento e desfalecido, alguém o carrega sob os olhares curiosos dos que dele se acercaram. Quadro de novela.

A cena acima descrita suscita emoção. Então, questiono: por ser uma mera representação? Até onde a realidade também nos comove?

Sobre tal assunto li certa vez do mestre Mário Moacyr Porto, um texto onde ele fez uma explanação a respeito do sofrimento de verdade e a desgraça de ficção, como isso nos atinge. Sustenta o mestre que no mundo moral – "que é um mundo construído pela inteligência – o bem e o mal só existe para nós como forças contraditórias e atuantes quando passam da condição de juízo de valor do raciocínio para a categoria de estados emocionais, vividos pela imaginação. O espetáculo da miséria humana, as brutalidades do egoísmo, o sofrimento real e irremissível dos nossos iguais não nos tocam, por isso mesmo, como realidades sensíveis e contagiantes. Basta, porém, que se substitua este sofrimento de verdade por uma desgraça de ficção para que o sintamos em toda a sua plenitude. Um mendigo andrajoso, faminto, miserável, que nos pede ajuda, não provoca, habitualmente, emoção ou piedade, se o espetáculo da sua flagrante miséria não se valoriza com um “décor” estético. É uma realidade neutra. No entanto, o sofrimento de ficção que nos revela o teatro, o cinema, ou qualquer forma de expressão artística, comove-nos até as lágrimas. Como se explicaria, assim, esta aparente contradição da sensibilidade humana, isto é, indiferença aa vista de um sofrimento real e comovido enternecimento em face de um infortúnio de ficção? Por que o sofrimento no teatro é mais real do que o sofrimento que a vida expõe a nossos olhos?"

Explicação do mestre: “ É que o bom e o belo não é o que vemos, e sim o que sentimos". .









domingo, 10 de fevereiro de 2008

INTRANQUILIDADE


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HAVIA TRANQUILIDADE NO MAR

MAS NÃO HAVIA TRANQUILIDADE EM MIM

HAVIA UM CÉU AZUL E ASTROS LUMINOSOS

MAS A MINHA ALMA PARECIA ENVOLTA EM TREVAS

HAVIA, HAVIA E EU SENTIA UMA SAUDADE PROFUNDA

DE GENTE DISTANTE

MAS NÃO HAVIA QUEM DE MIM SENTISSE ESSA MESMA
SAUDADE

HAVIA AMOR EM MIM

MAS NÃO HAVIA NINGUÉM PRA AMAR

HAVIA MEDO EM MIM

MEDO DE NOITES COMO ESTA

MEDO DE VIVER E SER SÓ















quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

FUJO DE TI

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POR NÃO ADMITIRES

O AMOR QUE PROCLAMO

O PENSAR

SEM AMARRAS

O AGIR

SEM CULPAS

ENFIM,

A LIBERDADE QUE EXIJO

FUJO DE TI

Ô MUNDO QUE NÃO TE QUERO REAL

SOU COMO O CAVALEIRO DE TRISTE FIGURA E TODOS OS

SONHOS

E SEGUINDO OS SEUS PASSOS

FAÇO DO MEU CORPO A ARMADURA

DE MINHA REDE O MEU CAVALO

DOS LIVROS A MINHA LANÇA

DA MINHA IMAGINAÇAO OS CAMINHOS À PERCORRER

E PARTO EM BUSCA DOS MOINHOS DE VENTO...



quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

VERDADE

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· Nunca me fez sentido a VERDADE, dizem que também não fazia para Clarice Lispector. Mas, teria eu medo dela? E se medo tivesse seria a razão de enterrar-me viva em casa no fundo do quarto mais soturno?

VERDADE... Quem mais dela sabe, mais capacidade tem de mentir. Coisas do velho Sócrates.

· Já nem lembro..., mas conversamos sobre isto, amigo Dorian? (como se ele pudesse responder. Os mortos não falam, estão mortos. Esta é a minha VERDADE).

· E a VERDADE dos poetas? Uns fingidores! Afirma Fernando Pessoa, um deles; Mentem dizendo a verdade! É o que deixou dito o poeta francês Jean Cocteau; já o mestre Mário Moacyr Porto não acreditava que o poeta apelasse para os seus próprios sentimentos para escrever um poema, o construía só com palavras.

· E pensar que nem a afirmação de que existe céu e ele é azul é VERDADEIRA... E que o VERDADEIRO, segundo o mestre Mário Moacyr Porto, em qualquer plano, está no que sentimos e cremos - havendo fé, naturalmente, pois do contrário tudo não passa de uma miragem dos nossos sentidos ou um equívoco das nossas consciências.

· Finalmente, uma coisa me faz pensar... Quando foi perguntado a Jesus o que era VERDADE , Ele não respondeu, guardou silêncio profundo.

Por quê...?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

SILÊNCIO DE PORTAIS



SENTIMENTOS CONFESSADOS


INCONSTANTES

DISTÂNCIA EXIGIDA


VONTADE IMPOSTA


PALAVRAS QUE MAGOAM


E A VERDADE


ONDE ENCONTRAR...?


NO OLHAR?


NOS GESTOS?


AÇÕES?


A CABEÇA GIRA


EM QUAL EIXO?


EM QUAL FOCO?


E ESTE SILÊNCIO DE PORTAIS


QUE ENTRISTECE...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

POR UM MOMENTO



CABELOS SOLTOS
AO SABOR DO VENTO
QUE TEIMAM EM LHE COBRIR A FACE
E QUE SÃO RETIRADOS
NUM GESTO NÃO MEDIDO
FEMININO
PARA DESCOBRIR OLHARES NÃO PERDIDOS
SORRISOS NÃO CONTIDOS
NÃO ENIGMÁTICOS
NÃO MONA LISA
SOB O SOL
SOBRE A AREIA
OBSERVANDO A GRANDEZA DO MAR
E A PEQUENEZ DE UM PEDACINHO DE GENTE
QUE BRINCA AO SEU REDOR
E QUE NASCEU DELA
POR UM MOMENTO
À MIM PARECEU
FELIZ
A MULHER


Zelia Maria Freire

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

NA MINHA JANELA UM PÁSSARO

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NA MINHA JANELA
UM PÁSSARO FERIDO
ARREDIO
AS MINHAS MÃOS
NÃO O TOCARAM
PERMITIU
QUE EU LHE FALASSE
NÃO SEI AO CERTO
SE ME OUVIA
SE ME ENTENDIA
SÓ SEI QUE PERMANECIA
NA MINHA JANELA
ORA CANTANTE
ORA SILENTE


NA MINHA JANELA
UM PÁSSARO
TESTANDO SUAS ASAS
E ASSIM COMO CHEGOU
ASSIM PARTIU
CURADO?
SEI NÃO...
SÓ SEI QUE VOÔ
DA MINHA JANELA VAZIA
O
VI SUMIR... SUMIR... SUMIR...
SÓ ME RESTOU
FECHAR A MINHA JANELA
E DEIXAR DE PENSAR
NO PÁSSARO

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

QUE PAÍS É O NOSSO?

RORAIMAAMAZONASPARÁAMAPÁMARANHÃOACRERONDÔNIAMATO GROSSOTOCANTINSPIAUÍCEARÁRIO GRANDE DO NORTEPARAÍBAPERNAMBUCOALAGOASSERGIPEBAHIAGOIÁSDISTRITO FEDERALMINAS GERAISESPÍRITO SANTORIO DE JANEIROMATO GROSSO DO SULSÃO PAULOPARANÁSANTA CATARINARIO GRANDE DO SUL



Que país é o nosso? Segundo Jorge Ben Jor, é um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza.

Que povo somos nós? De acordo com Chico Buarque, somos gente humilde

Que governos temos tido? Para usar uma expressão de Chávez,o quase ditador da Venezuela, que por sua vez disse ter repetido do escritor Garcia Márquez e EU os repito: GOVERNOS DE MIERDA.

Muito bem: palmas pra Ben Jor, a natureza não foi cruel conosco e não nos faltam recursos naturais; incompatíveis, portanto, com o nosso estado de pobreza e incompreensível diante de países destituídos de tais recursos como o Japão e a Suíça, considerados ricos e desenvolvidos.

Até onde nos leva a humildade que comove o Chico Buarque? A subserviência? A falta de atitude, conseqüência da não educação e cultura?

Por que governos de mierda? Porque não ensinaram aos seus governados os requisitos de cidadania, tornando-os párias, diferenciados das sociedades ditas civilizadas e desconhecedores das regras básicas que se seguem e que não foram criadas por mim, simplesmente as pesquei na Internet:

1 - A ÉTICA COMO PRINCÍPIO BÁSICO

2 - A INTEGRIDADE

3 – A RESPONSABILIDADE

4 – O RESPEITO ÀS LEIS E REGULAMENTOS

5 – O RESPEITO PELO DIREITO DOS DEMAIS CIDADÃOS

6 – O AMOR AO TRABALHO

7 – O ESFORÇO PELA POUPANÇA E PELO INVESTIMENTO

8 - O DESEJO DE SUPERAÇÃO

9 – A PONTUALIDADE

Foi o que aprendi e o SENHOR REI ordenou que eu passasse à frente

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI SOBRE RUBENS LEMOS

NOSSO HOMEM COMUNISTA






Esta crônica foi publicada no dia 18 de março de 1990, no jornal “Tribuna Tribuna do Norte (Natal RN) republicada, agora, neste blog, para que fique constando nos “anais do Google” um pouco de RUBENS LEMOS, “ O NOSSO HOMEM COMUNISTA”.

Lá se foi o “Cavaleiro da Esperança”... De repente a gente acorda e descobre que neste Brasil surpreendente, já se pode homenagear, elogiar, enaltecer e tornar herói um comunista, nem que seja depois de morto.

Sei não... mas considero um ato sem sentido essa coisa de homenagem póstuma, por conseguinte, já que temos aqui na terrinha o nosso homem comunista vivinho bulindo, a quem preciso prestar minha solidariedade, por seu espírito indomável e a sua capacidade de viver, sofrer e morrer por um ideal, aproveito o ensejo e faço a ele a apologia que se segue:

E eu que pensava que só cabia dentro de casa, noite dessas sai, conheci pessoas das quais muito já havia ouvido falar. Apresentações informais, roda feita, conversa,( no que aliás não sou muita afeita dizem até que gaguejo, razão provável da minha falta de expressão) e diante de mim pessoas. Para espanto meu, eram normais! Apesar de comunistas. Fixei primeiro a figura do homem, talvez, quem sabe... a procura de indícios que me levassem a constatar o que em criança me foi ensinado: eles os comunistas eram dados à prática canibalesca, devoravam criancinhas. Por mais inculcada que me tivesse sido tão malfadada idéia, desmoronou-se diante da figura bonachona, sociável, inteligente, culta e destituída de mágoas cabíveis pelo muito que sofreu o homem comunista. Quis saber mais sobre ele, não ouvi revanchismo, auto-piedade e para deleite meu, ouvi atenta o homem comunista, com a sua voz de narrador bem treinado, dizer poemas de amor feitos no exílio para a mulher amada. E, acreditem, ele ainda saber sorrir, apesar de, com esse gesto mostrar a ignomínia dos seus torturadores. E aquele sorriso que em outra boca seria feio, torna-se na boca do homem comunista a expressão comovente de um ser largo, que por sabe pensar viu-se execrado, arrebatado do seio da família e submetido as mais ultrajantes torturas, sem contudo, perder a dignidade nem a postura .

E a mulher que não era comunista e sim, a mulher do homem comunista? Para ela sobraram os sofrimentos que por terem sido tantos e tão fortes lhes deixaram as marcas do medo em cada esquina.

Minhas homenagens portanto, a você Isolda. A você Rubens Lemos, o nosso homem comunista que...







QUANDO HOUVE O TEMPO DE FALAR
SEM PALANQUE
SEM MANDATO
SEM IMUNIDADE
VOCÊ FALOU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE CALAR
SEM MEDO VOCÊ GRITOU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE PARTIR
VOCÊ PARTIU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE VOLTAR
VOCÊ VOLTOU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE SOFRER
PRISÕES
TORTURAS
HUMILHAÇÕES
VOCÊ SOFREU
QUANDO HOUVE O TEMPO DA LIBERDADE
A LIBERDADE FOI DADA
MAS NÃO O DIREITO DE COBRANÇA

SÓ ESPERO QUE A SUA VERDADE NÃO O SUFOQUE, MEU CAMARADA...


domingo, 9 de dezembro de 2007

SERÁ QUE VIVER É SOFRER?



Afirma Leopold Von Ranke (1795/1886), que os tempos felizes da humanidade são as folhas em branco no livro da História.

Teria razão o Leopold? Ou as coisas funcionam como imagina o escritor austríaco J.M. Simmel: anteontem passamos maus pedaços, ontem estivemos bem, hoje começamos a passar menos maravilhosamente bem. Mas, sem dúvida, tudo em breve estará em ordem de novo. O que lembra a história explicada por Kurt Tucholsky, que em 1930, escreveu o seguinte: O círculo da natureza: Meu pai tem um primo, cujo tio costumava dizer: Meu querido filho, neste mundo existem os vermes. Estes são comidos pelos sapos e os sapos pelas cegonhas. As cegonhas trazem as crianças e as crianças têm vermes. Assim se fecha o círculo da natureza.

Sem digressão a gente chega em Jorge Luiz Borges que aponta “ O Mundo Como Vontade e Representação” do filósofo alemão Schopenhauer (1788/1860), como o melhor mapa do Universo, onde no capítulo destinado a confirmação de que viver é sofrer nos deparamos com uma comunhão de pensamento entre Leopold e Schopenhauer. Diz este último: “ Agora que nos convencemos, de certo modo, a priori por meio das considerações mais gerais, como o estudo dos primeiros caracteres elementares da vida humana, de que esta, pelo próprio conjunto da sua disposição, é bem incapaz de encontrar a verdadeira felicidade e de que, por sua essência, não é senão sofrimento sob mil formas diversas, e estado absoluto da infelicidade, podemos, de igual, bem mais vivamente acordar em nós esta mesma convicção a posteriori, se, tomando em exame fatos reais, apresentarmos à mente os quadros ou os exemplos de desgraça sem nome que nos oferecem a experiência e a história, para onde quer que deitemos o olhar e dirijamos nossas pesquisas”.

Acrescenta ainda o filósofo: “ aonde, pois, Dante colheu o material para o seu Inferno senão em nosso mundo real? E fez, entretanto, um Inferno em perfeita regra! E quando quis, ao contrário, descrever o Paraíso e as suas bem-aventuranças encontrou dificuldades insuplantáveis, pela razão do que a nossa terra não fornece os elementos para coisa alguma de semelhante. Não lhe restou, portanto, outro expediente, além de descrever-nos, em lugar das alegrias do Paraíso, os ensinamentos que recebeu dos ancestrais de sua Beatriz e de vários santos. Isto demonstrou bastante que espécie de mundo é o nosso”.

E, comigo, persiste a dúvida: viver é sofrer? Será...?

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

QUE ME DEIXE SONHAR



A sociedade movida por uma conjugação de fatores vive em permanente estado de insatisfação. A nação reclama pelos mais diferentes motivos. O governo reclama de si próprio.

Sociedade + governo = NAÇÃO. E a nação que reclama é a nossa. O que falta, então, para que ela saia dessa reunião de condições e motivos adversos, que mais parece uma roda dentada que só se move segundo o plano que a criou?

Faltaria a esta nossa nação um grande homem? Um que de fato decidisse, agisse, determinasse? Por que não surge a figura desse grande homem, já que, segundo dizem, ele é feito pelas circunstâncias e circunstâncias existem?

Será que a nossa história sempre será uma triste história? Será que o tempo passa e apesar disso ainda possamos ver grupos correndo atrás de bichos? Será que não podemos resolver os nossos problemas de forma coletiva? Será que continuaremos a falar indefinidamente sobre pessoas ao invés de discutir coisas? Teria razão o marechal-de-campo de Hitler de nome Von Brauchitsh, que acreditava que há um livro de destino onde a história humana independe do que os homens possam fazer?

Acton deixou escrito: “ Nada causa mais erros na visão da história que o interesse em indivíduos”. Sabemos que nem sempre de personagem central viveu a humanidade. Estão aí registradas as revoluções neolíticas, comercial e industrial, que foram grandes fenômenos coletivos que envolveram a colaboração gradativa de enormes multidões de observadores, experimentadores, repetidores, aperfeiçoadores etc.

E, se coube a mulher a mais importante e revolucionária das descobertas neolíticas, que foi o método da reprodução dos vegetais e conseqüentemente a agricultura, (incluindo-se aí algo sobre irrigação, aragem do solo etc.) que nem mesmo a descoberta da máquina a vapor ou de energia atômica foi tão revolucionária e teve alcance tão profundo no destino da nossa espécie. Que sejamos nós mulheres, as precursoras de uma nova revolução onde se possa deter, e mesmo inverter o curso dos acontecimentos, que possamos com a acuidade já demonstrada de “cientistas”, descobrir uma novo método de reprodução. Desta vez, não de vegetais, mais de sentimentos, onde a solidariedade humana floresça e que este pedaço de chão, que é a nossa pátria, seja de fato comum a todos os seus filhos, com os mesmo direitos, deveres e obrigações.

Enquanto nada acontece, que me deixe sonhar e sonhando espero que surja entre nós a figura de um grande homem ou de uma grande mulher, que absorva as tendências sadias desta nossa sociedade e explique de forma clara o que essa mesma sociedade espera ouvir. Um grande homem ou uma grande mulher que nos chefie, que decida, aja, determine.

sábado, 24 de novembro de 2007

OBSERVANDO O NADA




Outro dia me vi escrevendo um poema . Aí bateu uma saudade de barulho de bonde e desejei perto de mim ouvidos que me escutassem dizer o tal poema. Não explico a saudade do barulho de bonde. Ouvidos não os tenho por perto, sou reclusa, situada em algum lugar, numa casa de muitas portas e janelas, sem sótão nem porão, onde arrasto as sandálias , ora no andar de cima, ora no andar de baixo, á procura de não sei quê, escutando o silêncio, observando o nada.

Desta conversa comigo mesma, de repente me dou conta de que não sou nenhum pavão misterioso mas não tenho nenhuma história para contar. Será....? E de quando fui criança? Do que me lembro, só um sentimento de inveja, feito o que sentia da família da casa de frente à minha... Desejava aquele pai / figura bonita de homem / seu rosto nunca alcancei / mas feito gato/ olhar pidão / por suas pernas trancei / invejava os filhos dele / pelo amor recebido / pelo castigo infligido / queria aquela família / mesa posta/ comida franca / Natal / presentes trocados / aniversário / batizado / tudo isso festejado...

O que diria da adolescência ? Só isto: viagem, regresso, um trem, estação, casa, gente, rostos tristes, cheiro de incenso, de cravos. Velas. Um caixão. Dentro dele uma mulher. Minha mãe.

De mim adulta? Só sei que houve quem à mim dissesse: “ E tu aí nesse lugar, alma viva, afasta-te destes que são mortos”. Então alguém partiu e eu segui os seus passos; não para ver estrelas. Ainda estava a caminho do inferno.

Li de Shopenhauer que, quanto à vida do individuo, cada biografia é uma história de dor: por quanto em regra geral, cada existência é uma série contínua de grandes e pequenas desventuras que cada um, é verdade, esconde o melhor possível, porque sabe que os outros raramente demonstram interesse ou piedade e quase sempre satisfação, à vista dos afãs de que no momento estão salvos; mas talvez um homem no fim da vida, se é que possui toda a sua razão e é ao mesmo tempo sincero, desejará recomeçá-la e, diante duma tal perspectiva, antes preferiria o nada..

Ah, sim, quanto ao poema, esqueci de salvá-lo, deve ter caído na lixeira do computador.











domingo, 18 de novembro de 2007

VULCÃO EXTINTO



Hoje amanheci com os olhos da negação. Não vejo mistério no cosmos, não vejo mistério na vida. Recuso o olhar incomum e a perspicácia em captar detalhes. A palavra não a quero polivalente. Que se vá a conotação e que fique a denotação. Aceito Bernardo Guimarães quando diz “profetas talhados em gesso”, disse e explicou e não estou nem ai para Manuel Bandeira com seu verso “pedra-sabão lavrada como renda”. Digo: chegou a tarde e depois dela vem a noite. Descrevo a paisagem vislumbrada da janela como um matagal que existia e atearam fogo, os grilos que lá moravam invadiram a minha casa e o meu sono que era bom acabou. E que a minha vontade é de sair por aí chutando pedras.

Pedras não chutei, mas o sair por aí aconteceu: segui o caminho do mar. Avistei-o. Atraiu-me e me fez contraditória... Foi um olhar incomum que lhe lancei. Estava ele lá, manso feito um lago, talvez com preguiça ou quem sabe feliz pelo vazio de suas praias, por não precisar dar movimento às suas águas e fazer surgir as ondas e com elas tentar expulsar de dentro de si tanta gente desconhecida e que vai chegando sem o mínimo de cerimônia, ocupa suas praias, as cobre de sujeira, espoja-se na areia e sem pedir licença joga-se com a maior intimidade por sobre suas águas, mergulhando-as e com braçadas deselegantes tenta rasgar suas entranhas.

Acomodado estava o mar, acomodado como eu, que mais pareço uma faixa de terra que vez por outra sofre abalos sísmicos para depois se justapor. Anos a fio venho sofrendo dentro de mim um processo de acomodação de sentimentos com a maestria de fazer inveja à natureza. Nada destruo, embora vez por outra haja ameaça de ativa vulcanização, logo abafada pela falta de sintonia entre o sentir e o deixar fluir, não mais existe força nem motivação, a matéria em fusão natural já não produz a lava e sem lava não há erupção. Vulcão extinto é o que sou.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O PORQUÊ DE ALGUNS


“Procurem outra companhia;
já vejo daqui o fim do meu
caminho” (Collete)

Se escrever é preciso e se dentro de mim dormem palavras, que por favor acordem, desencantem, ordenem-se e dêem vida aos meus sentimentos.

Acredito não ter tido na infância as respostas para todos os meus “por quês”, razão pela qual eles me perseguem até hoje, se bem que em outra escala. Se leio um texto sinto necessidade de inteirar-me sobre o autor. Isto posto, fico eu a escarafunchar as entrelinhas, sempre em busca de um “por quê”.

Enfim, por que escritores escrevem, quais as razões, os motivos pelos quais os levaram a escrever? Motivada pela curiosidade busquei entre alguns autores os seus ‘porquês’.

E lá vou eu , contrariando gostos - que não se discutem – com ar professoral e didatismo pedante, estribar-me no conhecimento alheio para ilustrar o que ora trato.

Vejamos o que declarou Giovanni Boccaccio (1313/1375): para fugir ao ambiente rígido e ambicioso que o cercava começou aos sete anos de idade, a imaginar fábulas e a escrever contos.

O inglês Henry Fielding (1707/1754), não sabia que profissão abraçar; cocheiro ou escritor? Para ser cocheiro teria de se colocar a serviço de algum proprietário de carruagens, ao passo que, como escritor, necessitava tão-somente de caneta e tinta. Quanto ao papel, poderia aproveitar aquele em que viessem embrulhados o tabaco e o pão. E, diante das opções que se apresentavam, tendia mais a escrever que a mourejar numa carruagem aberta.

Do alemão Wolfgang Goethe (1749/1832), que aos dez anos de idade viu Frankfurt ser ocupada pelos franceses e ouvindo falar essa língua, entusiasmou-se com as referências e os elogios aos escritores franceses; Moliére, Racine e Voltaire, sendo assim motivado pela cultura francesa e não alemã, a seguir a carreira literária.

O francês Honoré de Balzac (1799/1850), desde pequeno tinha um sonho: viver em sociedade entre aristocratas, imortalizado pela atividade literária. Lutou por esse sonho. Não se tornou um aristocrata, mas imortalizou-se como o grande retratista da burguesia do século XIX.

O inglês Charles Dickens (1812/1870), que para curar uma paixão mal-sucedida, iniciou a escrever. E descobriu em si a necessidade de se comunicar com um público maior do que aquele dos salões onde brilhava.

O francês Chaderlos de Laclos (1741/1803). Tornou-se escritor por conta de um desejo: redigir um livro que fizesse escândalo e fosse comentado mesmo depois de sua morte. Desejava escrever contra os aristocratas, visto como parasitas sentados no poder e conquistar a glória através das letras. Conseguiu publicando ‘As Relações Perigosas’, que foi sucesso imediato.

Ditas ass razões que levaram alguns dos meus eleitos a se manifestarem através da linguagem escrita, acrescento que, em se tratando de “vertentes” literárias, deixo com o estimulador da literatura engajada – aquela em que, claramente, toma partido em cada situação ou momento histórico – Jean-Paul Sartre, a palavra final: “Toda literatura é, a rigor, comprometida, pois mesmo o silêncio constitui uma opção decisiva”.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

REFLEXÕES DO MESTRE



Pelas barbas do profeta! Hoje está difícil arrumar um tema , a não ser que deite falação sobre um livro que me chegou às mãos, escrito por um escritor santista de nome Homar Paezkowski, que tem este título: Onorismos Ígneos, e começa assim: Em algum lugar, em alguma época situados no nunca. Lugar algum onde o além tangencia o eterno, a sombra do nada cobre coisa alguma, o vazio enche o infinito de tudo que o nada contém...

O linguajar do senhor Paezkowski é tão complicado quanto o seu nome, mas prometo, que num futuro que já passou; numa manhã que foi ontem; sentada com a calma dos aflitos, de pé eu não o lerei.

Já que achei o fio da meada e a largada está dada, lembrarei uma saudade minha que se chama Mário Moacyr Porto, de quem guardo estas reflexões:

Chegar é bom para os moços, porque para eles, os caminhos não terminam, mas se sucedem. Mas para os velhos, a quem a vida, bem ou mal, satisfez todas as aspirações, chegar é não ter mais para onde ir.

O lucro, a vantagem, a recompensa, é aspiração inerente à condição humana, até mesmo no plano transcendental. Suprima-se o céu das religiões que nenhuma delas sobrevive. O céu é a recompensa corrigida do sofrimento de viver.

O homem só é livre por uma única razão: pode morrer quando quiser.

Há pessoas que dão a César o suficiente para não se prejudicar e a Deus o bastante para não se perder. Dividem a alma e o corpo sem deixar restos. Dão a Deus o que é do diabo e ao diabo o que é de Deus.

Cada dia tem a sua quota de sofrimento. Não antecipe para hoje a angústia de amanhã. Não aprendi esta lição no consultório de um psicanalista, mas na Bíblia de Cristo, para quem o homem não é apenas uma transcendência divina, mas também o ingênuo parceiro de Eva que cedeu a tentação de provar a maçã. Um pecado venial de recém-nascido guloso. Na qualidade de ex-magistrado, acho que a expulsão do paraíso foi uma condenação exorbitante. Finalmente, não devemos ter vergonha de fazer o que Deus não teve constrangimento em criar.

Nada mais triste do que uma criança triste. Triste e injusto. Será que Spinoza tem razão quando afirma que Deus existe, mas não intervém ou se envolve com a sorte das criaturas que expulsou do paraíso?’

E agora, mestre, a respeito desta última reflexão, já que o senhor está aí por cima, não existe um jeitinho de dizer pra nós se o Spinoza tem, ou não tem razão?

terça-feira, 30 de outubro de 2007

NADA VIRÁ DO NADA






"Vez por outra me vejo na
captura de mim mesma
e quem sabe tentando
desmascarar sob o verniz
do cotidiano um mundo
de desejos e fantasias
inconfessáveis"
(Clarisse Lispector)



Já foi dito que Deus deu ao homem o dom da palavra para que ele possa esconder os seus próprios pensamentos.

Vem outro e diz: “ouve-me, ouve o silêncio, o que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa!

Estas são palavras daqueles que já se foram, mas por serem fortes permanecem até hoje.

Neste momento, ao meu redor, um silêncio pesado. Meus olhos vagueiam por entre monstros sagrados enfileirados à minha frente. E lá está Schopennhauer, que a mim tanto impressionaram os seus aforismos. Maquiavel, que a minha inteligência não alcançou os seus conselhos ao “Príncipe”, mas que me deleitou em “A Mandrágora”. Vosmecê, Jean-Paul Satre, que o tradutor nos adverte em a “Idade Razão”, do emprego indiferente do “você” e o “tu” e das constantes repetições, coisa que por seres tu quem fostes (és), nem estavas aí. Voltaire, que o Sérgio Milet afirma, já na sua época era acusado de plágio: “Voltaire, como todos os grandes escritores clássicos faz seus os bens que encontra”, valeu seiscentas e setenta páginas de histórias curtas que compõem “Zadig ou o Destino”. Nicolai Vassilievith Gogol, “Almas Mortas”, li vosso livro de um fôlego só, pena que não tenha final. “As Vinhas da Ira”... Meu caro John Steinbeck: o vosso romance retrata o passado de um povo, que para nós, principalmente, nós nordestinos, ele é o nosso presente. Aqui temos os nossos “bóias-frias”; lá a terra da promissão era a Califórnia, aqui é São Paulo; os juros também são altos e os impostos idem; os Bancos tomam terras, sim senhor, em geral dos pequenos lavradores; os grandes latifundiários não plantam algodão como lá plantavam os seus, aqui é soja tipo exportação. Aqui se mata por terra. Aqui se morre de fome, também.

Companheiros meus, em mim a necessidade de escrever, mas dentro de mim permanece o nada. “ Nothing will come of nothing. I cannot bring my heart into my mouth” ( Shakespeare através de sua personagem Cordélia, filha do King Lear)

Pedante as citações. Ah, Que o sejam! Mas, como diz a Cordélia, quisera eu trazer o meu coração até minha boca, contudo, bloqueiam-me sentimentos menores, fala mais alto um processo autodepreciativo, desconhecendo valores, se é que os tenha.

Falaria eu do quê? Às vezes eu comungo do mesmo pensamento atribuído ao filósofo grego Górgias de Leontino: “Nada existe. Mesmo se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-lo. Concedido que algo existe e que podemos conhecer, não poderíamos comunicar aos outros. É como disse um amigo meu: “você se esconde na ostra e ainda justifica. Simplesmente...anota”. Sabe ele que : “Só merece nosso crédito aquele que discorrer sobre coisas de sua experiência”. (Hermann Hesse).

E, diante desses “Titãs,” desde a altura em que se encontram, se dignar um deles, alguma vez, dirigir um olhar para a minha humilde posição, saberá de que mísera maneira sofro o grande e constante rigor de nada saber. ( vai ver que eu li isto em algum livro).

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O GÊNERO HUMANO






Dona Loucura, refletindo atentamente sobre o gênero humano e observando todas as calamidades a que está sujeita a vida dos mortais, ficou vivamente comovida e exclamou: Santo Deus! Que é afinal a vida humana? Como é miserável, como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos males está exposta a infância! A juventude! Como é grave a velhice! Como é dura a necessidade da morte! Quantos poderiam descrever a infinita série de males que o homem causa ao homem, como sejam a pobreza, a prisão, a infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes?
Agora, sou eu que indaga de dona Loucura: sem camisa de força, como fugir dessa barbárie? Ignorar os fatos, passar a raciocinar em torno das nuvens e de quebra medir pé de pulga e ficar atenta ao zumbido do pernilongo?

Sei não, viu, mas tem dias que a gente se sente, não como o Chico Buarque, quando pensou que havia partido ou morrido, mas sim, como o mesmo espírito crítico de Erasmo de Rotterdam, quando em 1508, escreveu o Elogio da Loucura, que o diz ter feito sem estar inteiramente louco, apenas com o intuito de censurar a vida e os costumes humanos e também para homenagear um grande amigo, que longe estava do conceito da loucura e que se chamava Thomas More, autor de a Utopia, de quem se sabe, que, ao subir ao cadafalso, onde devia perder a cabeça em testemunho da Verdade, com o mesmo ânimo intrépido e tranqüilo, não podendo dar um passo por causa da gota, disse a um dos guardas: “amigo ajuda-me a subir, que ao descer não te darei mais incômodo”.



Por falar em Utopia, segundo relato de Rafael Hitlodeu, lá nessa ilha o homem está unido ao homem de maneira mais íntima e mais forte pelo coração e pela caridade do que pelas palavras e protocolos. Só que é uma pena: o país Utopia não passa de utopia, de um sonho sonhado.