terça-feira, 30 de outubro de 2007

NADA VIRÁ DO NADA






"Vez por outra me vejo na
captura de mim mesma
e quem sabe tentando
desmascarar sob o verniz
do cotidiano um mundo
de desejos e fantasias
inconfessáveis"
(Clarisse Lispector)



Já foi dito que Deus deu ao homem o dom da palavra para que ele possa esconder os seus próprios pensamentos.

Vem outro e diz: “ouve-me, ouve o silêncio, o que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa!

Estas são palavras daqueles que já se foram, mas por serem fortes permanecem até hoje.

Neste momento, ao meu redor, um silêncio pesado. Meus olhos vagueiam por entre monstros sagrados enfileirados à minha frente. E lá está Schopennhauer, que a mim tanto impressionaram os seus aforismos. Maquiavel, que a minha inteligência não alcançou os seus conselhos ao “Príncipe”, mas que me deleitou em “A Mandrágora”. Vosmecê, Jean-Paul Satre, que o tradutor nos adverte em a “Idade Razão”, do emprego indiferente do “você” e o “tu” e das constantes repetições, coisa que por seres tu quem fostes (és), nem estavas aí. Voltaire, que o Sérgio Milet afirma, já na sua época era acusado de plágio: “Voltaire, como todos os grandes escritores clássicos faz seus os bens que encontra”, valeu seiscentas e setenta páginas de histórias curtas que compõem “Zadig ou o Destino”. Nicolai Vassilievith Gogol, “Almas Mortas”, li vosso livro de um fôlego só, pena que não tenha final. “As Vinhas da Ira”... Meu caro John Steinbeck: o vosso romance retrata o passado de um povo, que para nós, principalmente, nós nordestinos, ele é o nosso presente. Aqui temos os nossos “bóias-frias”; lá a terra da promissão era a Califórnia, aqui é São Paulo; os juros também são altos e os impostos idem; os Bancos tomam terras, sim senhor, em geral dos pequenos lavradores; os grandes latifundiários não plantam algodão como lá plantavam os seus, aqui é soja tipo exportação. Aqui se mata por terra. Aqui se morre de fome, também.

Companheiros meus, em mim a necessidade de escrever, mas dentro de mim permanece o nada. “ Nothing will come of nothing. I cannot bring my heart into my mouth” ( Shakespeare através de sua personagem Cordélia, filha do King Lear)

Pedante as citações. Ah, Que o sejam! Mas, como diz a Cordélia, quisera eu trazer o meu coração até minha boca, contudo, bloqueiam-me sentimentos menores, fala mais alto um processo autodepreciativo, desconhecendo valores, se é que os tenha.

Falaria eu do quê? Às vezes eu comungo do mesmo pensamento atribuído ao filósofo grego Górgias de Leontino: “Nada existe. Mesmo se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-lo. Concedido que algo existe e que podemos conhecer, não poderíamos comunicar aos outros. É como disse um amigo meu: “você se esconde na ostra e ainda justifica. Simplesmente...anota”. Sabe ele que : “Só merece nosso crédito aquele que discorrer sobre coisas de sua experiência”. (Hermann Hesse).

E, diante desses “Titãs,” desde a altura em que se encontram, se dignar um deles, alguma vez, dirigir um olhar para a minha humilde posição, saberá de que mísera maneira sofro o grande e constante rigor de nada saber. ( vai ver que eu li isto em algum livro).

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O GÊNERO HUMANO






Dona Loucura, refletindo atentamente sobre o gênero humano e observando todas as calamidades a que está sujeita a vida dos mortais, ficou vivamente comovida e exclamou: Santo Deus! Que é afinal a vida humana? Como é miserável, como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos males está exposta a infância! A juventude! Como é grave a velhice! Como é dura a necessidade da morte! Quantos poderiam descrever a infinita série de males que o homem causa ao homem, como sejam a pobreza, a prisão, a infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes?
Agora, sou eu que indaga de dona Loucura: sem camisa de força, como fugir dessa barbárie? Ignorar os fatos, passar a raciocinar em torno das nuvens e de quebra medir pé de pulga e ficar atenta ao zumbido do pernilongo?

Sei não, viu, mas tem dias que a gente se sente, não como o Chico Buarque, quando pensou que havia partido ou morrido, mas sim, como o mesmo espírito crítico de Erasmo de Rotterdam, quando em 1508, escreveu o Elogio da Loucura, que o diz ter feito sem estar inteiramente louco, apenas com o intuito de censurar a vida e os costumes humanos e também para homenagear um grande amigo, que longe estava do conceito da loucura e que se chamava Thomas More, autor de a Utopia, de quem se sabe, que, ao subir ao cadafalso, onde devia perder a cabeça em testemunho da Verdade, com o mesmo ânimo intrépido e tranqüilo, não podendo dar um passo por causa da gota, disse a um dos guardas: “amigo ajuda-me a subir, que ao descer não te darei mais incômodo”.



Por falar em Utopia, segundo relato de Rafael Hitlodeu, lá nessa ilha o homem está unido ao homem de maneira mais íntima e mais forte pelo coração e pela caridade do que pelas palavras e protocolos. Só que é uma pena: o país Utopia não passa de utopia, de um sonho sonhado.

domingo, 21 de outubro de 2007

EU E O MEU FILOSÓFICO NARIZ




“Quando uma cabeça e um livro têm
uma colisão e um deles soa oco, será
que é sempre o livro?”(Lichtenbergo)





Os sábios em todas as épocas disseram sempre as mesmas coisas; os tolos em todos os tempos comportam-se como tais e assim continuará para sempre, pois como diz Voltaire, deixaremos o mundo tão tolo e mau como nós o encontramos


Só me basta um nada fazer para cultivar o pessimismo. E hoje é domingo... Um lazer vazio e a melancolia do tédio toma conta de mim. Sinto-me só.


Bem, se amanheci de mal com a vida levantarei o meu filosófico nariz contra ela e me ponho a indagar:


O que é a vida? Sou uma coisa pensante e como tal duvido, concebo, afirmo, nego, imagino, sinto, quero, não quero, que pouco sei e ignoro muito mais e nesta condição vejo-me impelida a questionar a dita e o julgamento que se pode fazer dela. Quando isto acontece, no afã de desvendar mistérios mergulho fundo e busco os Pensadores. Mas logo me vejo enleada em tantas dúvidas que me parece não haver obtido outro proveito procurando instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez a minha ignorância. E o que fica em mim é que a vida não é um problema para ser resolvido, é um mistério para ser vivido


Diz o meu conselheiro de plantão, Will Durant, que talvez o nosso enjôo desdenhoso do mundo seja um disfarce para o enjôo secreto de nós mesmos: estropiamos e estragamos nossas vidas e jogamos sobreo ambiente ou sobre o mundo, que não têm condições de se defenderem. O homem maduro aceita as limitações naturais da vida, não espera que a Providência seja parcial a seu favor, não pede dados falsificados para participar do jogo da vida.Sabe, como afirma Carlyle, que não faz sentido recriminar o sol porque não acende os nossos cigarros, mas talvez se fossemos inteligentes para o auxiliar ele fizesse até isso. E este vasto cosmos neutro poderia ser um lugar bastante agradável se contribuíssemos com um pouco de nós mesmos para o ajudar. Na verdade o mundo não está nem conosco nem contra nós. Ele não é senão matéria-prima em nossas mãos, pode ser céu ou inferno, conforme o quisermos.


É, pode ser...


Contraditória, eu? Mas quem não é?





quarta-feira, 17 de outubro de 2007

SABER ALHEIO









“Detesto o sábio que não é sábio
por si próprio” (Eurípides)




Lendo os Ensaios de Michel de Montaigne, deparei-me no Capítulo XXV, que trata do pedantismo e da arte de pilhar o saber alheio – uma carapuça que, pensando bem, me cabe direitinho -. Senão vejamos: reconhecendo o óbvio, isto é, que não sou sábia, mas sim, mendiga do saber alheio, confesso que quase nada tiro de mim; o que faço na maior parte dos meus escritos é filar aqui e ali, deste e daquele livro, as sentenças que me agradam a fim de transportá-las para os ditos escritos . E de tanto me apoiar nos outros vejo-me dependente. É a tal história: quero fortalecer-me contra o temor da morte? Recorro a Sêneca. Tenho a intenção de arranjar consolo para mime para os outros? Vou a Cícero.


O que EU escrevo? O que EU penso? O que EU falo? Pelo visto um papagaio poderia muito bem me substituir... Diz Montaigne que, para abrigar tantos e tão grandes pensamentos dos outros cérebros, é necessário que o próprio cérebro se contraia, se restrinja, se comprima para dar espaço ao que recebe de outrem. E exemplifica: assim como as plantas morrem por excesso de seiva e as candeias se apagam com abundância de azeite, os espíritos curvam-se e se ancilosam sob o peso dos estudos e das matérias com o que os encheram e que eles não puderam deslindar


Indaga Montaigne: que adianta ter a barriga cheia de comida se não a digerimos? Se não a assimilamos, se não nos fortalece e faz crescer? Lembra ele a história de um rico romano que à força de dinheiro se aplicara a recrutar homens versados em todos os ramos da ciência e os tinha sempre à sua volta; e quando, com seus amigos, tinha a oportunidade de falar qualquer coisa eles o supriam em sabedoria, um lhe soprando uma réplica, outro citando um verso de Horácio, cada qual segundo sua especialidade. Com o tempo chegara a acreditar que o saber e seu porquanto o tirava de “seus” homens, agindo, assim, como aqueles cujos conhecimentos moram nas bibliotecas suntuosas de sua propriedade. Ou ainda, como um outro que ao ser indagado acerca do que lhe cumpre saber, vai logo buscar um livro para mostrar e jamais ousaria dizer que tem o traseiro sarnento sem previamente procurar em dicionário a significação de sarna e de traseiro.


Pois é, nem eu duvido que a carapuça me cabe; basta olhar para essa danação de livros à minha frente e do Google dirimindo dúvidas ao simples toque das teclas de meu computador.


domingo, 7 de outubro de 2007

VERDADE DESBOTADA

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"Não posso pintar flores coloridas como os impressionistas porque a psicologia do mundo, hoje é sombria". (Iberê Camargo -artista plástico)

Pessimismo, talvez... Lucidez, quem sabe... Seja lá o que for, o certo é que, infelizmente, compartilho do pensamento do artista.

Por mais que eu queira colorir com palavras otimistas o presente e o que está por vir, salta aos meus olhos uma verdade desbotada incapaz de motivar uma visão positiva do que me cerca. A falta de perspectiva é o escuro de tudo.

Aqui neste meu mundo particular, as cores andam tão anêmicas, tão fuscas, que estão a empanar a minha visão. Estou vivendo um momento atroz onde não enxergo Aquele à quem depositar minhas esperanças. Os que me cercam falam palavras que, não meu parco entender, não dizem neres de neres. São palavras, nada mais do que palavras que perderam o sentido, cairam no lugar-comum das palavras vãs.

Enquanto isto pululam além muro os tais pintores de vanguarda que, no afã de tornar chamativas suas pinturas, andam misturando cores, talvez partindo do pressuposto de que críticos já não o temos e sim, promotores de produtos, e pelo jeito estão pondo fé na exposição, esperando ter a aceitação imaginada. Comportam-se como os divisionistas, acreditando ser imprescidível manter uma relação exata entre as cores complementares a um tom vermelho, correspondendo outro verde, existindo entre eles uma seção de suporte. ( A justaposição das complementares dá o aspecto da "pintura de confete". E, dai, no meio deles, quem sabe...,talvez acreditem no surjimento de um novo Seurat.

E diante do lusco-fusco, fico pensando naquele que libertou a cor, o paradoxal Vincent van Gog, que disse: "Eu não quero pintar quadros, quero pintar a vida". E, embora dissesse, que encontrava dentro dele uma harmonia e uma musicalidade calma e pura, no início de sua carreira os quadros que pintava eram pesados e escuros, pois transmitiam a realidade que o pintor via, e esta era sombria e cinzenta.

Por isto, e por muito mais quando me prometem o céu, a lua e as estrelas eu olho pra cima e se o que vislumbro um céu sombrio, cinzento desconfio do presente, embora quem me prometa se apresente harmônico, musical, calmo e puro.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

ENQUANTO SE ESPERA FILOSOFEMOS

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Enquanto se espera que os nossos corações sejam tocados pelo espetáculo da miséria humana, pela brutalidade do egoísmo, pelo sofrimento real irremissível dos nosso iguais filosofemos.

Filosofemos em cima do que disse um judeu que pensava diferente, que não viveu Auschwitz, mas sofreu um processo de excomunhão em 27 de julho de 1656, com todas as sombrias formalidades do ritual hebreu, tendo à frente os chefes do Conselho Eclesiástico, que amaldiçoaram, execraram e desligaram do povo de Israel aquele que é considerado “ o maior judeu e filósofo dos tempos modernos”. Refiro-me a Baruch de Espinosa.

Sobre DEUS, este é o pensamento de Espinosa: Quando dizeis que se não concedo a Deus as ações de ver, ouvir, observar, desejar e outras que tais... não sabeis que tipo de Deus é o meu. Conseqüentemente imagino que acreditais não existir perfeição maior do que a que pode ser explicada pelos atributos acima citados. Isso não me admira, pois acredito que um triângulo, se pudesse falar diria, de maneira semelhante, que Deus é eminentemente triangular, e um círculo, que a natureza divina é eminentemente circular; assim, cada um atribuiria suas próprias qualidades a Deus.”

Quanto a LIBERDADE DOS HOMENS: “ Os homens pensam que são livres, porque têm consciência de suas volições e desejos, mas ignoram as causas pelas quais são levados a querer ou a desejar”.

A FELICIDADE para Espinosa é definida de forma simples: “presença do prazer e ausência da dor”. Pondo o prazer como transição isto porque o prazer não é a perfeição propriamente dita: “se um homem nascesse perfeito ficaria sem... a emoção do prazer.

O EGOISMO, diz Espinoza: “ é um corolário necessário do instinto supremo de autoconservação, ninguém abandona nada que julgue ser bom, exceto com a esperança de conseguir bem maior”.

A HUMILDADE, diz o filósofo: “ela ou é a hipocrisia do sabido ou a timidez de um escravo; ela significa ausência de força

Sobre o REMORSO: “é antes um defeito que uma virtude: “aquele que se arrepende é duas vezes infeliz e duplamente fraco.”

De INSTINTOS: “são formidáveis como força impulsora, mas perigosos como guias; pois devido ao que podemos chamar de individualismo dos instintos, cada um deles busca satisfazer a si próprio, sem levar em conta o bem da personalidade global’.

ODIAR, diz Espinoza, “é reconhecer nossa inferioridade e nosso medo; não temos ódio de um inimigo que estamos certos de poder vencer. Quem se propõe vingar as injúrias com um ódio recíproco, viverá na infelicidade. Mas quem se esforça por afastar o ódio mediante o amor, luta com prazer e confiança; resiste igualmente um ou a muitos homens e quase não precisa de ajuda da sorte. Aqueles a quem conquista rendem-se a ele alegremente

Encerrando, fica dito que “a paixão sem a razão é cega e a razão sem a paixão está morta”.

domingo, 30 de setembro de 2007

O JOGO QUE NÃO APRENDI












Mais um ano que está se indo. E eu fazendo minhas as palavras de Werther, criatura da fantasia de Goethe: “Assim como a natureza se inclina para o outono, também o outono vive dentro de mim e em torno de mim. As folhas da minha alma vão amarelando, enquanto as folhas das árvores vizinhas tombam.”



Fim de ano às portas pede retrospectiva, o que a TV Globo vem fazendo muito bem ao longo desses anos, e com certeza o fará novamente, reprisando as acontecências relevantes deste ano que já já se finda.



Enquanto isto, parto eu, para uma crônica intimista e a retrospectiva que se segue diz respeito a esta escrevinhadora.



Não sou o que eu queria ser quando menina. E eu queria ser Polyana para jogar o ‘jogo do contente’. Cresci um pouquinho e jurei pra mim mesma que quando ficasse grande me tornaria uma escritora, aí meu pai apontou-me a porta larga da cozinha, mas esqueceu de queimar os livros, que os devorei. Lendo, lendo, lendo...

Não sei ao certo o ano que li O Pequeno Príncipe, só sei que estava na moda lê-lo. Li, mas não entendi as ‘entrelinhas’. Gostei mais do Menino do dedo verde (1957) de um outro francês chamado Maurice Druon, que navegou nas águas de Saint-Exupery, disfarçando a profundidade de suas mensagens na singeleza de um livro para crianças.



Mais um dedinho de crescimento: a porta larga da cozinha não transpus, preferi a da rua. E parti em busca do saber. Assim, as minhas incursões pelo mundo da leitura continuaram. Entre tantas descobri Shopenhauer e me tornei pessimista; com Molière aprendi a sorrir; chorei com Charles Dickens; a velhice , imaginei com Collete; pensei na morte com Hemingway.



Da menina que fui para a mulher adulta que sou, foi um pulo só. E este pulo foi livre e sem medo, como convém que seja, pois segundo Santo Agostinho, para aprender, tem mais valor uma curiosidade livre do que a coerção baseada no medo.



E se não aprendi o ‘jogo do contente’, paciência, culpa minha. O motivo está exposto no que diz Luigi Pirandelo: “E, com muita freqüência, esquecemos que somos átomos infinitesimais, passamos a respeitar-nos e admirar-nos reciprocamente e somos capazes de engalfinhar-nos por um pedacinho de terra ou de queixar-nos de certas coisas que, se estivéssemos compenetrados do que somos realmente, deveriam parecer-nos desprezíveis misérias.”



PS: A paz que excede todo entendimento ainda estou buscando em Deus.



terça-feira, 25 de setembro de 2007

GENÉSIA ENTROU DE GAIATA











Outro dia eu estava supervisionando a limpeza da calçada de minha casa, trabalho esse feito pela Genésia, que nos momentos de sobrecarga de trabalho, larga tudo e fica de muxoxo pelos cantos da casa proclamando-se a última das mucamas, porque diz que eu a escravizo, mas é mentira, ela que é abusada, lê o jornal antes de mim, mete o bedelho em tudo que é conversa. Reclama de barriga cheia, embora esteja na família há mais de vinte anos e seja considerada como tal, exigiu carteira assinada, férias remuneradas, plano de saúde , décimo terceiro e tudo o mais que acha que tem direito. As nossas diferenças são por conta da TV paga no horário da tarde, enquanto eu quero me ligar no canal do Senado, ela quer ficar zanzando entre os canais onde as apresentadoras comentam a vida dos artistas de novelas, quem deixou quem para casar com quem, quem vai posar nua na Play Boy etc.etc.etc.


Até que eu já tentei politizar a Genésia, explicando o papel de um senador na conjuntura política do país. Sabe o que foi que ela disse, olhando com o maior desprezo para suas excelências? Vou até colocar um (sic) “Ah! Isto é programa de índio, um bocado de velho falando mal do governo e quando ele manda as coisas pra votar, fazem igual à vaca de presépio, balançam a cabeça e um lá grita : APROVADO!” Neste ponto calei-me e desisti.


Adoro a Genésia, a sua “ira santa”, faz parte dela. Só não sei o que danado ela está fazendo aqui na minha crônica, pelo jeito entrou de gaiata, feito Pilatos no Credo.


Eu queria mesmo era falar sobre o meu vizinho, grande proseador, que retornando de sua caminhada matinal, me avistou na calçada e veio na minha direção. Temos uma coisa em comum: gostamos de política, e foi sobre este tema que sentamos na beira da calçada para prosear. Enquanto ele se ajeitava eu observava as formigas “sarará”, que desciam da árvore que nos sombreava, cada uma carregando uma folha maior do que si própria e seguiam em procissão, para onde não sei. .


É bem falante o meu vizinho, o que mais me diverte nele é a mania que tem de fazer seus os pensamentos dos outros, isto sem a menor cerimônia, com ele é: leu, gostou, incorpora. O assunto caminhou para o lado das promessas, até agora não cumpridas, pelo senhor presidente da República e constantes do seu programa de governo. Ele, sem citar a fonte, repetiu palavras de Machado de Assis quando disse: “Oh! Por que não nasci eu assaz político” – e prosseguiu – pois se assim o tivesse sido e candidato a um cargo executivo me apresentasse, ao invés de um calhamaço contendo um programa de governo que, via de regra, por ser mirabolante nunca é cumprido, diria simplesmente aos eleitores, que o meu comportamento de governo primaria pelos princípios abaixo enumerados, frutos do meu pensar:


Nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa que não seja visivelmente verdadeira.


Dividir as dificuldades em tantas partes quantas possíveis.


Começar procurando as soluções para os problemas mais simples e prosseguir, passo a passo, até os mais difíceis.


Rever todas as conclusões e assegurar-se de que nada foi esquecido.


Neste ponto fez uma pausa. Aproveitei para elogiar o discurso e acrescentei: só tem uma coisa, essas quatro regras por você citadas, não são do seu pensar, foram criadas por Descartes (Discurso do Método). Então, ele me respondeu: “É, eu sei, mas em campanha, trepado num palanque qualquer um é Napoleão, além do mais, quem danado ler Descartes hoje em dia?”.


A conversa terminou, o meu vizinho levantou-se, limpou os fundilhos da bermuda e seguiu o seu caminho. Eu permaneci sentada, observando as formigas que prosseguiam na sua caminhada.


sábado, 22 de setembro de 2007

ROSA POR UMA HORA


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Ai o diabo disse: “Lá vem a compadecida!

Mulher em tudo se mete!” (Auto da

Compadecida – Ariano Suassuna)

E eu que não entendo nem o porquê do muçulmano fazer xixi de cócoras, vou repassar uma historinha de origem árabe.

Jamil Almansur Haddad, versado em literatura da língua árabe nos informa que os árabes são contadores natos de histórias, têm contos para todas as posições da vida, alegria ou dor, ruína ou fortuna, doença ou saúde. Aliviam as dores contando, aumenta a alegria contando. O conto é o sonho acordado dos árabes.

Vale salientar, segundo Jamil, que para o árabe, o contador de histórias não tem menos valor do que o autor; quem recolhe a história que ouviu poderá narrá-la e o mérito recai principalmente sobre quem contou.

O que se segue é baseado no conto “A Violeta Ambiciosa” do libanês Gibran Kalil Gibran (1883/1931) tradução de Jamil A. Haddad

A Violeta, que não era sindicalizada, não pertencia a nenhum partido político, não fazia parte das hostes de nenhum governo nem tampouco detentora de cargo comissionado, mas mesmo assim era feliz vivendo num jardim solitário, contudo, de uma hora pra outra ficou triste, isto porque numa bela manhã ergueu a cabeça e deparou-se com uma Rosa alta e linda exibindo toda faceira os seus atributos.

Por sentir-se muito próxima da terra e não poder erguer a cabeça até o céu azul ou voltar a face ao sol como as rosas fazem queixou-se a Violeta: “ Como eu sou infeliz em meio a essas flores e como é humilde a posição que ocupo diante delas! Fez-me a natureza para ser curta e pobre...”

E a rosa que era flor que se cheirava riu e comentou: “Como é estranha a tua fala! Tu és feliz, embora não possas compreender tua fortuna. A Natureza dotou-te de fragrância e beleza o que não fez com nenhuma flor... Aparte de ti estes pensamentos, sê contente e lembra-se que aquele que se humilha será exaltado e aquele que se exalta será esmagado.” A Violeta respondeu: “Consolas-me porque tens o que eu almejo... Procuras amargurar-me cada vez mais com a idéia de que és grande...Como é dolorosa a pregação dos felizes para o coração do miserável! E como o forte é severo quando quer ser o conselheiro dos fracos!”

Ouvindo o diálogo entre a Violeta e a Rosa , a Natureza aproximou-se e disse: “ O que te aconteceu companheira Violeta? Fostes sempre humilde e doce em todas as tuas ações e palavras. Será que a ambição invadiu teu coração, embotando teus sentidos?” Numa voz suplicativa a Violeta respondeu dizendo: “Ó mãe grande e misericordiosa, cheia de amor e simpatia, imploro-te com todo o meu coração e minha alma, que atenda as minhas súplicas e permitas que eu seja rosa por um dia apenas.”

Diante das súplicas da Violeta, a Natureza resolveu atender o seu desejo, mas antes fez esta advertência: “Ó Violeta ignorante e revoltada, acederei aos teus desejos, mas se a desgraça cair sobre ti, deveras “. Para depois, estender os dedos misteriosos e mágicos, tocando as raízes da Violeta que imediatamente se transformou numa alta rosa.

Como nem tudo são flores, à tarde o sol resolveu bater em retirada para que as nuvens negras tomassem conta do pedaço e enviassem à terra os elementos raivosos, que em forma de raios, chuva e ventos fortes atacaram o jardim da ex-Violeta, que travestida de rosa não resistiu a tempestade que lacerou os ramos e desenraizou as árvores e quebrou as hastes das flores altas, poupando apenas as pequeninas que cresciam bem junto ao coração da terra.

Não contentando-se diante da Violeta metamorfoseada, derrubada por terra pela tempestade, feito um soldado ferido em um campo de batalha, a rainha das violetas convocou sua família, dizendo: “ Olhai, minhas filhas, e meditai sobre o que a ambição fez à Violeta que se transformou em uma rosa orgulhosa por uma hora. Seja a memória desta cena uma lembrança eterna da vossa boa sorte.”

E a Rosa moribunda moveu-se e reuniu o que ainda sobrava de suas forças, cheia de orgulho, disse: “Vivi por uma hora apenas como uma rosa orgulhosa; existi por tempo feito uma rainha; contemplei o Universo pelos olhos da rosa; ouvi o sussurro do firmamento pelos ouvidos da rosa e toquei as dobras do manto da luz com as pétolas da rosa. Alguma de vós poderá proclamar semelhante honra?” Tendo assim falado, baixou a cabeça e com voz sufocada murmurou: “Agora eu posso morrer, pois minha alma alcançou o seu objetivo. Estendi, finalmente, o meu conhecimento para o mundo que fica além da estreita caverna do meu nascimento. Este é o designo da vida...Este é o segredo da existência.” Então a Rosa extremeceu, dobrou lentamente as suas pálpebras e respirou pela última vez com um sorriso celestial nos seus lábios... Um sorriso pleno de esperança e propósito de vida... Um sorriso de vitória...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

HOJE QUEM FALA SOU EU





“ Tenho várias caras. Uma é quase bonita,
outra é quase feia. Sou o quê? Um
quase tudo” (Clarice Lispector)



Disse-me certa vez alguém muito e muito mais sabido do que eu, e que já não anda mais por este mundo, dele só resta a saudade e o “silêncio de portais”. E o amigo assim me falou: Zélia, a literatura de entretons, fuga , já era. Hoje o tutano tem se ser expulso, e me mandou à vida.


Não aprendi a lição e se me confesso não me desnudo, não consigo assumir por inteiro as características próprias da ficção feminina, confessional, e aparentemente narcisista.


Sei apenas que escrever é preciso. E sem fôlego para mergulhar fundo, de mim só sei dizer: do que fui, lembranças de sonhos contidos... do que sou, não consigo me encontrar. O ontem vivido é manifesto desejo de revivê-lo hoje, contrariando o crepúsculo em que mergulho sem mais tempo de dar vazão a esses contidos sonhos, que teimam em desconhecer as regras impostas pelo caminhar da vida. Já não me é permitido muita coisa; talvez, um... Reza minha senhora! Humildemente confesso, não sei fazê-lo, de há muito ando às turras com o Senhor lá de cima. Minha culpa, minha máxima culpa.


E neste “silêncio de portais”, busco palavras de outros, e as faço minhas ... Cais, às vezes, afundas
Em teu fosso de silêncio
Em teu abismo de orgulhosa cólera,
E mal consegues
Voltar, trazendo restos
Do que achaste
Pelas profunduras da tua existência


(O Poço –Pablo Neruda)



domingo, 16 de setembro de 2007

O GRANDE IRMÃO TE VIGIA




















Não há canto na caminhada, já não somos todos irmãos; já não sabemos se o que nos espera é um Auschivitz; já não sabemos se virá por imposição, decreto, projeto ou medida provisória a lei que determinará a marcação do número do nosso celular em nossos braços, com a obrigatoriedade do monitoramento das chamadas: de quem para quem, do que disse e do que ouviu. Só sabemos que o Grande Irmão nos vigia, com a cumplicidade do nosso “Winston Sunth (personagem da fábula “1984”) e “ dos pobres peões manipulados por uma azeitada máquina estatal, que articula os impressionantes recursos da propaganda com uma eficiente polícia da consciência.”


Já não importa que sejamos probos, já não existe mais sossego na vida dos homens públicos deste país, visto que todos estão sendo jogados na vala comum da improbidade. E a época da inquisição revive, com as ferramentas da modernidade sem a necessidade dos trâmites legais e sem aquela historinha de que se é inocente até provas em contrário, basta o Quarto Poder girar a sua artilharia na direção do alvo escolhido e pronto! Por ilações e imaginação dignas de um Gilberto Braga, cria-se o “monstro”. Às favas a Justiça em todas as suas instâncias. Com a Imprensa, o poder de investigar, denunciar, julgar, condenar, execrar. Ao “condenado” só lhe resta o júris sperniandi .


Não se pode esconder, no entanto, que no meio político, figuras comprovadamente controversas - das que acreditam que “o inferno são os outros” -tentam passar a imagem de paladinos da ética e da moral, arvorando-se criadores de grandes feitos e com a proclamação de tais, tentam esconder a verdadeira pobreza moral que os circundam, no afã de emoldurar os deslizes éticos pelo “gás néon”


Para os que têm discernimento, cabe no momento do exercício democrático do voto, impor a sua vontade, defenestrando os aventureiros para livrar o futuro da “distopia” prevista por George Orwell e deixar fluir a “Utopia” de Thomas More.


Enquanto a hora não é chegada revestidos da nossa impotência, só nos cabe assistir via on-line o festival de todo mundo denunciando todo mundo.


quinta-feira, 13 de setembro de 2007

POR QUE A ANGÚSTIA?







Ó tempora! Ó mores! Ó angustia! Enquanto isto Caetano canta: “Gente foi feita para brilhar e não para morrer de fome.”


O caro leitor há de convir que, sai governo, entra governo e a pátria amada idolatrada salva salve continua a mesma: todo mundo fala e ninguém se entende, é que nem a corte do rei Pétand, citada pela senhora Pernelle, protetora de Tartufo, que disse que nessa corte nada se respeitava e todo mundo falava o que lhe vinha às ventas.


Que eu estou angustiada, isto estou. Eu que tenho aonde cair morta; que posso cuidar dos meus possíveis males; que mato a minha fome e a minha sede à hora que desejar. Mas... e os outros? Aqueles que vivem por que Deus quer; que morrem por que Deus quer; se a seca castiga é por que Deus quer; se chove é por que Deus quer; se comem ou passam fome é por que Deus quer; que moram num barraco ou debaixo de uma ponte é por que Deus quer...


Invejo a fé dos zés brasis, admiro a sua reverência, o chapéu na mão, olhar para o alto em busca de Deus... Quem sabe um dia eu chego lá. E enquanto a fé não chega e a angustia não passa, vou sair por aí e fazer uma saudação mentirosa a um valentino qualquer, como fazia o inquieto e bem mais atormentado do que eu, Santo Agostinho, que em uma das suas andanças encontrou um pobre mendigo bêbado que ria e fazia arruaça. A cena embora o aborrecesse, revelava um aspecto da verdade que procurava. O bêbado com um pouco de dinheiro alcançava a felicidade.


Sabia o santo que a alegria do bêbado não era autêntica. Mas pôs em dúvida a alegria que ele procurava com as suas ambições e enredos tortuosos. Numa noite o bêbado digeria o vinho e sua bebedeira passaria; ele, Agostinho, ao contrário, iria dormir e acordaria com o mesmo tormento, hoje, amanhã, quem sabe até quando...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

DE CISMA, PENSAMENTO E SONHO









A respeito da Natureza, do Desconhecido, cada um de nós, cisma, sonha à sua maneira. Sei de alguém que se chama Gilliatt, protagonista de um romance escrito por Victor Hugo, no ano de 1866, sob o título “Os Trabalhadores do Mar”, que costumava, diante da imensidão do mar, cismar, pensar, sonhar assim:


.Dizia Gilliatt, que tinha visto algumas vezes, na água do mar, completamente límpida, animais inesperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quais fora da água assemelhavam-se a cristal mole e, tornados à água, confundiam-se com ela pela identidade de transparência e de cor; disto concluía ele que, se a água era habitada por transparências vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparências igualmente vivas. Os pássaros não são os habitantes, são anfíbios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. S


Se o mar está cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera está vazia?-Indagava. Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que estas criaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáfanos, beneficio da providência criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz através de sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava que, se se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma porção de criaturas surpreendentes. E acrescentava ele na sua cisma, muitas coisas explicariam.


A cisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preocupa-se a respeito dele, como de sua própria fronteira. O ar habitado por transparência vivas seria o começo do Desconhecido; além abre-se a vasta porta do possível. Outros seres e outros fatos.


Nada sobrenatural; mas a continuação oculta da natureza, era um observador estranho e fantástico. Chegava a observar o sono. O sono está em contato com o possível, que também chamamos o inverossímil. O mundo noturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma coluna atmosférica de 15 léguas de altura, chega à noite fatigado, cai de fraqueza, deita-se, repousa: fecham-se os olhos da carne: então, naquela cabeça adormecida, menos inerte do que se crê, abrem-se olhos, aparece o Desconhecido.


As coisas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhos do homem, ou porque as distâncias do abismo tenham crescimento visionário; parece que as criaturas invisíveis do espaço vêm contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma criação fantasma sobe e desce para nós, no meio de um crepúsculo; ante a nossa contemplação espectral, uma vida que não é a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entrevê as animalidades estranhas , as vegetações extraordinárias, as cores lívidas, terríveis ou risonhas, as larvas, as máscaras, os rostos , as hidras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodígio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a flutuação de formas nas trevas, todo esse mistério que chamamos sonho, e que não é mais do que a aproximação de uma realidade invisível.


O sonho é o aquário da noite.


Assim sonhava Gilliatt. Assim sonho eu.

domingo, 2 de setembro de 2007

I ANSWER THEE


AND ONE DAY BECAME LIGHT
PROVOKED BY THE PRODIGAL MAN
THE WOMAN-CLAY, FLEXIBLE
ALTHOUGH HAVING FORM
FEARING AT THE HANDLING

EXPLOSION OF FEELINGS
NO DUEL BETWEEN PASSION AND ROCK
CRAZY WOMAN, MAN
THAT WASTED MOMENTS

A RESTLESS SOUL WENT AWAY
SORROWFUL ANOTHER AWALTED
THE SILENT AND EXPECTED RETURN
FROM THAT ONE WHO SEARCHED THE INFINITE

IF SHATTERED WAS THE MAN
FOR NOT SENSING THE BLUE HE LEFT HERE
UNHAPPY IS THE WOMAN
ABSTRACT FOR THE EYES OF WHO HAS DEPARTED

IT DID NOT TRAMPLE MOUNTAINS
BUT IT SAW ITSELF KNOCKED DOWN
IMPOSTOR IN FAKED ANGUISH
IN THE IMPRISONED SHOUT IN THE THROAT
IN THE UNCHECKED WISH OF BECOME WOMAN
AGAIN
FROM THAT ONE WHO HAS DEPARTED

YES, I WOMAN-CLAY
IN THE NIGHTS I SOUGHT STARS
IN VAIN THE SAD SEARCH
THAT ONE WHO SOUGTH
A LOWER CLOUD COVERED HER

AND HERE I AM
NOT WOMAN-STONE
NOT WOMAN-CLAY
JUST WOMAN
THY

domingo, 26 de agosto de 2007

ELA FALA POR NÓS









No princípio
Uma palavra
Depois
Uma frase
Um composto subordinado
E no turbilhão das palavras
Eis que surge um confitente
Na figura de mulher translúcida
Analisa-se a figura
Bela aos olhos
Analisa-se o que esconde a diafaneidade
Vislumbra-se
Surge em forma de tristeza
E quanta tristeza, meu Deus!
Ora, ora! Por que o espanto?
Domina todas as letras, é poeta a mulher!
Tristes também foram e são todas...
Clarice
Cecília
Lígia
Adélia
Collete
Virgínia
Lya
E se há de perguntar:
São perigosas as tristezas?
“Apenas são cruéis e perigosas as tristezas
que passeamos na multidão para que
esta lhe dê remédio”
Ensina Rilke
E o que mostra a tristeza da mulher?
Uma tristeza sentida
Uma tristeza sem causa
Uma tristeza necessária
Uma tristeza que sufoca
Uma tristeza que é dela, que é nossa, de todos nós.
Amemos pois, a tristeza de YASMINE
Ela fala por nós.



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TIC-TAC



YASMINE LEMOS



O meu inimigo
Passeia horas no meu pensamento
Destrói as bases do castelo
Depois descubro que foram no vento


O meu inimigo distorce os ponteiros do tempo
Me ilude dizendo que o passado é hoje
Depois descubro que o som das cordas eram um lamento


O meu inimigo tem o meu rosto, meu semblante:
Contraditório:
O meu inimigo é o mais puro de mim:
Ilusório, ciente e permanente, como os ponteiros de um relógio

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O ARTISTA DA PALAVRA









Tristonha e serena cai à tarde, antes que ela desabe sobre mim, vou sair da barrica, apanhar a lanterna e partir em busca de alguém que me sirva de fonte de inspiração para a crônica de hoje.


Não precisei ir muito longe, entre os meus conhecidos ( pense aí em Flaubert, Voltaire, Goethe, Stendhal, Collete, Virgínia Woolf e tantos outros) eis quem eu encontro, perfilado e pronto para ser visto, notado e reconhecido: o escritor Franklin Jorge, o “artista da palavra” , como o qualificou o saudoso Jayme Hipólito Dantas, profetizando também, que um dia “haverão todos de admirar a prosa deste excelente escritor. Deste puro, saudável, belo cultor da forma.” (Extraído do Prefácio do livro de Bolso, Nossa Editora, 1980).


Em “Ficções/Fricções/Africções”, Franklin Jorge, na abertura do fragmento A Idade dos Nomes, onde trata de “Maria Maxixe”, fez a seguinte citação: “Essas coisas não aconteceram, mas existiram sempre” (Salústio. Degli Dei e Del mondo). É assim que vejo o escritor Franklin Jorge, dizendo coisas que eu não sei se aconteceram, mas que existiram, com a maestria descrita pelo também saudoso Américo de Oliveira Costa, que disse: “ Suas produções obedecem sempre a um esforço de despojamento, de depuração na busca da expressão ou da forma desejada, não por uma questão de preciosismo de artífice, mas como uma condição substancial de sua natureza criativa”. (Extraído do livro Spleen de Natal 1996)


A última vez que falei com Franklin foi por telefone, oportunidade em que afirmei não gostar de Shakespeare. (Ele com o seu cavalheirismo, não me disse que o desgostar é fruto da minha pseudocultura, que impede que eu alcance e entenda o dramaturgo inglês).


Mas, sabe Franklin, confesso que existe algo mais: a falta de originalidade. Então, ajo feito o escritor alemão Gottfried Keller, que se queixava de que Shakespeare houvesse aproveitado todos os temas fecundos, antecipando-se, assim, aos escritores que vieram depois dele, e prejudicando-os na própria originalidade.


Obrigada meu caro Franklin por me servir de tema e como você bem o disse, “ escrever é transgredir os códigos (...) quem sabe um dia eu transgrida e convença, feito aquele que eu não alcanço e nem entendo, que no seu tempo pendurava uma lanterna no palco do teatro, e advertia um auditório de mercadores e marinheiros que aquela candeia, oscilante e tosca era a lua, debruçada no firmamento. E todo mundo via e sentia na luz baça do candeeiro de azeite a poeira do astro luminoso.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

QUE OS SINOS DOBREM POR EMÍLIA






Meu caro leitor, minha cara leitora, “ leia isto e queira-me bem, perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas.”


Quem leu o conto ‘O Enfermeiro’ de Machado de Assis, sabe que, quem assim se expressou foi Procópio, personagem da história.


A título de curiosidade passo à frente, pois não deixa de ser interessante saber, principalmente, para nós mulheres, que no ano de 1601, Shakespeare, deixando de lado as comédias ao escrever o sóbrio drama Otelo – quando começa a aprofundar a psicologia de seus personagens – criou para Emilia, mulher de Iago e companheira de Desdêmona, entre outras falas, uma como esta: (...) a culpa é dos maridos. Se eles prodigalizam a outras o amor que é nosso, ou nos fecham em casa por ciúmes ridículos, ou nos batem, ou gastam de má forma o nosso dinheiro, não podemos enfurecer-nos também? De certo somos benévolas de condição, mas também capazes de cólera. E que os maridos saibam, que as mulheres têm sentidos tal como eles, e vêem, e tocam, e saboreiam, e sabem distinguir o que é amargo. Quando eles abandonam as suas mulheres por outras, que procuram senão o prazer? Que os arrasta. Senão a paixão? Que os domina, senão a fraqueza? E nós não temos também, apetites, paixões e fraquezas? Conforme nos tratam, assim seremos nós.”


Taí quem era mulher de verdade: a Emília de Shakespeare e não a Amélia de Ataulfo e Mário Lago. Que os sinos dobrem por ela.


Deixando de lado as emílias e as amélias e, caindo na real, subo na ponte para observar o bate-estaca do “shangri-lá” prometido, só que para tanto me falta a visão otimista e a percepção dos raios da esperança e me sobra o descrédito de Harry (O Lobo da Estepe – Hermann Hesse)


Ora direis: a cotovia nem cantou, é cedo ainda. Afinal, para a ‘Fazenda Modelo’, Juvenal, o Bom Boi foi nomeado faz pouco tempo. Paciência, pois. E assim sendo, que a boiada seja selecionada; plantado o capim elefante; importado o farelo; cheios os bebedouros; substituído o chocalho pelo cartão magnético. E que o preço de cada um seja o valor de uma bolsa-família

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

HOJE, NEM PRÓ NEM CONTRA








Já dizia Homero, o da Odisséia: “ de qualquer coisa é fácil falar: pró ou contra”.


Hoje, nem pró nem contra. De estilingue guardado no bolso, diante da vitrina por decorar, apego-me à conjecturas. Imagino se tem alma o manequim exposto – para quem alguns transeuntes apressados olham de soslaio e dizem levar jeito de rei, imperador ou príncipe, outros param e o criticam por enxergá-lo nu e outros menos apressados param por lhe enxergar o manto real.


Qual a reação do manequim à desaprovação de muitos? Seria idêntica a do rei Arquelau, que ao passar por uma rua alguém lhe jogou um balde de água à cabeça. Incitavam-no a punir o desastrado, mas ele respondeu: “Não foi em mim que ele jogou, foi na pessoa que acreditou que eu fosse”. Ou então, feito Sócrates, que observou quando alguém lhe dizia que falavam mal dele: “ absolutamente, não há em mim, nada do que afirmam.


Quanto aos que enxergam o manto real, o que pensa deles , o manequim? Atribui-lhes méritos e os consideram como os paladinos dos tempos heróicos, que se apresentavam ao combate com armas encantadas? Ou faz como Alexandre, que admoestou Brisson por deixá-lo ganhar a luta dizendo: “devia tê-lo açoitado”. Ou ainda, quem sabe... lembrar-se de Cornéades ao dizer que “os filhos dos príncipes nada aprendem que não seja falso, a não ser andar a cavalo: em todos os demais exercícios cedem competidores e deixam-nos vencer, mas o cavalo, que ignora a lisonja, derruba o filho do rei como o faria com o filho do lixeiro”.


Diz Montaigne, que é triste ter um poder diante do qual tudo se incline; uma tal vantagem repele as demais. Essa cômoda facilidade de fazer com que tudo se abaixe diante de si, exclui quaisquer satisfações; escorrega-se, não se anda, dorme-se, não se vive. Imaginai um homem onipotente: ei-lo angustiado; precisa pedir-nos a esmola de uma resistência.


Ainda Montaigne: As boas qualidades dos reis são como mortas e inúteis, pois as virtudes só se percebem por comparação e as deles nunca se comparam Ignoram os louvores de bom quilate porque os aflige uma continua e invariável aprovação. Ainda que se meçam com o mais íntimo de seus súditos não poderão auferir o prazer da vantagem obtida, pois sempre haverá uma resposta irretoquível: “ trata-se de meu rei”.


Mas, quais as razões que levam muitos a não contestarem o rei? Será que pensa como o filósofo Favorino, que de uma feita discutindo com o imperador Adriano acerca do sentido de certa palavra cedeu a este bem depressa, e aos amigos que lhe censuravam a atitude, respondeu: “Por Deus, pois então não será mais sábio do que eu quem comanda trinta legiões?” Tem também o exemplo de Augusto, que escreveu versos contra Asínio Pólo, o qual respondeu: “Calar-me-ei, não é prudente escrever contra quem pode proscrever”. Diz Montaigne, que ambos tinha razão, pois Dionísio, por não conseguir igualar Filóxeno na poesia nem Platão na filosofia, condenou um aos trabalhos forçados e vendeu o outro como escravo na ilha de Egina.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

O EXISTENTE E INVISÍVEL












Os entendidos afirmam que a filosofia teve início quando a magia e o ritual cederam, de forma lenta, lugar à ciência e ao controle. Também afirmam, que é a única ciência capaz de fazer com que a alma olhe para cima, objetivando o existente e invisível.


A propósito, li em “O Dia do Curinga”, de Jostein Gaarder, um diálogo interessante entre pai e filho. O filho pergunta para o pai se ele acredita em Deus e acrescenta: “se realmente existe um Deus, então ele adora ficar brincando de esconde-esconde com suas criações”.O pai ri da observação do filho e diz: “Talvez Ele tenha tido um choque quando viu o que tinha criado e então saiu rapidinho de cena. O filho insiste:” quer dizer pai, que você acredita em Deus “. Ao que respondeu o pai:” Não disse isso. Mas pode muito bem ser que ele esteja sentado em seu trono lá no céu, rindo de nós porque não acreditamos Nele “. E relatou para o filho a seguinte conversa:


“Certa vez, um cosmonauta russo e um neurocirurgião, também russo, discutiam sobre o cristianismo. O neurocirurgião era cristão, o cosmonauta não era”.Já viajei muitas vezes para o espaço sideral “- gabou-se o cosmonauta -” mas nunca vi nenhum anjo”. O neurocirurgião primeiro ficou olhando para ele; depois disse: “ E eu já operei muitos cérebros inteligentes, mas nunca vi um pensamento.”


Feito o poeta Drummond: “Mais leio, leio. Em filosofias/ tropeço e caio, cavalgo de novo”. Um dia, quem sabe..., Eu ao invés de contentar-me com o materialismo de Demócrito, que afirma que “na realidade não existe nada a não ser átomos e espaço”, alcance a significação, o sentido, a idéia dessa ciência capaz de fazer com que a minha alma olhe para cima. No momento estou perdida e tão por fora quanto Sócrates quando disse: “Uma coisa eu sei é que nada sei”.


domingo, 12 de agosto de 2007

UNDE SALUS?








Eis-me aqui para iniciar minha queda de braço com a “Ùltima flor de Lácio" inculta e bela. Com esta antítese o Sr. Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac trata em versos a língua portuguesa.

Feito o preâmbulo, passo a matéria:


Se eu tivesse de enfrentar o microfone do karaokê e me fosse dado escolher entre a canção de Mercedes Sosa “Gracias à la Vida” e “Não dá pra ser feliz” de Gonzaguinha, eu ficaria com a última. E por que o faria? Explico: Quanto mais leio, mais as entrelinhas me angustiam e eu vejo chifre até em cabeça de cavalo. Aí aindignação vem à tona e haja exclamação para tudo .


Não dá pra ser feliz sabendo que milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza absoluta; que quase tudo do que é arrecadado pelo governo federal destina-se ao pagamento dos juros da divida do país. Dói-me saber de pai de família desempregado; de jovens sem perspectivas. Por cada criança faminta e sem escola; por cada injustiça, cada dificuldade sofrida pelo próximo me vem à boca um: Deus nos acuda! E por que o faço?


Porque vivo num regime democrático, porque li que democracia significa a perfeita igualdade de oportunidade. E não apenas o rodízio de todos os fernandos, joãos, josés e lulas nos cargos públicos.


Porque li Will Durant destrinchando Platão, que diz: “Tal homem, tal Estado”. Ensina mais: “Os governos variam como variam os caracteres dos homens ; ... Os Estados são constituídos pela natureza humana que se encontra neles. O Estado é o que é porque seus cidadãos são o que são. Portanto, não adiante esperar Estados melhores até que tenhamos homens melhores. Até lá todas as modificações deixarão os pontos essenciais inalterados”.


Para compreender a ciência política, disse um mais sábio do que eu, que temos que compreender a psicologia. É a tal história... “Como são encantadoras as pessoas! –Sempre tratando, aumentando e complicando suas doenças, imaginando que ficarão curadas por algum elixir mágico que lhes aconselham... Mas vão de mal a pior... fazem experiências com a legislação e acreditam que, por meio de reformas terminarão com a desonestidade e canalhice da espécie humana –Sem perceberem que na realidade estão desferindo golpes nas cabeças de uma hidra.


Acho que é hora de lembrar do meu avô Bernardino e citar uma frase em latim que ele costumava dizer enquanto curtia os seus porres homéricos: “Unde salus” ? que trocado em miúdo significa: “Donde virá a salvação?”