segunda-feira, 11 de maio de 2009

E O DIA ERA SEU



(DEDICADO ÀS MAMÃES DE DIA TRISTE - TEXTO JÁ PUBLICADO)

MÃE


Acordou mais cedo que de costume, deixou-se ficar indolentemente estirada por sobre a cama, ao seu lado, ainda a dormir, seu marido, que produzia um ruído irritante, contínuo, cavernoso, grave, semelhante ao ronco de um suíno; voltou-se para ele e lançou-lhe um olhar. Diante do quadro vislumbrado tentou esquivar-se à realidade.


Fazia tempo que não se detinha em observar o seu marido, ele havia engordado e envelhecido, seu rosto apresentava sulcos, que partiam dos cantos da boca em direção ao queixo, o pescoço tornou-se uma parte fofa, que culminava em papos; tudo mais formava uma massa compacta de gordura.


Fisicamente não havia mais atração entre eles e há muito ele a relegara a segundo plano em relação aos seus negócios, aos seus amigos e aos seus hobbies; por sua vez,ela jamais reclamou dele quanto à sua frieza, à sua distância, nem da falta de tempo para ela, quer emocional ou fisicamente, nem quando os seus abraços e beijos cessaram e os seus foram rejeitados .


Num gesto brusco levantou-se da cama, balançou a cabeça, como se com esse gesto pudesse espantar os pensamentos.


Afinal, o dia era o das mães e ela se sentia intimamente feliz e desejosa de comemorar a data, não importando se alguém dentro daquela casa tomava interesse por ela e se punha fé na sua existência como ser dotado de vida própria.


Trocou-se e arranjou os cabelos, sorriu para o espelho e se pôs a caminho da sala; buscou por entre uma pilha de discos velhos um long-play de Ângela Maria gravado em parceria com João Dias, colocou no toca-disco a faixa onde os cantores em dueto soltavam seus vozerões e diziam que a mamãe era dona de tudo, era a rainha do lar, valia mais que a terra, o ouro e o mar...


Arrepiou-se de emoção e se deixou embalar pela canção.- “Mãe!!! Desliga essa porcaria, me deixa dormir!!!” – Berrou de dentro do quarto o seu filho.


Havia esquecido que o coitadinho chegara tarde à noite passada, e cheia de remorsos desligou a radiola. O seu rapaz, aquela figura decorativa, sem planos, ambições e trabalho, carecia de silêncio para fazer o que só sabia: dormir.


Pra cozinha; na cabeça, a idéia de preparar uma suculenta macarronada.De espírito desarmado, sorriso nos lábios e o desejo um tanto infantil de cantar parabéns para si mesma, entregou-se à tarefa de preparar a macarronada.


Assim sua filha a encontrou, quando entrou na cozinha em busca do café; não a cumprimentou pela data, limitou-se a dizer que sairia em seguida, tinha compromissos com a turma do sindicato e não estaria em casa para o almoço.


Entendia sua garota, sempre preocupada com as questões sociais, com o bem estar do próximo, não lhe sobrando tempo para os seus, não passava pela sua cabeça nenhuma censura a bela filha, que mais parecia uma agitadora social, a fomentar greves, protestos, exigindo dos outros deveres e obrigações, sem, contudo, se dar ao trabalho do exemplo próprio.


Mesa posta, vinho na geladeira, macarronada no forno, filho dormindo, filha e marido, só Deus sabe onde.Sozinha se serviu da macarronada, bebeu mais vinho do que convinha ergueu-se da mesa com dificuldade e em silêncio lavou a louça.


E o dia era o seu.

VOCÊ SABE O QUE É SOLIDÃO?



Enquanto isso Maria disse pro João: bem que eu poderia dizer que tenho muitas manias, uma delas é gostar de você. E quando eu penso que só o meu gostar lhe bastasse, vem você e diz que é um ser solitário. Então, eu lhe pergunto: você sabe o que é solidão? Não, Não, tenha calma, não vou explicar com minhas palavras, com certeza ouviria de sua parte um... to shut up! Mas você gosta do Chico, não gosta? Então, leia o que ele diz sobre solidão. Leia e vê se entende e depois olhe pra mim e vê se me enxerga.

SOLIDÃO VISTA PELO CHICO BUARQUESOLIDÃO não é a falta de gente para conversar, passear ou fazer sexo...Isto é CARÊNCIA.


SOLIDÃO não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...Isto é SAUDADE


SOLIDÃO não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos...Isto é EQUILIBRIO.


SOLIDÃO não é um claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida.Isto é um principio da NATUREZA


SOLIDÃO não é o vazio de gente ao nosso lado...Isto é circunstância


SOLIDÃO é muito mais do que isto.


SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.E pensar que seria tão fácil você se achar em mim e nós nos tornaríamos uma só alma , um só corpo...


Sim, antes do the end, gostaria que você me informasse quando vou puder dizer que te amo sem que você me mande calar a boca? Só não vale mandar eu esperar sentada nem usar daquele expediente tão seu de... tenha meu silêncio por resposta, faz favor. *************************


Fim da história? Nada mais Maria disse nem a João nada mais foi perguntado.


ps: NÃO POSSO AFIRMAR QUE ESSA DEFINIÇÃO DE SOLIDÃO É DO CHICO, CAIU NA REDE E SE CAIU E É DO CHICO, É PEIXE.

UM DEGRAU A MAIS- AS MÃOS QUE NÃO ALCANCEI




“Errar é humano:

Perdoar, divino"

(Alexandre Pope)


Não, não me chamo Isaac Newton, não entendo de Gravitação Universal, não estou sentada debaixo de uma macieira e sim de um coqueiro, de olho nos seus frutos, pois se despencar um sobre minha cabeça não vai adiantar eu perguntar para o coco por que ele não flutua ao invés de cair.


E por que me lembrei do Newton? Por que estava lendo o poeta britânico Alexandre Pope, que escreveu o seu epitáfio, que diz: “Nature and nature’s laws lay hid in night; God Said ‘Let Newton be’ and all was light (A natureza e as leis da natureza estavam imersas em trevas; Deus disse “Haja Newton” e tudo se iluminou).


E, já que Deus também entrou na jogada me lembrei de Sua morada, pois estava de papo pro ar observando essa imensidão de azul que nos ensinaram a chamar de céu. Sabe, quando eu era criança imaginava que a gente alcançava o céu através de uma imensa escada, e costumava me deitar na relva pensando nisso; às vezes adormecia e numa dessas vezes eu sonhei que eu começava a subir essa escada, degrau por degrau, pois não era permitido pular nenhum e quanto mais subia mais degrau surgia; sempre havia um degrau a mais.


Não me lembro de sentir cansaço, era impulsionada por uma esperança de que ao chegar no topo eu encontraria o céu e o que nele buscava... Até que enfim avistei um enorme portão aberto e no centro dele alguém de quem eu me lembrava: uma senhora alta, elegante, morena, cabelos presos feito coque, ela sorria para mim e estirou os seus braços em minha direção e eu estirei os meus para ela, tentei me aproximar, mas a escada começou a se distanciar do portão e criou-se aquele vácuo entre nós, tentei segurar suas mãos, mas não alcancei, gritei: MINHA MÃE!!! Para cair na imensidão do espaço vazio, escuro e sem fim, levando comigo a lembrança de um grito desesperado, que ecoava aos meus ouvidos: MINHA MENINA!!!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

ILUSÃO,NECESSIDADE DA RAZÃO





ALÉM DOS OLHOS

Eu não pretendo que ninguém me entenda

Não procuro explicações para saber o que sinto

Apenas sinto e sou

Não procure entender o que lê

Desconfie de mim

Quando enxergar o papel sem tremor nas linhas

As curvas e pontos bem colocados.

Palavras com sentido total.

Não sou eu.

Eu sou:

Um sentir diferente

Um pensamento inconstante.

Assim,Você me encontrará,

Embora nesta hora

Já esteja bem longe

Em outra mente

(Yasmine Lemos)


Ontem eu publiquei aqui no Recanto um texto, cujo tema foi sugerido pela escritora Marília Paixão; a Yasmine leu, gostou e sugeriu um outro tema, que eu aceitei e é título deste texto. Só que a Yasmine, anda alisando banco de faculdade, às voltas com o mundo da filosofia, psicologia, o escambal, pisou fundo e eu não sei como vou me sair, por isso, comecei tentando agradar, publicando um poema seu, que eu gosto muito e que faz parte do seu livro “Vestida em Versos”, publicado pela Offset Gráfica-RN de propriedade do mecenas Ivan Junior, conhecido na praça como tal e de quem tenho o privilégio de ser amiga.


Vamos ver como me saio, mas antes perguntaria a Yasmine se ela andou lendo Parmênides, que nunca confiava nos sentidos, pois acreditava que eles nos oferecem uma visão enganosa do mundo e que o seu papel na condição de filósofo (racionalista) era desvendar todas as formas de “ilusão dos sentidos”.


Para Descartes, “a razão é igual em todos os homens. A razão é o bom senso, e todos devem desejar possuí-la, pois representa o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso”.Quanto a ILUSÃO, na acepção exata da palavra, não passa de engano dos sentidos ou da mente, que faz que se tome uma coisa por outra, que se interprete erroneamente um fato ou uma sensação.


É Sonho, devaneio, quimera.Agora, vamos para os finalmentes: levando-se em consideração que, pela ótica de Descartes, a RAZÃO é o bom senso, o discernimento entre o verdadeiro e o falso e a ILUSÃO no seu exato significado, é sonho devaneio, quimera etc., só comprova que a ILUSÃO não se faz necessária à RAZÃO, pois esta dispensa o falso.


E só para atrapalhar, vem Nietzsche e afirma: “que na prática a ‘filosofia’ na medida em que genuinamente olhe para dentro do ‘abismo’ da realidade, necessita das ILUSÕES embelezadoras da arte a fim de perecer na verdade”Dito isto, devolvo a bola pra ti, minha querida amiga e que tu tires as tuas conclusões.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ERA FALSA A NOTA DE DEZ




Não, nem sempre a maré foi mansa para mim. Fugi de casa aos dezesseis anos, na base do sem lenço nem documento e de carona em carona fui bater com os costados na cidade de São Paulo. A última carona me despachou na Praça da Sé.


Na mochila, só roupa suja, no bolso da calça jeans uma nota de 10, o que restou de uns trocados que me foi dado por um malandro solidário num restaurante de beira de estrada, acho que ele sentiu pena de mim, da minha cara de fome.


Mas, como eu estava dizendo, fui jogada na Praça da Sé e estava lá, sentada num banco. O meu aspecto não era muito agradável, estava suja, corpo e vestimenta. O interessante é que não sentia medo, não pensava no que poderia me acontecer numa cidade grande, me sentia tão despreocupada, que parecia que eu tinha casa, papai e mamãe por perto; foi quando bateu fome, avistei um boteco, se é que podia chamar assim, onde um homezinho baixo de olhos puxados vendia caldo de cana e pastel.


Pedi um copo de caldo e um pastel; foi-me dado. Comi o pastel, tomei e caldo , perguntei quanto era e puxei do bolso a nota de 10 pra pagar; o baixinho lá, pegou a nota, parece que achou esquisita, pois colocou na altura dos olhos e ficou observando por algum tempo, depois olhou pra mim meio desconfiado e embrenhou-se boteco adentro , para logo em seguida voltar com outro homezinho, conversavam numa língua esquisita, foi quando o que me vendeu o caldo e o pastel perguntou: hei mocinha você tem mais desta nota ai na mochila? – Respondi: não, só tenho essa


– Ele insistiu: tem certeza? Onde você arranjou? Quem foi que te deu? – Respondi: foi um homem na beira da estrada.


Ele continuou insistinfo: hei mocinha conta esta história direito, cadê o cara que te deu esta nota, é teu parceiro, ta lá na praça, mandou você passar esta nota falsa pra ver se colava, foi? Espera só que você vai contar esta história na policia.


Ai ele segurou o meu braço enquanto o outro homezinho dava um telefonema, para logo em seguida chegar uma viatura da polícia e o soldado ordenar a minha prisão por me flagrar num crime de estelionato; foi o que o soldado disse.


Tudo isto acontecendo e eu nem me perturbava, parecia que eu não fazia parte do ocorrido, tava nem ai e me puseram dentro do camburão e lá fui eu com a minha cara de paisagem.


Até ai ninguém perguntou a minha idade, devia ser a minha cara suja e o meu cabelo desgrenhado que me fazia parecer mais velha. Delegacia à vista e me vi frente a frente ao doutor delegado. Este sim, perguntou a minha idade, quando eu disse 16, ele pediu meus documentos, que eu não tinha. Da delegacia fui direto para o Juizado de Menores e de lá para um orfanato.


Assim, passaram-se dois anos, lavando banheiros, varrendo, estirando lençóis de cama, botando mesa e tomando conta das “infratoras” menorzinhas e levando cantada da inspetora. Fiz ontem 18 anos, me deram uma carta de “alforria” e outra de apresentação, irei trabalhar numa casa de família, na condição de arrumadeira, mas antes de me apresentar à patroa, passei pela Praça de Sé e me sentei no mesmo banco de dois anos atrás e avistei o mesmo chinesinho vendendo pastel e caldo de cana.


A diferença agora, é que eu sabia por que ele tinha os olhinhos puxados, estava toda documentada, roupa limpa e penteada. E fiquei pensando..., puxa por conta de uma nota falsa de 10, passei dois anos sofrendo que nem couro de pisar fumo.


Levantei e sai andando para o ponto de ônibus, meu rumo era o bairro da Liberdade; numa mão segurava a mala e na outra a carta de apresentação. E sabe Deus o que me aguardava...


PS: O tema “Nota falsa de 10 reais” me foi sugerido pela escritora Marília L. Paixão, como uma espécie de desafio à minha capacidade de ficção.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A DANÇA DAS BAILARINAS REBELDES




“Ela dança / Baila / A grande criança /A bailarina / Alonga os gestos/Alonga o corpo / Muda a Forma/Gera mudança/ E nestas andanças/De tantas danças /Quantas mudanças/

(Welshe Elda)


Toda forma de arte me alumbra. Assisti uma demonstração de dança no Studio Isadora Duncan, que me encantou.


As “rebeldes” bailarinas, seguindo os passos daquela que dá nome ao Studio, deixaram de lado as sapatilhas e, descalças, com seus vestidos esvoaçantes, que evocavam figurações da arte grega, também repudiaram as restrições técnicas artificiais de origem clássica e puseram-se, inspiradas nos ritmos da natureza, a dar vazão ao que se condicionou chamar dança moderna.


O espetáculo da dança me trouxe à lembrança a figura trágica da bailarina Isadora Duncan (1877/1927) que, rejeitando toda a tradição provocou no inicio século passado, nos Estados Unidos, uma revolução na dança com seus conceitos naturalistas, cuja fama fixou-se após sua primeira exibição em Paris (1902).


Isadora Duncan, que sobreviveu às mortes por afogamento de seus dois filhos (1913) e ao suicídio de seu marido, o poeta russo Sergei Esenin (1925), morreu em 1927, enforcada pela própria echarpe, que se enrolou nas rodas do automóvel que dirigia.


Fico imaginando aqui... Mas que vida tão cheia de infortúnio a da Isadora!


E tem gente que por menos do que isso desaba, inclusive eu. Sei não viu...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

DO DESENCANTO



DO DESENCANTO

VENDE-SE

A ANGÚSTIA

Manufaturada em série

Se expõe

Na vitrine do DESENCANTO

A ANGÚSTIA

A preço de ocasião

Compra duas leva três

Na seção do DESENCANTO

A ANGÚSTIA

Em liquidaçãoPrêt-à-porter

Do DESENCANTO

(Camilo Rosa)


Tantos e tantos sentimentos... Mas entendo que o do desencanto não é fácil de suportar, vem acompanhado de uma apatia que toma conta do ser e que duas vertentes da filosofia classificam como cepticismo e estoicismo tornando esse ser insensível a qualquer dor, a qualquer sofrimento.


E isso não é bom, o olhar fica vago, apodera-se da alma uma sensação de vazio que nada preenche, é como se o corpo não respondesse a nenhum outro sentimento, nada oferece prazer e nem se luta para que isto aconteça, só dá vontade de ficar observando as pessoas, procurando em cada rosto os seus mistérios, é como se quisesse encontrar a desilusão do outro para justificar a sua e embora haja o reconhecimento de que neste mundo cabe muita gente, mesmo assim é invadido pela sensação que está sobrando nele.


Pois é..., eu que não conheço Schawarzenegger e não vou pra Califórnia deixo dito: “Hasta la vista baby”; vou ficando por aqui mesmo, nesta “preia-mar” de desencanto, tentando sair do labirinto que é o “domus de Trimalquião” e de escapar da “nau de Licas, que se tornou a caverna de Ciclope”, já que não sou nenhum anti-herói criado por Petronio no seu Satiricon .

"COM AÇUCAR E COM AFETO"



Estava aqui prestando atenção a letra da música do Chico, “Com açúcar e com afeto”, onde a “Amélia” da canção morre de amores por seu homem, que é boêmio todo, vive nos bares bebendo, discutindo futebol e olhando pras pernas das moças que por ele passa e sempre chega em casa bêbado e cansado. Mas quem disse que isso irrita “Amélia”? Que nada!


Quando o amado está ausente, ela beija o seu retrato e quando ele chega em casa ela ergue os braços para ele.Naturalmente, o fato acima, acontece no plano comum, mas, como o amor é visto sobre a visão filosófica?


Vamos conhecer um pouco o pensamento dos gregos: Sócrates, como se sabe é que nem Jesus Cristo, não deixou nada escrito, os apóstolos é quem puseram palavras em sua boca, o mesmo fizeram Platão e Xenofonte com Sócrates, que o exaltam e Aristófanes que o combate e satiriza.


No livro intitulado “ O Banquete”, escrito por Platão, ele narra uma reunião de filósofos gregos, contando com a presença de Sócrates ; eles discutiam o amor. Sócrates então se manifestou através de um discurso, que diz: “sendo o Amor, amor de algo esse algo é por ele certamente desejado.


Mas este objeto do amor só pode ser desejado quando lhe falta e não quando possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais”. Complicado de entender? Coisas de Sócrates. E para complicar ainda mais, Platão acrescenta: “ o que se ama é somente “aquilo” que não se tem. E se alguém ama a si mesmo, ama o que não é.”A palavra final vou deixar com Kitalomy, que diz:


“ O “objeto” do amor sempre está ausente, mas sempre é solicitado. A verdade é algo que está sempre mais além, sempre que pensamos tê-la atingido, ela se nos escapa entre os dedos. Essa inquietação na origem de uma procura, visando uma paixão ou um saber, faz do amor um filósofo. Sendo o Amor, amor daquilo que falta, forçosamente não é belo nem o bom, visto que necessariamente o Amor é amor do belo e do bom.


Não temos como desejar aquilo que temos.”

JÁ PASSA DA MEIA NOITE E EU CONTINUO CINDERELA



Quando eu era mocinha, tinha um diário e tudo indica que essa mania continua entre as jovens. Minha neta de dez anos tem um, e, pelo visto, é possuidora de muitos “segredos”, pois o mesmo é trancado com um pequeno cadeado.Este preâmbulo foi feito para dizer que, se eu ainda tivesse um diário eu teria começado as anotações deste domingo que acaba de findar, desta maneira:


7:30: Querido diário, acordei agora, tô levantando, levantando o corpo literalmente, enquanto a cabeça pensante teima em permanecer sob os lençóis invadida que anda pela cruel dúvida shakespereana de “ser ou não ser, eis a questão”.


8:13: Postei uma crônica lá no Recanto, que fala do sentimento do desencanto, houve quem dissesse que as minhas personagens são tragicômicas, estão ultrapassadas no tempo e que os meus deuses do amor passeiam em terras distantes, sufocados na sua própria inexistência. Enfim, que já não se ama como antigamente. Não discuto, talvez seja eu a última romântica. Deve ser isso mesmo, afinal, tudo o que foi e é criado vai abismar-se no nada. Está passado. Ultrapassado


8:30: Recebi flores vermelhas...


8:40: um telefonema, convite para almoço... Convite aceito. Hora marcada, 13:00 horas...


00:05: Querido diário, neste espaço de tempo entre 8:30 e 00:05, o que posso acrescentar é que o almoço aconteceu entre pessoas de idades diferentes, mas de pensamentos e idéias convergentes e de maneiras que vão ao encontro do meu jeito de ser. Bebemos um bom vinho, conversamos, trocamos confidências, falamos de sentimentos olho no olho e o que mais me alegrou foi sentir que a jovialidade de quem me acompanhava não era empecilho para alcançar a visão que eu tenho sobre tantas coisas nas quais eu acredito, inclusive sobre o amor, amor “à moda antiga”, amor que manda flores e é capaz de gestos delicados, como o de segurar tua mão por debaixo da mesa e te olhar com um sorriso encabulado, procurando compreensão pelo ato.Assim, querido diário, encerro estas anotações e embora já passe da meia noite, continuo me sentindo Cinderela sem ter medo de voltar à gata borralheira, sonhando sim, com quem me fez feliz por momentos, mas não na espera que me venha experimentar o “sapatinho”, basta só eu saber que existe e que basta só abrir a porta para encontrá-lo.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

SAUDADE,TIRO QUE DESPEDAÇA POR DENTRO




Aconteceu. Pronto, aconteceu. E o que eu senti foi o despedaçar por dentro, conseqüência de um tiro de misericórdia advindo de um sentimento chamado SAUDADE.


E eu já nem sei ao certo se de fato existia mais alguma coisa dentro de mim para que esse sentimento destruísse, se até o meu pensamento ele tolhe, não me permitindo nada fazer, há não ser pensar em você, desde o amanhecer até a hora de dormir. Mas o que adiantaria ter o meu pensamento livre sem você?


Com ele livre o que eu buscaria, felicidade? Como? Se “ela está sempre apenas onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos?” (Vicente de Carvalho) Responda-me: por que na condição de seres conscientes, livres que somos e responsáveis, não partimos para o dialógo, não sabe você – e ai me desculpe, mas vou parodiar o filosófo frances Merleau–Ponty e dizer – que na experiência do diálogo se constituiria entre mim e você um terreno comum, meu pensamento e o seu formariam um só tecido, minhas falas e as suas seriam invocadas pela interlocução, inserindo-se numa operação comum da qual nenhum de nós é o criador.


Eu e você seriamos colaboradores, numa reciprocidade perfeita, coexistiríamos no mesmo mundo e se arrancares de mim pensamentos que eu não sabia possuir, de tal modo que os empresto e em troca você me faz pensar. Por favor não me deixe falando sozinha, preciso desse diálogo, preciso fazer dele um episódio de minha vida privada solitária , não me faça senti-lo como uma ameaça pois sem você desaparece a reciprocidade que nos relacionava tanto na concordância como na discordância .


Não sabe você que a vida é intersubjetividade corporal e psíquica, é reciprocidade entre pessoas e que a amizade é a virtude proeminente, a expressão do mais alto ideal?Agora, indago: depois de tudo o que eu lhe disse, volta pra mim por inteiro?


PS: meus agradecimentos à Marilena Chauí (Convite à Filosofia), que me ajudou na elaboração deste texto.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

SOLIDÃO E A ILUSÃO DA LIBERDADE



O que é solidão? É simplesmente o “estar só”?

Segundo o controverso filósofo indiano Osho, solidão é como a escuridão e você não pode lutar com a escuridão, com a solidão nem tampouco com o medo do isolamento diretamente, pois nenhuma dessas coisas existem, elas são simplesmente ausência de alguma coisa.


Exemplificando: o que fazemos quando nos encontramos diante da escuridão? Com a escuridão não fazemos nada diretamente, pois ela é somente ausência de luz, ela não existe, acedemos a luz e ela, a escuridão, que não existe, desaparece.


A solidão, como já foi dito, é feito a escuridão, é ausência também, é medo; quando nos sentimos sozinhos vem o desejo de se apegar a alguma coisa, a alguém, algum relacionamento, só para manter a ilusão de que não estamos sós, contudo, afirma Osho, nós sabemos que estamos – por isso a dor – Por um lado você está se apegando a algo que não é real, que é somente um arranjo temporário - um relacionamento, uma amizade, "que subitamente se torna consciente que este relacionamento ou esta amizade não é permanente.


Hoje amigos e quem sabe o dia de amanhã? Amanhã que podemos ser desconhecidos novamente - daí a dor."O que é certo é que não se pode evitar a solidão , ela faz parte dos fundamentos da vida.


Afirma ainda Osho, o que é necessário não é algo que você possa evitar a sua solidão. O que é necessário é que você se torne consciente da sua solitude, o que é a realidade.


E é tão belo experiência-la. Senti-la. Porque é a sua liberdade da multidão, do outro.


É a sua liberdade do seu medo de estar sozinho

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"ARRUMAR A CASA"



“ARRUMAR A CASA”

Este é um título do poema da Yasmine Lemos, que diz o seguinte:


“ Quando nada existe; /Outras coisas persistem; /Um cenário desorganizado. / Livro demarcado, / Página virada, / Silêncio forçado, / Peito abafado. / Música que não toca, / Consola. /Relógio cansado das horas. /Corpo deitado. /Olhos fechados, / Luz apagada./ Uma certa dissonância./ Indiferença agora é um fato. / Paciência”.


Para arrumar a “casa” eu terei que dizer ADEUS, e eu não sei lhe dar com isso , é difícil para mim.

ADEUS presume-se “até nunca mais” e “nunca mais” é tão difinitivo... Mas eu preciso, de fato, dizer ADEUS.


Preciso limpar a "casa", retirar os entulhos, a poeira que me sufoca, que faz meus olhos lacrimejar, impedindo de enxergar a realidade, uma realidade que eu não alcanço, que não me situo.


Mas eu volto, apesar do ADEUS. Pode crer.

SÓ FALTAVA O CARRO VELHO




Pronto Chica, sei o quanto é difícil pra ti guria deixar de me ler, e para deixares de pegar no meu pé (hahahahaha) estou voltando. Casa quase arrumada, eu digo quase arrumada, porque ando às voltas, ainda, com um carro velho que me pertence; ta certo que ele não é muito velho, mas comporta-se como tal, falta de manutenção o mais provável.


Só sei que nunca funciona quando mais preciso dele, também, um dia esqueço de colocar gasolina; outro dia a bateria está arriada, o mecânico da esquina já falou que o amortecedor precisa trocar, a caixa de direção tá com folga, a caixa de marcha nega a segunda e pula pra terceira; o freio tá desregulado e que logo, logo ele vai bater o motor (nunca lembro de completar o óleo ou fazer a troca).


Sem contar que a sinaleira só acende o lado esquerdo e que dia de chuva é impossível dirigir, o limpador de pára-brisa não funciona e você não enxerga um palmo à frente do nariz, tem que deixar a janela aberta para espiar o movimento, ai a chuva te molha toda e para completar ontem arrobaram a porta dele e levaram o DVD com o CD de Lionel Richie, onde ele canta Helo.


Ai desesperei e o Lionel não saia da minha cabeça cantando Hello! E suas palavras soavam aos meus ouvidos... Is it me you’re loking for? / I can see it in your... Então, sabe o que fiz? Sai chutando todos os seus pneus, quando descobri que o do lado direito da frente estava baixo. Antes que o meu coração explodisse, soltei um palavrão, peguei um papel e escrevi: GOSTOU DELE? ENTÃO LEVE PRA VOCÊ, A CHAVE TÁ NA IGNIÇÃO, TENTE LIGAR E SE PEGAR É TODO SEU.


E preguei no para-brisa de trás. Feito isto, sai à procura de um taxi, deixando o meu último problema no estacionamento do supermercado.


PS: HELLO! AH, não é nada disso! Mas é que não consigo esquecer o Hello! do Lionel) Eu só queria Confessar com este PS, que o tema “Carro Velho” me foi sugerido, aceitei e tai no que deu.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

VAMOS FALAR SOBRE ECOLOGIA?



Depois que alguém me contou que viu um cego escrevendo uma carta, ditada por um mudo e tendo um surdo escutando atrás da porta, eu não me admiro de mais nada . E sabe de uma coisa? Eu vou é dar viva para Barack Obama,(por quê???) pois na terra que não tem líder se faz festa para o líder dos outros.Líder à parte.


Tratemos hoje de um assunto que está em voga: ECOLOGIA – não que eu seja versada em tal, isto porque, consultando a minha vida pregressa cheguei a conclusão que não tenho autoridade nenhuma sobre isso , logo eu que quando criança vibrava com as queimadas que o meu pai promovia para replantar a cana; jogava pedras nas lagartixas; roubava ovos nos ninhos das rolinhas; fazia careta pra sagüim; poluía o rio do engenho Manimbu com o meu xixi; espalhava farinha de mandioca nas suas águas para pegar piabas e ainda por cima cometia o crime inafiançável de me entreter roendo umas perninhas de arribação.


Deixemos-me de lado e vamos falar sério. Nós sabemos – sem demonstrar muito repúdio à quebra de nossa soberania - que vez por outra líderes ecologistas do Primeiro Mundo se reúnem para “decidirem” sobre o destino da Amazônia.


Sim, da nossa Amazônia, que já sofreu outras investidas, conforme li, faz tempo, num artigo do poeta e escritor Gerardo Mello Mourão, investidas essas, deveras interessantes, senão vejamos: quando Hitler reivindicava espaço territorial reclamado pelo povo alemão, os senhores Chamberlian e Daladier, chefes de governo da Inglaterra e da França ofereceram de cara ao fuehrer a Amazônia brasileira.


Proposta não aceita porque segundo Hitler, os Estados Unidos possivelmente não concordariam com uma ocupação alemã em território brasileiro. Quando lhe foi assegurado, que a proposta tinha o aval de Washington. A Hitler só interessava a continuidade territorial do continente europeu. Por isso escapamos.


De outra feita, enrolados na bandeira ecológica , la vêem de novo os países ricos numa investida contra a Amazônia, responsabilizando-a de ser o pulmão do mundo e defensora do planeta contra os buracos na camada de ozônio, por conseguinte, sapecaram um manifesto lá em Estocolmo proclamando a intangibilidade da floresta amazônica.


Gilberto Mestrinho, quando governador do Amazonas era um defensor ferrenho da “parte que lhe cabia nesse latifúndio” e que, na condição de cobra criada não engolia sapo e nem deixava que os jacarés triturassem a sua gente, que era a sua preocupação maior , mandou espalhar por lá outdoors onde se via estampadas figuras de homens, mulheres e crianças, num apelo para que esses animais em processo de extinção também fossem preservados.Mas, o que existe de verdade por trás dessa febre ecológica que assola o Primeiro Mundo, pondo na floresta amazônica a responsabilidade do oxigênio da humanidade?


Dizem os entendidos, que retiramos das águas oceânicas mais de 95% do oxigênio que respiramos e, se toda floresta amazônica for derrubada, os prejuízos ecológicos representarão menos de 0,2% dos danos causados pelas emissões de dióxido de carbono da indústria dos Estados Unidos.


Olha, não sou quem afirma, mas tem gente ai dizendo que essa paranóia ecológica com relação a Amazônia não passa de uma impostura e uma conspiração dos países ricos, que querem impedir o desenvolvimento do Brasil, é tão somente para que não haja exploração da prodigiosa riqueza mineral e vegetal da Amazônia e paralisar a expansão econômica.


Em síntese: não nos querem ricos nem poderosos, preferem que continuemos disputando os ossos do banquete deles primeiro-mundistas. SERÁ...?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

QUANDO AS APARÊNCIAS ENGANAM




“Vóis sois deuses”.(Jesus Cristo)


Quem de nós já não foi traído pelas aparências? Acho que todos nós... Andei pela “terra de ninguém” em busca de subsídio para escrever esta crônica. Encontrei aos montes, alguns exemplos:PRIMEIRA APARÊNCIA ENGANOSA.


Foi o caso de Susan Boyle, que semana passada emocionou o mundo quando apresentou-se no show do Britains’s Got Talent , na Inglaterra. A candidata de 47 anos, dona de casa, desempregada e longe dos padrões de beleza exigidos hoje em dia foi recebida no palco pelos jurados e pelo auditório com risos, haja vista possuir as características perfeitas daqueles tipos que as pessoas gostam de rir e sacanear.

Acontece que a Susan é dona de uma voz mágica e quando começou a cantar “I Dreamed a Dream” (Les Miserables), deixou todo mundo pasmo, dos jurados ao auditório e no final foi aplaudida de pé.SEGUNDA APARÊNCIA ENGANOSA.


Aconteceu num orfanato, uma criança sem encantos, de maneiras desagradáveis, evitadas pelas outras, inclusive pelos professores e que vivia lá sem carinho, sem afeto, sem esperança, sua única companheira era a solidão. O Diretor do orfanato aguardava ansioso por uma desculpa para livrar-se dela. Um dia aconteceu uma. A companheira de quarto da menina informou que ela estava mantendo correspondência com alguém de fora do orfanato, o que era proibido e disse que ela acabara de esconder um papel numa árvore. E lá se foi o Diretor e o seu assistente tirar essa historia a limpo.


De fato encontraram a tal mensagem e nela , para desapontamento e remorso do Diretor estava escrito num pedaço de papel amassado o seguinte: “ A qualquer pessoa que encontrar este papel; eu gosto de você”. A conclusão que chegou o senhor Diretor é que a menina era menos má do que ele próprio.Pois é, costumamos julgar as pessoas pelas aparências, embora saibamos que estas são enganadoras. “O que é pior, se essas aparências não nos agradam, marcamos a pessoa e nos prevenimos contra toda e qualquer atitude, mesmo que essas sejam julgadas tão somente pelas aparências.


Tem uma oração antiga dos índios Sioux, que pede a Deus auxílio para nunca julgar o próximo antes de ter andado sete dias com as suas sandálias. Isto é explicado como querendo dizer que, antes de criticar, julgar e condenar uma pessoa, devemos nos colocar no seu lugar e entender os seus sentimentos mais profundos.


Aqueles que talvez ela queira esconder de si mesma, para proteger-se dos sofrimentos que a sua lembrança lhe causaria.


O final fica com Elias Regina que deixou pra nós “As Aparências Enganam” da autoria de Sérgio Natureza/Tunai : “As aparências enganam/ Aos que odeiam e amam / porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões / os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague .....

segunda-feira, 20 de abril de 2009

É BOM PENSAR NISSO



E lá vamos nós encontrar a síntese na qual os opostos e as contradições se encontram e se unem. Isto é Filosofia. Isto é o pensamento de Bruno, o jovem italiano (1548-1600), que era rico em idéias e primeiro que tudo a idéia mestra de unidade: toda realidade é única em substância, única em causa, única em origem.


E por conta de suas dúvidas e pesquisas foi condenado pela Inquisição a ser morto “tão piedosamente quanto possível e sem derramamento de sangue” – isto é, a ser queimado vivo. Este jovem filósofo foi um dos que influenciou Baruch de Espinosa, o maior judeu e maior filósofo dos tempos modernos , que também sofreu influência de Descartes, pai da tradição subjetiva e idealista e que acreditava que a mente se conhece a si própria, mas próxima e diretamente do que pode conhecer qualquer outra coisa; de que ela conhece o “mundo exterior” apenas através da impressão dos sentidos e da percepção e por conseguinte toda filosofia tem de começar pela mente e pelo individuo e expressar seu primeiro argumento em três palavras: “ Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum) .


De Espinosa gostaria de falar a respeito do aperfeiçoamento do intelecto e o farei com as suas próprias palavras: “ após ter a experiência me ensinado que todas as coisas que acontecem frequentemente na vida comum são vãs e fúteis e quando vi que todas as coisas de que eu tinha receio, e que os outros receavam de mim nada tinham de bom ou de mau em si mesmas, a não ser no que afetavam a mente, decidi procurar saber se existia algo que fosse realmente bom e capaz de transmitir essa bondade que afetasse a mente a ponto de serem excluídas delas todas as outras coisas.


Decidi investigar se poderia descobrir e alcançar a faculdade de desfrutar através da eternidade, de uma felicidade suprema continua... Via as muitas vantagens que advém das honrarias e riquezas e entendi que ficaria impedido de adquiri-las se desejasse seriamente dedicar-me à investigação desse novo problema... Mas quanto mais se possui uma das duas coisas, maior é o prazer e consequentemente mais se é estimulado a aumentá-las.


Da mesma forma, se em qualquer ocasião nossa esperança é frustrada, apossa-se de nós grande sofrimento. A fama tem também o grande inconveniente de que, se a procuramos, temos que dirigir nossas vidas de modo a agradar aos homens, evitando aquilo que lhes desagrada e buscando o que lhes é agradável... Mas o amor por um bem eterno e infinito, por si só alimenta a mente com um prazer a salvo de qualquer dor... O maior bem é o conhecimento da união que a mente tem com a natureza total.


Quanto maior é o conhecimento da mente, melhor ela compreende sua força e ordem da natureza. Quanto melhor ela compreender sua força e poder, mais capaz será de se dirigir e de estabelecer leis para si mesma; e quanto melhor compreender a ordem da natureza, mais facilmente poderá libertar-se das coisas inúteis; é esse o método”.


É bom pensar nisso...


Fonte: A Filosofia de Espinosa (Os Grandes Filósofos)

domingo, 19 de abril de 2009

DA ARTE DE VENCER





Sério, vou dá um pulinho ali em Atenas, vai haver uma importante reunião da Eclésia, marcada por Péricles e talvez encontre por lá Ariosto, Crisipo e até Alexandre , o Grande; preciso falar com essa gente a respeito do ato de VENCER.


Li em Montaigne alguns conceitos dos senhores citados neste sentido e que me deixaram curiosa e deveras interessada em confabular com tão insignes figuras a respeito de tal.


De Ariosto li que “É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória ao acaso ou ao engenho”.


Contudo, isso não é coisa que se diga, tenho certeza que muito de nós não concorda com o Ariosto, Crisipo também não concordou com esta afirmação e retrucou: “Quem toma parte em uma corrida deve em verdade empregar todas as forças para ganhar, mas não lhe é permitido agarrar o competidor ou passar-lhe uma rasteira".


Já Alexandre , o Grande, foi magnânimo quando respondeu a Poliperconte – que o instava a valer-se da escuridão da noite para atacar Dario: “Não me parece digno roubar vitórias – Prefiro queixar-me da sorte a envergonhar-me da vitória”.


A propósito, a respeito da reunião da Eclésia, recebi um e-mail de Péricles falando da impossibilidade do meu comparecimento a tal reunião: é vedado o comparecimento de mulheres, embora ele mesmo reconheça que é invocada a proteção de uma, Atenas, a deusa da sabedoria e protetora da cidade e em nome dela será lançado o anátema contra qualquer homem que queira enganar o povo.


A guisa de esclarecimento vos digo, que essa reunião tratará do projeto de lei da bule ou da beliê, que é uma espécie de conselho de Estado encarregado de preparar as leis e fiscalizar a sua execução.


Agora, quem estava preocupado com o sucesso da reunião era Aristóteles, acreditava ele que não seria concorrida, o que inviabilizaria a forma democrática de proceder, culpa dos atenienses despreocupados como eram, não estavam dando muita importância ao evento, preferindo gastar o tempo nas praças e bares da cidade a dar e ouvir notícias e nada mais.


Isto posto, viagem desmarcada, esquecer Atenas e seguir o rumo de Tabatinga, lá eu sou amiga do rei, “aqui não sou feliz / Lá a existência é uma aventura” (...)


( Vou embora pra Pasárgada –Manuel Bandeira)

ÀS FAVAS TODO O MEU PALAVRATÓRIO E OS BONS MODOS



Às favas todo o meu palavrório, pois nele nem eu acredito mais, eu só queria uma noite de paz, sem tristezas, sem lembranças, sem saudades, sem ilusões, sem lamúrias; queria mesmo era correr atrás de Arnaldo Antunes e Zizi Possi e fazer coro com eles quando cantam:


"...que não tenho paciência para televisão; que cansei de ser audiência para a solidão, que agora sou de todo mundo e todo mundo é meu também e que estou te querendo como te quero / to te querendo do jeito que te quero / to te querendo do jeito que você é/ to te querendo/ to te querendo" .


Queria que baixasse em mim o espírito de Manuel Maria Du Bocage a quem se atribui um anedotário cabeludo e eu aqui chegasse e mandasse ver uma “impudicícia” qualquer.


Queria dizer um montão de besteira inconseqüente, sem nexo.


Queria pintar o meu cabelo de verde pra chamar atenção. Queria falar alto, gesticular, dizer alguns palavrões, xingar a mãe de alguém, bater a porta, cuspir no chão, limpar a boca com a manga da blusa, palitar os dentes. Queria beber cerveja e arrotar; Queria dizer que cansei.


Cansei de bons modos, cansei de mim. Cansei de correr atrás. Cansei de dizer olhe pra mim, me atropele Queria rezar um Pai Nosso, uma Salve Rainha, o Credo depois me benzer e dizer Amém.


Para dormir e nem sei se quero acordar.

A CHUVA QUE SABIA DEMAIS - LÁ FORA ,NEGRA ERA A NOITE



A noite estava se indo, encerrei a leitura de “O Pálido Olho Azul” um thriller de Louis Bayard e fiquei quieta na minha cama, ouvindo o barulho dos trovões, ao mesmo tempo em que observava através da janel envidraçada do meu quarto, os rasgos de luz que cortavam o céu em ziguezague; levantei e me dirigi até a janela com o intuito de cerrar as pesadas cortinas, mas não o fiz de pronto, encostei o meu rosto na vidraça embaçada e assim permaneci.


Lá fora, negra era a noite; lembrei que, pelo calendário, a lua cheia deveria brilhar no céu. Abatida irritante dos pingos d’água na vidraça me fez afastar o rosto,mas continuei presa à janela. Sim, já tinha vivido situações iguais a esta, tendo a chuva como parte do cenário e testemunha desses momentos.


Talvez, na condição de partícipe, eu pudesse até dizer, queela, a chuva, sabia demais...


Sabia que neste momento ao meu lado estava faltando alguém... E se a chuva fazia negra a noite e representava o choro da Natureza, as lágrimas dos meus olhos, que embaçados tal qual a vidraça da janela, representavam o choro sofrido pela ausência sentida do ser amado.


Sentia falta de sua presença, de seus braços cingindo a minha cintura, seu queixo forte pressionando o meu ombro, observando a chuva e o seu hálito quente explicando-me didaticamente o que ocorria para que houvesse a sonoridade dos trovões e a descarga elétrica chamada relâmpago, e eu rindo do seu didatismo, ao mesmo tempo em que me encolhia nos seus braços por conta das cócegas que sentia dos seus beijos na minha orelha...


Do seu jeito gracioso e meio moleque de sugerir fazer amor, apontando-me a cama, esta mesma cama para a qual estou voltando; agora vazia dele e onde me jogo sem a mínima vontade de trocar-me nem tampouco de dormir...


Lá fora a chuva continua e dentro de mim a velha angústia. E cá estamos:eu, a minha solidão e o poeta maior, para quem digo: Ah, meu poeta...Se ao menos eu endoidecesse de vez e não “deveras”...


Cerro os olhos,antes fechando mais um livro... Agora de Fernando Pessoa.


Boa noite, meu amor.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

"ISTO AQUI NÃO É VIDA É UMA TEMPORADA ROUBADA"



Estou batucando o teclado faz tempo, tentando escrever alguma coisa alegre, mas acredito, nem que o ano fosse o de 1594, eu vivesse na Inglaterra, época de Shakespeare, e a Rainha Elizabeth exercesse de sua autoridade absoluta e ordenasse que eu escrevesse uma comédia para o Dia de Reis, eu não conseguiria, no máximo sairia uma tragicomédia, misturaria o real com o imaginário e com um pouco de graça, tentaria enrolar a Rainha, mesmo expondo o meu pescoço à forca.


Afinal, por que temeria eu a morte, se penso como Lady Viola o amor impossível de Shakespeare, que diante de suas vicissitudes amorosas, afirmou:“isto aqui não é vida é uma temporada roubada”.


Tem razão Lady Viola, esta coisa de amor impossível, incompreendido, não correspondido funciona como um pouco da morte, um grito preso na garganta, que sufoca e torna seca a de quem padecesse e para quem nunca são ditas as palavras que podem umedecê-la.


Um dia, e eu já nem lembro quando, devo ter passado por isso; encontrei entre os meus escritos um folha de papel amarelada, um poema que escrevi. Confesso, que quando reli, senti peninha de mim , embora já nem lembre mais de quem fui “vítima”. (coisas de tempos idos , vividos e esquecidos).


Por mais que procure entender

A tua razão de ser

Ruindo vão as tentativas

E insólita a vida se torna

Levada por uma sensação de vazio

Imposta por tua presença ausente

A mim só cabe indagar:

Importa saber disso amor?

NA AUSÊNCIA DO QUE SOU/ESTOU




Na ausência do que estou

Não procure me encontrar

Deixe que eu me perca

Se nem eu quero me achar?

O QUE ME AFLIGE HOJE SE TRANSFORME NO ONTEM




Se você me perguntasse por que eu escrevo, recorreria à Clarisse Lispector para lhe responder: "Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada...Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.

A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."


Concordo com a Clarisse e parto para o intimismo. Sempre que me vejo supostamente envolvida em conflitos, me entrego às lucubrações de caráter existencial, e por ser uma crítica severa de mim própria, sempre descambo para uma auto-análise buscando no meu comportamento a coerência que deve prevalecer entre o pensar, sentir e agir. E por que o faço?


Talvez por medo. Medo de uma tal co-dependência, que a ciência explica como uma necessidade imperiosa em controlar coisas, pessoas, circunstâncias/comportamentos na expectativa de controlar suas próprias emoções.


Esse medo faz com que eu viva em constante vigilância, não quero me tornar uma co-dependente, nem tampouco refém das ações que formam sua síndrome e que consistem em baixa-estima, dificuldade de colocação de limites; dificuldade em reconhecer e assumir a própria realidade; dificuldade de expressar suas emoções de forma moderada, mesmo que se sinta ligada a outrem por amor, dever e obrigação.


E assim, na esperança de que, o que me aflige hoje, se transforme no ontem, fico por aqui na expectativa de continuar mantendo a minha independência e ser sempre eu mesma.

terça-feira, 14 de abril de 2009

"A DECADÊNCIA DO RISO"





Este título não foi criado por mim, tomei por empréstimo a Eça de Queiroz, que escreveu no ano de 1891, na Gazeta de Notícias, um texto como Pensamento/Reflexão, onde ele declara: “o riso acabou porque a humanidade entristeceu.


No campo pessoal eu não diria: “a humanidade entristeceu”, mas sim: eu é que estou triste. Por que penso e complico a minha existência e me deixo levar pelo EGO? (consciência inferior) ao invés do EU? (consciência superior).


Só espero que nessa dança do EU/EGO/SUPEREGO/ID, o meu EGO não queira satisfazer o ID à revelia do SUPEREGO pois assim agindo me levará ao desespero e se eu não me submeter ao mundo serei destruída por ele.


Doutor Jung, que me ajude. Mas, diante dos meus “dissabores”, como posso “por ventura cada amanhã, afrontar o Sol com uma singela alegria?” Eça diz que não pode e explica: Entre eu e o Sol está o negro cuidado que me estende uma sombra na face, me mata nela, como a sombra sempre faz às flores, a flor de todo o riso.


Não, eu não poderia encerrar este texto sem explicar com palavras de Eça, o porquê, de vez por outra, me ver acometida de “surtos de tristeza”, que acredito ser, simplesmente, porque sou um ser que pensa e constantemente, pelo fatalismo da educação crítica, busco a realidade através das aparências, tais como as que se seguem: Sobre o céu?


No céu só vejo uma complicada combinação de gases.


Sobre a alma? Na alma só descobri uma grosseira função de órgãos.


Sobre a lágrima? Na lágrima só uma porção de fosfato de cal.


E diante de dois olhos resplandecentes de amor? Só penso nos dois buracos da caveira que estão por trás,de todo o sacrifício heróico?


Imagino logo um motivo egoísta,Por que caminho? Não sei, se a cada passo perco um sonho.


Sabes para onde vás? Não, não sei para onde vou, nem tampouco sei quem sou


Por isso e por muito mais NÃO POSSO SER SENÃO UMA TRISTE! Porca miséria! Quanta lamúria! Ô Maria Olímpia, ( a rede está te esperando) você que entende das coisas, diz ai se estou enveredando pela linha “trash” ou seguindo as pegadas de Augusto dos Anjos, de quem publico o soneto que se segue :

ETERNA MÁGOA

O homem por sobre quem caiu a praga

Da tristeza do Mundo, o homem que é triste

Para todos os séculos existe

E nunca mais o seu pesar se apaga!


Não crê em nada, pois, nada há que traga

Consolo á Mágoa, a que só ele assiste.

Quer resistir, e quanto mais resiste

Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.


Sabe que sofre, mas o que não sabe

E que essa mágoa infinda assim, não cabe

Na sua vida, é que essa mágoa infinda


Transpõe a vida do seu corpo inerme;

E quando esse homem se transforma em verme

É essa mágoa que o acompanha ainda!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

"NÃO TENS QUEM TE FAÇA TEU ELOGIO? ELOGIA-TE A TI MESMO"



Ontem, que foi domingo, andei vagando a esmo pela beira da praia até cansar; depois sentei e fiquei observando o vai-e-vem das ondas... Dei uma olhadinha pra dentro de mim e indaguei: hei, dona Zélia, diz ai como te sentes. E dona Zélia, de olhar perdido na imensidão do mar, versejou: “Ando tão calada quanto desassossegada” Hum... Hum...


Diga ao menos o nome do autor do verso. Desconheço. Tudo bem, tudo bem. Neste ponto incorporei dona Zélia e rabisquei qualquer coisa na areia, que logo apaguei com a sandália. Pelo escrito percebi da necessidade de diminuir o tamanho da minha memória.


Daí, passei a observar um caraguejinho, conhecido por estas bandas como “maria-farinha”, que andava rápido e tentava se esconder enfiando-se na areia. Seria de mim que fugia?- pensei - Mas eu não fiz nada com ele! - também pensei - Se bem que, para ser sincera, até tentei cutucá-lo com um graveto, depois me arrependi e achei melhor deixá-lo em paz .


Afinal, teria suas razões pra não falar comigo, nem me conhecia direito! Vai ver, que me tinha como uma predadora da fauna, uma ameaça à sua segurança, um verdadeiro monstro, olha só o meu tamanho e o tamanhinho dele. Mas ai eu cismo...


Será que não passou pelo seu casquinho que os seus olhos pequeninos e apertadinhos poderiam não estar me enxergando bem? Ora pois! Eu, que tenho dificuldade de matar até uma barata , de tão boazinha que sou! E aqui, data vênia, cabe de Erasmo de Rotterdam , a seguinte máxima: “Não tens que faça teu elogio? Elogia-te a ti mesmo”. (Elogio da Loucura).


Ah! Sobre o mar, nada direi? Valeria a pena? Claro que valeria a pena! “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e a minha não é; só que não pretendo “passar além do Bojador”, pois pra isso tenho “que passar além da dor” e de dor já basta! Só acrescentarei que, se “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu” (Poema Mar Português – Fernando Pessoa)


Sabe..., vou ficar aqui, espiando céu e mar sem nada falar ( de olho no caranguejinho esperando que ele saia da toca e eu possa fazer um gesto de paz e amor pra ele. Depois aceno com um adeus e vou embora sem olhar pra trás... Afinal, um caranguejinho, é um caranguejinho, é um caranguejinho e a praia é o seu pedaço).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

UMA VOZ QUE PRECISA APRENDER A CALAR



"Ah! Quem me dera este Outono que me invadeSutil e silenciosamente me translade para outas plagas onde eu possa adormecer" (Feridas de Outono- Milla Pereira)


A voz que precisa aprender a calar é a minha, eu a dona dela nem sempre consigo sufocá-la e me perco na existência dos meus pensamentos que, sem domínio, teimam em tornar público o concreto que me exaspera , quando na realidade viveria melhor no abstrato mudo onde a representação figurativa não transcende as aparências exteriores da realidade.


Já que clamo pelo silêncio deveria exigir da minha condição existencial o distanciamento da realidade e me firmar nas indagações filosóficas, a começar pensando como Platão e Descartes: não aceitando nada como verdadeiro até a confirmação própria como tal, para isso usando a razão, já que nada garante que os nossos sentidos são confiáveis.


E por que tenho que recorrer a razão? Porque já não sei distinguir o sonho da realidade e não sei onde buscar o marco capaz de tornar clara a diferença entre o estado acordado e o sonho.


Se sonho, acredito real o que vivo, só que o meu “real” só existe na minha imaginação, que embora não exista de fato, só penso.Contraditória...


Mas quem não é...?

terça-feira, 7 de abril de 2009

VIU O QUE VOCÊ FEZ?



Abri o peito, gritei e você não me ouviu; estendi a mão e você não segurou, implorei e você silenciou.


Fiz tudo isso e diante do teu silêncio me vejo aqui agora conivente com a minha própria destruição e tão infeliz quanto Petrarca diante da morte de Laura. Queres que eu diga versos dele, queres? Morte levou o meu duplo tesouro / A causa meu contentamento / E consolar não pode o meu tormento / Nem gema oriental, nem terra ou ouro. / Por ser consentimento do destino , / Perde-se em mágoa a triste alma minha /Choram meus olhos e o meu vulto (...) Achas pouco?


Queres que eu cante Hino ao Amor de Piaf, queres? Até onde me conduzirá esta tristeza? Até ao fundo do poço? Por acaso encontrarei por lá um novo amanhecer? Como, se teu espectro me persegue? Como farei para me livrar de ti? Por que você entrou em mim e saiu sem me pedir licença?


Não entendes que sem o teu amor eu não posso viver? Está vendo só como eu fiquei? Não se morre assim atoa! Por que tu não entendes isso de uma vez por todas e volta pra mim?! Tantas perguntas e nenhuma resposta!


Tem Deus que manda ai em cima, tem? Se tiver pede as contas e desce, por favor, te peço, volta pra mim...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

SENTI A MESMA SENSAÇÃO




Desliguei o computador e sai do escritório pisando forte , chutando a primeira almofada que encontrei à minha frente - primeiro sinal de que eu não estava nada bem – andei alguns passos até atingir a escada que me leva aos quartos da casa.


À medida que comecei a subir , cada degrau que eu alcançava me sentia menor. Segui pelo corredor, ultrapassei a saleta de televisão, para finalmente chegar ao meu quarto. Entrei, fechei a porta, olhei para minha cama encostada na parede, fui até o seu espelho, empurrei e sem me dá conta do ridículo, atrás dela sentei-me para ouvir de mim uma vozinha que dizia: “daqui nunca mais eu saio, deixe que me procurem”.


Esta era a minha reação quando criança, sempre que me via contrariada. Agora, adulta, uma vez contrariada, quis ter a mesma reação. E lá estava eu, sentada no chão, encostada na parece fria, na penumbra do quarto, só que desta vez eu não contava os dedos das mãos e dos pés de trás pra frente e de frente pra trás, tinha em mãos um brinquedinho: o celular e comecei a me entreter com o que me oferecia a maquininha.


Assim, o tempo foi passando e pouco a pouco fui esquecendo o porquê da minha contrariedade, tal qual quando criança... E de repente me dei conta de tão crescida era, que fisicamente nada mais restava da criança, tinha mudado muito, mas a minha essência permanecia a mesma, eu me revelei a Zélia pequena, cuja raiva não ia além dos cinco minutos. Levantei-me com a certeza de ter sentido a mesma sensação.


Lembrando que, enquanto a Zélia pequena procurava o papai ou a mamãe e voltava às suas brincadeiras favoritas , hoje, a Zélia grande volta para o seu “brinquedo,” também favorito, que tem a capacidade de transportá-la mundo a fora e torná-la perto das pessoas, que além dos seus, aprendeu a amar...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DANE-SE




Alguma vez na sua vida você pôs a educação de lado e virou-se para alguém que vem abusando de sua paciência e disse alto e bom som: DANE-SE!!!? Se não disse precisa dizer, que sensação de alivio provoca esse desabafo!


Você é dos que acredita que existe um limite pra tudo; que tudo cansa na vida; são promessas que não se cumprem; tempo que engana; passos que não se alcançam; “ fatos que desarrumam nossos dias já desarrumados”. E tudo por quê? Por conta dos ciclos que temos que passar ao longo da vida com todos os atropelos ligados a religião, relação amorosa, trabalho, insensibilidade, brutalidade, enfim, o “escambau” , droga! Droga! Sabe o que mais?


O tal do DANE-SE tem lá a sua importância na filosofia, vejamos o que diz o filósofo e estudioso de Epicuro , professor Wilson Correia: ele afirma que de acordo com o tetraphamakon epicurista, a saúde mental de uma pessoa está diretamente ligada à quantidade de “ DANE-SE” que ela é capaz de dizer em meio a ciclos e processos que, de outra forma, poderiam causar preocupação e todo tipo de desgaste pessoal.


Não se trata de irresponsabilidade mas de certa maturidade. E que esse “ DANE-SE” é o outro nome da serenidade ataráxica da fala de Epicuro. Se assim é, em nome do prazer natural possível que aplaca os desejos e dá felicidade o melhor mesmo é “não estar nem ai” para certas coisas, fatos e pessoas, sobretudo para os seres humanos que teimam em não agir como gente digna de si mesmos e daqueles que os cercam.


Para estes, que SE DANEM, e que vá estudar e entender Epicuro .

terça-feira, 31 de março de 2009

EU SÓ QUERIA SABER




Possuo uma alma inquieta, não essa alma que dizem desprender do corpo e que recebe um par de asinhas quando a gente morre. A alma de que falo é indissociável do corpo: corpo morto, alma morta, pensamentos mortos..



Melhor dizendo: sou uma pessoa inquieta e parece que vim ao mundo para me preocupar; ficar presa a sentimentos; questionamentos; por quês. Eu queria me desvencilhar dessas coisas. Eu só queria saber quando poderei caminhar e sentir que esse caminhar não é vazio nem os meus dias são tristes e nem minhas sextas-feiras representam as da paixão do Cristo.



Eu só queria saber quando existirá em mim uma razão latente de viver e a minha alma de bolero reclamará uma alegria renovada. Eu só queria saber se após juntar o meu último pedacinho, me sentirei inteira, viva e não mais morta nem tampouco “ solitária na companhia de meu próprio cadáver”(A Terceira Renúncia – Gabriel Garcia Márquez).



Eu só queria saber quando me desprenderei das amarras que me prendem. Eu só queria saber quando abrirei os meus braços e exprimirei todo o meu sentimento de liberdade!

segunda-feira, 30 de março de 2009

MULHERES PERDIDAS - PERDIDA EM MEU PRÓPRIO LABIRINTO A CAMINHO DE UQBAR



E lá ia eu meio desarvorada, tentando fugir de não sei o quê, caminhando sem rumo certo por uma dessas veredas da vida, que nem me dei conta de um amigo meu que me seguia a passos largos. Era tão idiota e desligado quanto eu e ainda por cima era metido a intelectual o infeliz .


Juntou-se a mim para chorar suas mágoas; estava fugindo também, e foi logo perguntando: você sabe onde fica esse país Uqbar? Saber eu sabia, pois li Ficções de Jorge Luiz Borges, mas como não estava afim de muita conversa, respondi assim: eu não, então ele emendou : se não me engano fica pras bandas do Iraque ou da Ásia Menor e prosseguiu: estou sabendo que está havendo por lá uma gigantesca conspiração de intelectuais para imaginar a criação de um novo mundo, a quem daria o nome de Tlon. Que tal irmos nos juntar a essa gente e conspirar um pouco, já que andamos tão injuriados com este mundinho aqui? É..., pode ser, tô fazendo nada, mas como é que a gente chega lá? Perguntei. Ô criatura de Deus, para que serve a imaginação?


Senta aqui perto de mim, dá tua mão, feche os olhos, concentre-se, que te garanto alcançaremos o destino. Ham, ham... disse eu e fiz o que o amigo mandou. Mas quando abri os olhos, estava só, acho que concentrei errado, ele foi e eu me perdi pelo caminho, ou mais precisamente dentro do meu próprio labirinto físico. E por não falar a língua dos anjos, cadê achar a saída? Prendi um pé num emaranhado de vísceras, chutei um útero, pisei um rim, fui imprensada entre dois pulmões ,caí em cima de um baço, tropecei num pâncreas, deslizei num fígado, esmaguei uma vesícula, até chegar ao centro da cavidade torácica, onde percebi um órgão oco com duas câmaras uma superior que se dilatava quando recebia sangue e a outra inferior que se contraía quando ejetava esse sangue.


Eu fiquei observando aquilo, sabia que era o coração, e se ele era oco, por certo os meus sentimentos, os meus amores, as minhas saudades, as minhas lembranças as minhas tristezas, as minhas alegrias, os meus momentos felizes estavam todos dentro dele... Então..., eu pensei... é... Se eu conseguir sair daqui, tentarei arrancar desta coisa oca e levar comigo algumas coisinhas que andam me incomodando...


Como fazer era que eu não estava sabendo. Também não sabia como sair desse labirinto, estava realmente me sentindo perdida. Lembrei do meu camaradinha, devia também estar pegando tempo lá por Uqbar, como estaria sendo feita a comunicação com os heresiarcas? Está me dando sono, é tudo tão escuro aqui por dentro...


E eu me pergunto, teria algum sentido eu estar perdida neste labirinto? Os gnósticos consideram o labirinto como um símbolo de iniciação. Em seu percurso haveria um centro espiritual oculto uma dissipação de trevas e luz e o renascimento pessoal. Nesse sentido a superação seria encontro da verdade ou opus... Eu acho que dormi...


Mas quando acordei ao meu redor já não havia trevas e sim luz aí eu pensei: será que aconteceu o meu renascimento pessoal? Eu encontrei a verdade? Contudo, só de uma coisa eu sei: estava fora do labirinto e fazia o caminho de volta para o lugar de onde eu jamais deveria ter saído...

LINHA CRUZADA



Sei que não foi elegante nem correto de minha parte não ter desligado o telefone quando me deparei com uma linha cruzada, mas ando numa “Comedy of Errors” de fazer inveja a criatividade de Shakespeare. Mas o que ouvi foi pathetic. A conversa rolava entre dois seres, tratavam de suas intimidades, de seus próprios sentimentos, dos seus desacertos e dos seus desamores e pelo que pude perceber havia um certo antagonismo entre o sentir dos dois.


O ser masculino, pelo tom de voz deixava passar uma frieza desconcertante e bem poderia representar o “não te quero”. O outro ser, o feminino, com certeza, seria “o porque te quero”. E eu lá de ouvido colado. O ser masculino suspirou impaciente e resmungou qualquer coisa. Houve um silêncio, que eu, com vergonha de mim mesma, aproveitei para cuidadosamente colocar o fone no gancho. Levantei-me da cadeira onde estava e me dirigi até a cama, deitei-me, coloquei os braços sob a minha cabeça e comecei a imaginar como seriam fisicamente “não te quero” e “porque te quero”... seriam jovens ou não? Namorados, noivos, casados...?


Teriam condições de fazerem as pazes? Essa “escuta cladestina” me fez lembrar um texto interessante que li outro dia na Internet e que vou transcrever, omitindo o crédito por não saber quem é o autor; também retrata o fim de um amor e o título é “Não te quero querer mais”. É o que se segue:Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te.


Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim.


Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei.


Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.

terça-feira, 24 de março de 2009

EM BUSCA DA MONTANHA MÁGICA




“Por que você me ama? Porque
você permitiu. Essa frase remete ao
mais simples mecanismo de reciprocidade e
lealdade se um pergunta ao outro a razão de seu
sentimento em direção a ele, a resposta só poderia ser essa.”


Às vezes eu converso com os meus comigos. Hoje pela manhã, diante do espelho eu disse : hei dona Zélia, que cara estúpida é essa? Comeu e não gostou, foi? Vamos lá, como diz a musiquinha, enxuga a lágrima faz um sorriso, mostre a essa gente que é feliz e não começa com crises existências que eu não estou afim de ficar com peninha de ti. Fiz uma careta, ensaie um sorriso, só que amarelo... Ai, o comigo disse lá: Um conselho? Por que não fazes as malas e partes em busca da tua “Montanha Mágica”?( fazendo alusão ao livro de Thomas Mann, escrito em 1924, no original com o título em alemão Der Zauberberg e entre nós, “Montanha Mágica). Vai te “curar” em algum sanatório em Davos, nos Alpes suíço, vai procurar tua turma, desligue-se do tempo, sai da “planície” vai discutir com os que têm tendências e pensamentos iguais aos teus, sobre política, arte, cultura, religião, filosofia, a fragilidade humana, o caráter subjetivo do tempo, sobre o amor.


Falar sobre o amor... Qual? Amor físico? Amor platônico, amor materno, amor a Deus, amor a vida? E por falar em amor platônico, sabia que é uma expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos ( um amor impossível de realizar). Mas há quem afirme tratar-se de uma má interpretação da filosofia de Platão, quando vincula o atributo “platônico” ao sentido de algo existente apenas no plano das idéias. Porque Idéia em Platão não é uma cogitação da razão ou da fantasia humana.


É a realidade essencial. O mundo da matéria seria apenas uma sombra que lembraria a luz da verdade essencial. Disso pode-se concluir que o amor Platônico é uma interpretação equivocada do conceito de Amor na filosofia de Platão. O amor em Platão é falta. Ou seja, o amante busca no amado a Idéia – verdade essencial – que não possui. Nisto supre sua falta e se torna pleno, de modo dialético, recíproco. Nem de longe é a noção de amor covarde que nunca se realizará. Em contraposição ao conceito de Amor na filosofia de Platão está o conceito de Paixão.


A Paixão seria o desejo voltado exclusivamente para o mundo das sombras, abandona-se a busca da realidade essencial. O amor em Platão não condena o sexo, ou as coisas da vida material.E, feito a Esfinge, fico por aqui espantando Tebas, até que Édipo me decifre e eu por conta me atire no abismo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

POR QUE VOCÊ SE FOI?




PARA VOCÊ, QUE JÁ NÃO ME FALA E JÁ NÃO MAIS ME OUVE E NO ENTANTO, EU NÃO CONSIGO ESQUECER...

Não, não foi a cotovia que cantou e me despertou, foi o meu próprio silêncio que gritou e roubou o meu pensamento que até então te abraçava. Sentindo a tua fuga, absorvo o perfume que ainda está impregnado na minha pele e no lençol da minha imaginação e me perco nas lembranças...



Mas, o que farei com as lembranças? Me levará a entorpecer de saudade? O que farei com a saudade...? Por quê? Por quê? viver esta fantasia em câmara lenta quando o bom seria ter uma câmara que devolvesse você em forma rápida? Mas, de qual filme quero participar? Não! Não quero estar num filme choramingando feito uma pobrezinha abandonada. Quero um filme que fale de nós dois.



Quero ser a própria heroína, serei uma Dra. Han Suyin e serás o meu Mark Elliott e reviveremos Love Is a Many-Splendored ThingE me ponho a indagar: tudo isso é sonho ou realidade? Deitado estiveste comigo por uma noite toda? Confundem-me as lembranças e tenho medo da minha imaginação que de tanto desejar-te cria fantasias, que se perdem na bruma e nunca mais perto de mim consigo te encontrar, só te imagino, só te descubro perdido dentro de mim, mesmo assim te desejo e te sinto forte e dono.



Enquanto eu... Apenas lembranças... Por que você se foi...?