segunda-feira, 4 de maio de 2009

JÁ PASSA DA MEIA NOITE E EU CONTINUO CINDERELA



Quando eu era mocinha, tinha um diário e tudo indica que essa mania continua entre as jovens. Minha neta de dez anos tem um, e, pelo visto, é possuidora de muitos “segredos”, pois o mesmo é trancado com um pequeno cadeado.Este preâmbulo foi feito para dizer que, se eu ainda tivesse um diário eu teria começado as anotações deste domingo que acaba de findar, desta maneira:


7:30: Querido diário, acordei agora, tô levantando, levantando o corpo literalmente, enquanto a cabeça pensante teima em permanecer sob os lençóis invadida que anda pela cruel dúvida shakespereana de “ser ou não ser, eis a questão”.


8:13: Postei uma crônica lá no Recanto, que fala do sentimento do desencanto, houve quem dissesse que as minhas personagens são tragicômicas, estão ultrapassadas no tempo e que os meus deuses do amor passeiam em terras distantes, sufocados na sua própria inexistência. Enfim, que já não se ama como antigamente. Não discuto, talvez seja eu a última romântica. Deve ser isso mesmo, afinal, tudo o que foi e é criado vai abismar-se no nada. Está passado. Ultrapassado


8:30: Recebi flores vermelhas...


8:40: um telefonema, convite para almoço... Convite aceito. Hora marcada, 13:00 horas...


00:05: Querido diário, neste espaço de tempo entre 8:30 e 00:05, o que posso acrescentar é que o almoço aconteceu entre pessoas de idades diferentes, mas de pensamentos e idéias convergentes e de maneiras que vão ao encontro do meu jeito de ser. Bebemos um bom vinho, conversamos, trocamos confidências, falamos de sentimentos olho no olho e o que mais me alegrou foi sentir que a jovialidade de quem me acompanhava não era empecilho para alcançar a visão que eu tenho sobre tantas coisas nas quais eu acredito, inclusive sobre o amor, amor “à moda antiga”, amor que manda flores e é capaz de gestos delicados, como o de segurar tua mão por debaixo da mesa e te olhar com um sorriso encabulado, procurando compreensão pelo ato.Assim, querido diário, encerro estas anotações e embora já passe da meia noite, continuo me sentindo Cinderela sem ter medo de voltar à gata borralheira, sonhando sim, com quem me fez feliz por momentos, mas não na espera que me venha experimentar o “sapatinho”, basta só eu saber que existe e que basta só abrir a porta para encontrá-lo.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

SAUDADE,TIRO QUE DESPEDAÇA POR DENTRO




Aconteceu. Pronto, aconteceu. E o que eu senti foi o despedaçar por dentro, conseqüência de um tiro de misericórdia advindo de um sentimento chamado SAUDADE.


E eu já nem sei ao certo se de fato existia mais alguma coisa dentro de mim para que esse sentimento destruísse, se até o meu pensamento ele tolhe, não me permitindo nada fazer, há não ser pensar em você, desde o amanhecer até a hora de dormir. Mas o que adiantaria ter o meu pensamento livre sem você?


Com ele livre o que eu buscaria, felicidade? Como? Se “ela está sempre apenas onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos?” (Vicente de Carvalho) Responda-me: por que na condição de seres conscientes, livres que somos e responsáveis, não partimos para o dialógo, não sabe você – e ai me desculpe, mas vou parodiar o filosófo frances Merleau–Ponty e dizer – que na experiência do diálogo se constituiria entre mim e você um terreno comum, meu pensamento e o seu formariam um só tecido, minhas falas e as suas seriam invocadas pela interlocução, inserindo-se numa operação comum da qual nenhum de nós é o criador.


Eu e você seriamos colaboradores, numa reciprocidade perfeita, coexistiríamos no mesmo mundo e se arrancares de mim pensamentos que eu não sabia possuir, de tal modo que os empresto e em troca você me faz pensar. Por favor não me deixe falando sozinha, preciso desse diálogo, preciso fazer dele um episódio de minha vida privada solitária , não me faça senti-lo como uma ameaça pois sem você desaparece a reciprocidade que nos relacionava tanto na concordância como na discordância .


Não sabe você que a vida é intersubjetividade corporal e psíquica, é reciprocidade entre pessoas e que a amizade é a virtude proeminente, a expressão do mais alto ideal?Agora, indago: depois de tudo o que eu lhe disse, volta pra mim por inteiro?


PS: meus agradecimentos à Marilena Chauí (Convite à Filosofia), que me ajudou na elaboração deste texto.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

SOLIDÃO E A ILUSÃO DA LIBERDADE



O que é solidão? É simplesmente o “estar só”?

Segundo o controverso filósofo indiano Osho, solidão é como a escuridão e você não pode lutar com a escuridão, com a solidão nem tampouco com o medo do isolamento diretamente, pois nenhuma dessas coisas existem, elas são simplesmente ausência de alguma coisa.


Exemplificando: o que fazemos quando nos encontramos diante da escuridão? Com a escuridão não fazemos nada diretamente, pois ela é somente ausência de luz, ela não existe, acedemos a luz e ela, a escuridão, que não existe, desaparece.


A solidão, como já foi dito, é feito a escuridão, é ausência também, é medo; quando nos sentimos sozinhos vem o desejo de se apegar a alguma coisa, a alguém, algum relacionamento, só para manter a ilusão de que não estamos sós, contudo, afirma Osho, nós sabemos que estamos – por isso a dor – Por um lado você está se apegando a algo que não é real, que é somente um arranjo temporário - um relacionamento, uma amizade, "que subitamente se torna consciente que este relacionamento ou esta amizade não é permanente.


Hoje amigos e quem sabe o dia de amanhã? Amanhã que podemos ser desconhecidos novamente - daí a dor."O que é certo é que não se pode evitar a solidão , ela faz parte dos fundamentos da vida.


Afirma ainda Osho, o que é necessário não é algo que você possa evitar a sua solidão. O que é necessário é que você se torne consciente da sua solitude, o que é a realidade.


E é tão belo experiência-la. Senti-la. Porque é a sua liberdade da multidão, do outro.


É a sua liberdade do seu medo de estar sozinho

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"ARRUMAR A CASA"



“ARRUMAR A CASA”

Este é um título do poema da Yasmine Lemos, que diz o seguinte:


“ Quando nada existe; /Outras coisas persistem; /Um cenário desorganizado. / Livro demarcado, / Página virada, / Silêncio forçado, / Peito abafado. / Música que não toca, / Consola. /Relógio cansado das horas. /Corpo deitado. /Olhos fechados, / Luz apagada./ Uma certa dissonância./ Indiferença agora é um fato. / Paciência”.


Para arrumar a “casa” eu terei que dizer ADEUS, e eu não sei lhe dar com isso , é difícil para mim.

ADEUS presume-se “até nunca mais” e “nunca mais” é tão difinitivo... Mas eu preciso, de fato, dizer ADEUS.


Preciso limpar a "casa", retirar os entulhos, a poeira que me sufoca, que faz meus olhos lacrimejar, impedindo de enxergar a realidade, uma realidade que eu não alcanço, que não me situo.


Mas eu volto, apesar do ADEUS. Pode crer.

SÓ FALTAVA O CARRO VELHO




Pronto Chica, sei o quanto é difícil pra ti guria deixar de me ler, e para deixares de pegar no meu pé (hahahahaha) estou voltando. Casa quase arrumada, eu digo quase arrumada, porque ando às voltas, ainda, com um carro velho que me pertence; ta certo que ele não é muito velho, mas comporta-se como tal, falta de manutenção o mais provável.


Só sei que nunca funciona quando mais preciso dele, também, um dia esqueço de colocar gasolina; outro dia a bateria está arriada, o mecânico da esquina já falou que o amortecedor precisa trocar, a caixa de direção tá com folga, a caixa de marcha nega a segunda e pula pra terceira; o freio tá desregulado e que logo, logo ele vai bater o motor (nunca lembro de completar o óleo ou fazer a troca).


Sem contar que a sinaleira só acende o lado esquerdo e que dia de chuva é impossível dirigir, o limpador de pára-brisa não funciona e você não enxerga um palmo à frente do nariz, tem que deixar a janela aberta para espiar o movimento, ai a chuva te molha toda e para completar ontem arrobaram a porta dele e levaram o DVD com o CD de Lionel Richie, onde ele canta Helo.


Ai desesperei e o Lionel não saia da minha cabeça cantando Hello! E suas palavras soavam aos meus ouvidos... Is it me you’re loking for? / I can see it in your... Então, sabe o que fiz? Sai chutando todos os seus pneus, quando descobri que o do lado direito da frente estava baixo. Antes que o meu coração explodisse, soltei um palavrão, peguei um papel e escrevi: GOSTOU DELE? ENTÃO LEVE PRA VOCÊ, A CHAVE TÁ NA IGNIÇÃO, TENTE LIGAR E SE PEGAR É TODO SEU.


E preguei no para-brisa de trás. Feito isto, sai à procura de um taxi, deixando o meu último problema no estacionamento do supermercado.


PS: HELLO! AH, não é nada disso! Mas é que não consigo esquecer o Hello! do Lionel) Eu só queria Confessar com este PS, que o tema “Carro Velho” me foi sugerido, aceitei e tai no que deu.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

VAMOS FALAR SOBRE ECOLOGIA?



Depois que alguém me contou que viu um cego escrevendo uma carta, ditada por um mudo e tendo um surdo escutando atrás da porta, eu não me admiro de mais nada . E sabe de uma coisa? Eu vou é dar viva para Barack Obama,(por quê???) pois na terra que não tem líder se faz festa para o líder dos outros.Líder à parte.


Tratemos hoje de um assunto que está em voga: ECOLOGIA – não que eu seja versada em tal, isto porque, consultando a minha vida pregressa cheguei a conclusão que não tenho autoridade nenhuma sobre isso , logo eu que quando criança vibrava com as queimadas que o meu pai promovia para replantar a cana; jogava pedras nas lagartixas; roubava ovos nos ninhos das rolinhas; fazia careta pra sagüim; poluía o rio do engenho Manimbu com o meu xixi; espalhava farinha de mandioca nas suas águas para pegar piabas e ainda por cima cometia o crime inafiançável de me entreter roendo umas perninhas de arribação.


Deixemos-me de lado e vamos falar sério. Nós sabemos – sem demonstrar muito repúdio à quebra de nossa soberania - que vez por outra líderes ecologistas do Primeiro Mundo se reúnem para “decidirem” sobre o destino da Amazônia.


Sim, da nossa Amazônia, que já sofreu outras investidas, conforme li, faz tempo, num artigo do poeta e escritor Gerardo Mello Mourão, investidas essas, deveras interessantes, senão vejamos: quando Hitler reivindicava espaço territorial reclamado pelo povo alemão, os senhores Chamberlian e Daladier, chefes de governo da Inglaterra e da França ofereceram de cara ao fuehrer a Amazônia brasileira.


Proposta não aceita porque segundo Hitler, os Estados Unidos possivelmente não concordariam com uma ocupação alemã em território brasileiro. Quando lhe foi assegurado, que a proposta tinha o aval de Washington. A Hitler só interessava a continuidade territorial do continente europeu. Por isso escapamos.


De outra feita, enrolados na bandeira ecológica , la vêem de novo os países ricos numa investida contra a Amazônia, responsabilizando-a de ser o pulmão do mundo e defensora do planeta contra os buracos na camada de ozônio, por conseguinte, sapecaram um manifesto lá em Estocolmo proclamando a intangibilidade da floresta amazônica.


Gilberto Mestrinho, quando governador do Amazonas era um defensor ferrenho da “parte que lhe cabia nesse latifúndio” e que, na condição de cobra criada não engolia sapo e nem deixava que os jacarés triturassem a sua gente, que era a sua preocupação maior , mandou espalhar por lá outdoors onde se via estampadas figuras de homens, mulheres e crianças, num apelo para que esses animais em processo de extinção também fossem preservados.Mas, o que existe de verdade por trás dessa febre ecológica que assola o Primeiro Mundo, pondo na floresta amazônica a responsabilidade do oxigênio da humanidade?


Dizem os entendidos, que retiramos das águas oceânicas mais de 95% do oxigênio que respiramos e, se toda floresta amazônica for derrubada, os prejuízos ecológicos representarão menos de 0,2% dos danos causados pelas emissões de dióxido de carbono da indústria dos Estados Unidos.


Olha, não sou quem afirma, mas tem gente ai dizendo que essa paranóia ecológica com relação a Amazônia não passa de uma impostura e uma conspiração dos países ricos, que querem impedir o desenvolvimento do Brasil, é tão somente para que não haja exploração da prodigiosa riqueza mineral e vegetal da Amazônia e paralisar a expansão econômica.


Em síntese: não nos querem ricos nem poderosos, preferem que continuemos disputando os ossos do banquete deles primeiro-mundistas. SERÁ...?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

QUANDO AS APARÊNCIAS ENGANAM




“Vóis sois deuses”.(Jesus Cristo)


Quem de nós já não foi traído pelas aparências? Acho que todos nós... Andei pela “terra de ninguém” em busca de subsídio para escrever esta crônica. Encontrei aos montes, alguns exemplos:PRIMEIRA APARÊNCIA ENGANOSA.


Foi o caso de Susan Boyle, que semana passada emocionou o mundo quando apresentou-se no show do Britains’s Got Talent , na Inglaterra. A candidata de 47 anos, dona de casa, desempregada e longe dos padrões de beleza exigidos hoje em dia foi recebida no palco pelos jurados e pelo auditório com risos, haja vista possuir as características perfeitas daqueles tipos que as pessoas gostam de rir e sacanear.

Acontece que a Susan é dona de uma voz mágica e quando começou a cantar “I Dreamed a Dream” (Les Miserables), deixou todo mundo pasmo, dos jurados ao auditório e no final foi aplaudida de pé.SEGUNDA APARÊNCIA ENGANOSA.


Aconteceu num orfanato, uma criança sem encantos, de maneiras desagradáveis, evitadas pelas outras, inclusive pelos professores e que vivia lá sem carinho, sem afeto, sem esperança, sua única companheira era a solidão. O Diretor do orfanato aguardava ansioso por uma desculpa para livrar-se dela. Um dia aconteceu uma. A companheira de quarto da menina informou que ela estava mantendo correspondência com alguém de fora do orfanato, o que era proibido e disse que ela acabara de esconder um papel numa árvore. E lá se foi o Diretor e o seu assistente tirar essa historia a limpo.


De fato encontraram a tal mensagem e nela , para desapontamento e remorso do Diretor estava escrito num pedaço de papel amassado o seguinte: “ A qualquer pessoa que encontrar este papel; eu gosto de você”. A conclusão que chegou o senhor Diretor é que a menina era menos má do que ele próprio.Pois é, costumamos julgar as pessoas pelas aparências, embora saibamos que estas são enganadoras. “O que é pior, se essas aparências não nos agradam, marcamos a pessoa e nos prevenimos contra toda e qualquer atitude, mesmo que essas sejam julgadas tão somente pelas aparências.


Tem uma oração antiga dos índios Sioux, que pede a Deus auxílio para nunca julgar o próximo antes de ter andado sete dias com as suas sandálias. Isto é explicado como querendo dizer que, antes de criticar, julgar e condenar uma pessoa, devemos nos colocar no seu lugar e entender os seus sentimentos mais profundos.


Aqueles que talvez ela queira esconder de si mesma, para proteger-se dos sofrimentos que a sua lembrança lhe causaria.


O final fica com Elias Regina que deixou pra nós “As Aparências Enganam” da autoria de Sérgio Natureza/Tunai : “As aparências enganam/ Aos que odeiam e amam / porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões / os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague .....

segunda-feira, 20 de abril de 2009

É BOM PENSAR NISSO



E lá vamos nós encontrar a síntese na qual os opostos e as contradições se encontram e se unem. Isto é Filosofia. Isto é o pensamento de Bruno, o jovem italiano (1548-1600), que era rico em idéias e primeiro que tudo a idéia mestra de unidade: toda realidade é única em substância, única em causa, única em origem.


E por conta de suas dúvidas e pesquisas foi condenado pela Inquisição a ser morto “tão piedosamente quanto possível e sem derramamento de sangue” – isto é, a ser queimado vivo. Este jovem filósofo foi um dos que influenciou Baruch de Espinosa, o maior judeu e maior filósofo dos tempos modernos , que também sofreu influência de Descartes, pai da tradição subjetiva e idealista e que acreditava que a mente se conhece a si própria, mas próxima e diretamente do que pode conhecer qualquer outra coisa; de que ela conhece o “mundo exterior” apenas através da impressão dos sentidos e da percepção e por conseguinte toda filosofia tem de começar pela mente e pelo individuo e expressar seu primeiro argumento em três palavras: “ Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum) .


De Espinosa gostaria de falar a respeito do aperfeiçoamento do intelecto e o farei com as suas próprias palavras: “ após ter a experiência me ensinado que todas as coisas que acontecem frequentemente na vida comum são vãs e fúteis e quando vi que todas as coisas de que eu tinha receio, e que os outros receavam de mim nada tinham de bom ou de mau em si mesmas, a não ser no que afetavam a mente, decidi procurar saber se existia algo que fosse realmente bom e capaz de transmitir essa bondade que afetasse a mente a ponto de serem excluídas delas todas as outras coisas.


Decidi investigar se poderia descobrir e alcançar a faculdade de desfrutar através da eternidade, de uma felicidade suprema continua... Via as muitas vantagens que advém das honrarias e riquezas e entendi que ficaria impedido de adquiri-las se desejasse seriamente dedicar-me à investigação desse novo problema... Mas quanto mais se possui uma das duas coisas, maior é o prazer e consequentemente mais se é estimulado a aumentá-las.


Da mesma forma, se em qualquer ocasião nossa esperança é frustrada, apossa-se de nós grande sofrimento. A fama tem também o grande inconveniente de que, se a procuramos, temos que dirigir nossas vidas de modo a agradar aos homens, evitando aquilo que lhes desagrada e buscando o que lhes é agradável... Mas o amor por um bem eterno e infinito, por si só alimenta a mente com um prazer a salvo de qualquer dor... O maior bem é o conhecimento da união que a mente tem com a natureza total.


Quanto maior é o conhecimento da mente, melhor ela compreende sua força e ordem da natureza. Quanto melhor ela compreender sua força e poder, mais capaz será de se dirigir e de estabelecer leis para si mesma; e quanto melhor compreender a ordem da natureza, mais facilmente poderá libertar-se das coisas inúteis; é esse o método”.


É bom pensar nisso...


Fonte: A Filosofia de Espinosa (Os Grandes Filósofos)

domingo, 19 de abril de 2009

DA ARTE DE VENCER





Sério, vou dá um pulinho ali em Atenas, vai haver uma importante reunião da Eclésia, marcada por Péricles e talvez encontre por lá Ariosto, Crisipo e até Alexandre , o Grande; preciso falar com essa gente a respeito do ato de VENCER.


Li em Montaigne alguns conceitos dos senhores citados neste sentido e que me deixaram curiosa e deveras interessada em confabular com tão insignes figuras a respeito de tal.


De Ariosto li que “É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória ao acaso ou ao engenho”.


Contudo, isso não é coisa que se diga, tenho certeza que muito de nós não concorda com o Ariosto, Crisipo também não concordou com esta afirmação e retrucou: “Quem toma parte em uma corrida deve em verdade empregar todas as forças para ganhar, mas não lhe é permitido agarrar o competidor ou passar-lhe uma rasteira".


Já Alexandre , o Grande, foi magnânimo quando respondeu a Poliperconte – que o instava a valer-se da escuridão da noite para atacar Dario: “Não me parece digno roubar vitórias – Prefiro queixar-me da sorte a envergonhar-me da vitória”.


A propósito, a respeito da reunião da Eclésia, recebi um e-mail de Péricles falando da impossibilidade do meu comparecimento a tal reunião: é vedado o comparecimento de mulheres, embora ele mesmo reconheça que é invocada a proteção de uma, Atenas, a deusa da sabedoria e protetora da cidade e em nome dela será lançado o anátema contra qualquer homem que queira enganar o povo.


A guisa de esclarecimento vos digo, que essa reunião tratará do projeto de lei da bule ou da beliê, que é uma espécie de conselho de Estado encarregado de preparar as leis e fiscalizar a sua execução.


Agora, quem estava preocupado com o sucesso da reunião era Aristóteles, acreditava ele que não seria concorrida, o que inviabilizaria a forma democrática de proceder, culpa dos atenienses despreocupados como eram, não estavam dando muita importância ao evento, preferindo gastar o tempo nas praças e bares da cidade a dar e ouvir notícias e nada mais.


Isto posto, viagem desmarcada, esquecer Atenas e seguir o rumo de Tabatinga, lá eu sou amiga do rei, “aqui não sou feliz / Lá a existência é uma aventura” (...)


( Vou embora pra Pasárgada –Manuel Bandeira)

ÀS FAVAS TODO O MEU PALAVRATÓRIO E OS BONS MODOS



Às favas todo o meu palavrório, pois nele nem eu acredito mais, eu só queria uma noite de paz, sem tristezas, sem lembranças, sem saudades, sem ilusões, sem lamúrias; queria mesmo era correr atrás de Arnaldo Antunes e Zizi Possi e fazer coro com eles quando cantam:


"...que não tenho paciência para televisão; que cansei de ser audiência para a solidão, que agora sou de todo mundo e todo mundo é meu também e que estou te querendo como te quero / to te querendo do jeito que te quero / to te querendo do jeito que você é/ to te querendo/ to te querendo" .


Queria que baixasse em mim o espírito de Manuel Maria Du Bocage a quem se atribui um anedotário cabeludo e eu aqui chegasse e mandasse ver uma “impudicícia” qualquer.


Queria dizer um montão de besteira inconseqüente, sem nexo.


Queria pintar o meu cabelo de verde pra chamar atenção. Queria falar alto, gesticular, dizer alguns palavrões, xingar a mãe de alguém, bater a porta, cuspir no chão, limpar a boca com a manga da blusa, palitar os dentes. Queria beber cerveja e arrotar; Queria dizer que cansei.


Cansei de bons modos, cansei de mim. Cansei de correr atrás. Cansei de dizer olhe pra mim, me atropele Queria rezar um Pai Nosso, uma Salve Rainha, o Credo depois me benzer e dizer Amém.


Para dormir e nem sei se quero acordar.

A CHUVA QUE SABIA DEMAIS - LÁ FORA ,NEGRA ERA A NOITE



A noite estava se indo, encerrei a leitura de “O Pálido Olho Azul” um thriller de Louis Bayard e fiquei quieta na minha cama, ouvindo o barulho dos trovões, ao mesmo tempo em que observava através da janel envidraçada do meu quarto, os rasgos de luz que cortavam o céu em ziguezague; levantei e me dirigi até a janela com o intuito de cerrar as pesadas cortinas, mas não o fiz de pronto, encostei o meu rosto na vidraça embaçada e assim permaneci.


Lá fora, negra era a noite; lembrei que, pelo calendário, a lua cheia deveria brilhar no céu. Abatida irritante dos pingos d’água na vidraça me fez afastar o rosto,mas continuei presa à janela. Sim, já tinha vivido situações iguais a esta, tendo a chuva como parte do cenário e testemunha desses momentos.


Talvez, na condição de partícipe, eu pudesse até dizer, queela, a chuva, sabia demais...


Sabia que neste momento ao meu lado estava faltando alguém... E se a chuva fazia negra a noite e representava o choro da Natureza, as lágrimas dos meus olhos, que embaçados tal qual a vidraça da janela, representavam o choro sofrido pela ausência sentida do ser amado.


Sentia falta de sua presença, de seus braços cingindo a minha cintura, seu queixo forte pressionando o meu ombro, observando a chuva e o seu hálito quente explicando-me didaticamente o que ocorria para que houvesse a sonoridade dos trovões e a descarga elétrica chamada relâmpago, e eu rindo do seu didatismo, ao mesmo tempo em que me encolhia nos seus braços por conta das cócegas que sentia dos seus beijos na minha orelha...


Do seu jeito gracioso e meio moleque de sugerir fazer amor, apontando-me a cama, esta mesma cama para a qual estou voltando; agora vazia dele e onde me jogo sem a mínima vontade de trocar-me nem tampouco de dormir...


Lá fora a chuva continua e dentro de mim a velha angústia. E cá estamos:eu, a minha solidão e o poeta maior, para quem digo: Ah, meu poeta...Se ao menos eu endoidecesse de vez e não “deveras”...


Cerro os olhos,antes fechando mais um livro... Agora de Fernando Pessoa.


Boa noite, meu amor.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

"ISTO AQUI NÃO É VIDA É UMA TEMPORADA ROUBADA"



Estou batucando o teclado faz tempo, tentando escrever alguma coisa alegre, mas acredito, nem que o ano fosse o de 1594, eu vivesse na Inglaterra, época de Shakespeare, e a Rainha Elizabeth exercesse de sua autoridade absoluta e ordenasse que eu escrevesse uma comédia para o Dia de Reis, eu não conseguiria, no máximo sairia uma tragicomédia, misturaria o real com o imaginário e com um pouco de graça, tentaria enrolar a Rainha, mesmo expondo o meu pescoço à forca.


Afinal, por que temeria eu a morte, se penso como Lady Viola o amor impossível de Shakespeare, que diante de suas vicissitudes amorosas, afirmou:“isto aqui não é vida é uma temporada roubada”.


Tem razão Lady Viola, esta coisa de amor impossível, incompreendido, não correspondido funciona como um pouco da morte, um grito preso na garganta, que sufoca e torna seca a de quem padecesse e para quem nunca são ditas as palavras que podem umedecê-la.


Um dia, e eu já nem lembro quando, devo ter passado por isso; encontrei entre os meus escritos um folha de papel amarelada, um poema que escrevi. Confesso, que quando reli, senti peninha de mim , embora já nem lembre mais de quem fui “vítima”. (coisas de tempos idos , vividos e esquecidos).


Por mais que procure entender

A tua razão de ser

Ruindo vão as tentativas

E insólita a vida se torna

Levada por uma sensação de vazio

Imposta por tua presença ausente

A mim só cabe indagar:

Importa saber disso amor?

NA AUSÊNCIA DO QUE SOU/ESTOU




Na ausência do que estou

Não procure me encontrar

Deixe que eu me perca

Se nem eu quero me achar?

O QUE ME AFLIGE HOJE SE TRANSFORME NO ONTEM




Se você me perguntasse por que eu escrevo, recorreria à Clarisse Lispector para lhe responder: "Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada...Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.

A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."


Concordo com a Clarisse e parto para o intimismo. Sempre que me vejo supostamente envolvida em conflitos, me entrego às lucubrações de caráter existencial, e por ser uma crítica severa de mim própria, sempre descambo para uma auto-análise buscando no meu comportamento a coerência que deve prevalecer entre o pensar, sentir e agir. E por que o faço?


Talvez por medo. Medo de uma tal co-dependência, que a ciência explica como uma necessidade imperiosa em controlar coisas, pessoas, circunstâncias/comportamentos na expectativa de controlar suas próprias emoções.


Esse medo faz com que eu viva em constante vigilância, não quero me tornar uma co-dependente, nem tampouco refém das ações que formam sua síndrome e que consistem em baixa-estima, dificuldade de colocação de limites; dificuldade em reconhecer e assumir a própria realidade; dificuldade de expressar suas emoções de forma moderada, mesmo que se sinta ligada a outrem por amor, dever e obrigação.


E assim, na esperança de que, o que me aflige hoje, se transforme no ontem, fico por aqui na expectativa de continuar mantendo a minha independência e ser sempre eu mesma.

terça-feira, 14 de abril de 2009

"A DECADÊNCIA DO RISO"





Este título não foi criado por mim, tomei por empréstimo a Eça de Queiroz, que escreveu no ano de 1891, na Gazeta de Notícias, um texto como Pensamento/Reflexão, onde ele declara: “o riso acabou porque a humanidade entristeceu.


No campo pessoal eu não diria: “a humanidade entristeceu”, mas sim: eu é que estou triste. Por que penso e complico a minha existência e me deixo levar pelo EGO? (consciência inferior) ao invés do EU? (consciência superior).


Só espero que nessa dança do EU/EGO/SUPEREGO/ID, o meu EGO não queira satisfazer o ID à revelia do SUPEREGO pois assim agindo me levará ao desespero e se eu não me submeter ao mundo serei destruída por ele.


Doutor Jung, que me ajude. Mas, diante dos meus “dissabores”, como posso “por ventura cada amanhã, afrontar o Sol com uma singela alegria?” Eça diz que não pode e explica: Entre eu e o Sol está o negro cuidado que me estende uma sombra na face, me mata nela, como a sombra sempre faz às flores, a flor de todo o riso.


Não, eu não poderia encerrar este texto sem explicar com palavras de Eça, o porquê, de vez por outra, me ver acometida de “surtos de tristeza”, que acredito ser, simplesmente, porque sou um ser que pensa e constantemente, pelo fatalismo da educação crítica, busco a realidade através das aparências, tais como as que se seguem: Sobre o céu?


No céu só vejo uma complicada combinação de gases.


Sobre a alma? Na alma só descobri uma grosseira função de órgãos.


Sobre a lágrima? Na lágrima só uma porção de fosfato de cal.


E diante de dois olhos resplandecentes de amor? Só penso nos dois buracos da caveira que estão por trás,de todo o sacrifício heróico?


Imagino logo um motivo egoísta,Por que caminho? Não sei, se a cada passo perco um sonho.


Sabes para onde vás? Não, não sei para onde vou, nem tampouco sei quem sou


Por isso e por muito mais NÃO POSSO SER SENÃO UMA TRISTE! Porca miséria! Quanta lamúria! Ô Maria Olímpia, ( a rede está te esperando) você que entende das coisas, diz ai se estou enveredando pela linha “trash” ou seguindo as pegadas de Augusto dos Anjos, de quem publico o soneto que se segue :

ETERNA MÁGOA

O homem por sobre quem caiu a praga

Da tristeza do Mundo, o homem que é triste

Para todos os séculos existe

E nunca mais o seu pesar se apaga!


Não crê em nada, pois, nada há que traga

Consolo á Mágoa, a que só ele assiste.

Quer resistir, e quanto mais resiste

Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.


Sabe que sofre, mas o que não sabe

E que essa mágoa infinda assim, não cabe

Na sua vida, é que essa mágoa infinda


Transpõe a vida do seu corpo inerme;

E quando esse homem se transforma em verme

É essa mágoa que o acompanha ainda!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

"NÃO TENS QUEM TE FAÇA TEU ELOGIO? ELOGIA-TE A TI MESMO"



Ontem, que foi domingo, andei vagando a esmo pela beira da praia até cansar; depois sentei e fiquei observando o vai-e-vem das ondas... Dei uma olhadinha pra dentro de mim e indaguei: hei, dona Zélia, diz ai como te sentes. E dona Zélia, de olhar perdido na imensidão do mar, versejou: “Ando tão calada quanto desassossegada” Hum... Hum...


Diga ao menos o nome do autor do verso. Desconheço. Tudo bem, tudo bem. Neste ponto incorporei dona Zélia e rabisquei qualquer coisa na areia, que logo apaguei com a sandália. Pelo escrito percebi da necessidade de diminuir o tamanho da minha memória.


Daí, passei a observar um caraguejinho, conhecido por estas bandas como “maria-farinha”, que andava rápido e tentava se esconder enfiando-se na areia. Seria de mim que fugia?- pensei - Mas eu não fiz nada com ele! - também pensei - Se bem que, para ser sincera, até tentei cutucá-lo com um graveto, depois me arrependi e achei melhor deixá-lo em paz .


Afinal, teria suas razões pra não falar comigo, nem me conhecia direito! Vai ver, que me tinha como uma predadora da fauna, uma ameaça à sua segurança, um verdadeiro monstro, olha só o meu tamanho e o tamanhinho dele. Mas ai eu cismo...


Será que não passou pelo seu casquinho que os seus olhos pequeninos e apertadinhos poderiam não estar me enxergando bem? Ora pois! Eu, que tenho dificuldade de matar até uma barata , de tão boazinha que sou! E aqui, data vênia, cabe de Erasmo de Rotterdam , a seguinte máxima: “Não tens que faça teu elogio? Elogia-te a ti mesmo”. (Elogio da Loucura).


Ah! Sobre o mar, nada direi? Valeria a pena? Claro que valeria a pena! “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e a minha não é; só que não pretendo “passar além do Bojador”, pois pra isso tenho “que passar além da dor” e de dor já basta! Só acrescentarei que, se “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu” (Poema Mar Português – Fernando Pessoa)


Sabe..., vou ficar aqui, espiando céu e mar sem nada falar ( de olho no caranguejinho esperando que ele saia da toca e eu possa fazer um gesto de paz e amor pra ele. Depois aceno com um adeus e vou embora sem olhar pra trás... Afinal, um caranguejinho, é um caranguejinho, é um caranguejinho e a praia é o seu pedaço).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

UMA VOZ QUE PRECISA APRENDER A CALAR



"Ah! Quem me dera este Outono que me invadeSutil e silenciosamente me translade para outas plagas onde eu possa adormecer" (Feridas de Outono- Milla Pereira)


A voz que precisa aprender a calar é a minha, eu a dona dela nem sempre consigo sufocá-la e me perco na existência dos meus pensamentos que, sem domínio, teimam em tornar público o concreto que me exaspera , quando na realidade viveria melhor no abstrato mudo onde a representação figurativa não transcende as aparências exteriores da realidade.


Já que clamo pelo silêncio deveria exigir da minha condição existencial o distanciamento da realidade e me firmar nas indagações filosóficas, a começar pensando como Platão e Descartes: não aceitando nada como verdadeiro até a confirmação própria como tal, para isso usando a razão, já que nada garante que os nossos sentidos são confiáveis.


E por que tenho que recorrer a razão? Porque já não sei distinguir o sonho da realidade e não sei onde buscar o marco capaz de tornar clara a diferença entre o estado acordado e o sonho.


Se sonho, acredito real o que vivo, só que o meu “real” só existe na minha imaginação, que embora não exista de fato, só penso.Contraditória...


Mas quem não é...?

terça-feira, 7 de abril de 2009

VIU O QUE VOCÊ FEZ?



Abri o peito, gritei e você não me ouviu; estendi a mão e você não segurou, implorei e você silenciou.


Fiz tudo isso e diante do teu silêncio me vejo aqui agora conivente com a minha própria destruição e tão infeliz quanto Petrarca diante da morte de Laura. Queres que eu diga versos dele, queres? Morte levou o meu duplo tesouro / A causa meu contentamento / E consolar não pode o meu tormento / Nem gema oriental, nem terra ou ouro. / Por ser consentimento do destino , / Perde-se em mágoa a triste alma minha /Choram meus olhos e o meu vulto (...) Achas pouco?


Queres que eu cante Hino ao Amor de Piaf, queres? Até onde me conduzirá esta tristeza? Até ao fundo do poço? Por acaso encontrarei por lá um novo amanhecer? Como, se teu espectro me persegue? Como farei para me livrar de ti? Por que você entrou em mim e saiu sem me pedir licença?


Não entendes que sem o teu amor eu não posso viver? Está vendo só como eu fiquei? Não se morre assim atoa! Por que tu não entendes isso de uma vez por todas e volta pra mim?! Tantas perguntas e nenhuma resposta!


Tem Deus que manda ai em cima, tem? Se tiver pede as contas e desce, por favor, te peço, volta pra mim...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

SENTI A MESMA SENSAÇÃO




Desliguei o computador e sai do escritório pisando forte , chutando a primeira almofada que encontrei à minha frente - primeiro sinal de que eu não estava nada bem – andei alguns passos até atingir a escada que me leva aos quartos da casa.


À medida que comecei a subir , cada degrau que eu alcançava me sentia menor. Segui pelo corredor, ultrapassei a saleta de televisão, para finalmente chegar ao meu quarto. Entrei, fechei a porta, olhei para minha cama encostada na parede, fui até o seu espelho, empurrei e sem me dá conta do ridículo, atrás dela sentei-me para ouvir de mim uma vozinha que dizia: “daqui nunca mais eu saio, deixe que me procurem”.


Esta era a minha reação quando criança, sempre que me via contrariada. Agora, adulta, uma vez contrariada, quis ter a mesma reação. E lá estava eu, sentada no chão, encostada na parece fria, na penumbra do quarto, só que desta vez eu não contava os dedos das mãos e dos pés de trás pra frente e de frente pra trás, tinha em mãos um brinquedinho: o celular e comecei a me entreter com o que me oferecia a maquininha.


Assim, o tempo foi passando e pouco a pouco fui esquecendo o porquê da minha contrariedade, tal qual quando criança... E de repente me dei conta de tão crescida era, que fisicamente nada mais restava da criança, tinha mudado muito, mas a minha essência permanecia a mesma, eu me revelei a Zélia pequena, cuja raiva não ia além dos cinco minutos. Levantei-me com a certeza de ter sentido a mesma sensação.


Lembrando que, enquanto a Zélia pequena procurava o papai ou a mamãe e voltava às suas brincadeiras favoritas , hoje, a Zélia grande volta para o seu “brinquedo,” também favorito, que tem a capacidade de transportá-la mundo a fora e torná-la perto das pessoas, que além dos seus, aprendeu a amar...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DANE-SE




Alguma vez na sua vida você pôs a educação de lado e virou-se para alguém que vem abusando de sua paciência e disse alto e bom som: DANE-SE!!!? Se não disse precisa dizer, que sensação de alivio provoca esse desabafo!


Você é dos que acredita que existe um limite pra tudo; que tudo cansa na vida; são promessas que não se cumprem; tempo que engana; passos que não se alcançam; “ fatos que desarrumam nossos dias já desarrumados”. E tudo por quê? Por conta dos ciclos que temos que passar ao longo da vida com todos os atropelos ligados a religião, relação amorosa, trabalho, insensibilidade, brutalidade, enfim, o “escambau” , droga! Droga! Sabe o que mais?


O tal do DANE-SE tem lá a sua importância na filosofia, vejamos o que diz o filósofo e estudioso de Epicuro , professor Wilson Correia: ele afirma que de acordo com o tetraphamakon epicurista, a saúde mental de uma pessoa está diretamente ligada à quantidade de “ DANE-SE” que ela é capaz de dizer em meio a ciclos e processos que, de outra forma, poderiam causar preocupação e todo tipo de desgaste pessoal.


Não se trata de irresponsabilidade mas de certa maturidade. E que esse “ DANE-SE” é o outro nome da serenidade ataráxica da fala de Epicuro. Se assim é, em nome do prazer natural possível que aplaca os desejos e dá felicidade o melhor mesmo é “não estar nem ai” para certas coisas, fatos e pessoas, sobretudo para os seres humanos que teimam em não agir como gente digna de si mesmos e daqueles que os cercam.


Para estes, que SE DANEM, e que vá estudar e entender Epicuro .

terça-feira, 31 de março de 2009

EU SÓ QUERIA SABER




Possuo uma alma inquieta, não essa alma que dizem desprender do corpo e que recebe um par de asinhas quando a gente morre. A alma de que falo é indissociável do corpo: corpo morto, alma morta, pensamentos mortos..



Melhor dizendo: sou uma pessoa inquieta e parece que vim ao mundo para me preocupar; ficar presa a sentimentos; questionamentos; por quês. Eu queria me desvencilhar dessas coisas. Eu só queria saber quando poderei caminhar e sentir que esse caminhar não é vazio nem os meus dias são tristes e nem minhas sextas-feiras representam as da paixão do Cristo.



Eu só queria saber quando existirá em mim uma razão latente de viver e a minha alma de bolero reclamará uma alegria renovada. Eu só queria saber se após juntar o meu último pedacinho, me sentirei inteira, viva e não mais morta nem tampouco “ solitária na companhia de meu próprio cadáver”(A Terceira Renúncia – Gabriel Garcia Márquez).



Eu só queria saber quando me desprenderei das amarras que me prendem. Eu só queria saber quando abrirei os meus braços e exprimirei todo o meu sentimento de liberdade!

segunda-feira, 30 de março de 2009

MULHERES PERDIDAS - PERDIDA EM MEU PRÓPRIO LABIRINTO A CAMINHO DE UQBAR



E lá ia eu meio desarvorada, tentando fugir de não sei o quê, caminhando sem rumo certo por uma dessas veredas da vida, que nem me dei conta de um amigo meu que me seguia a passos largos. Era tão idiota e desligado quanto eu e ainda por cima era metido a intelectual o infeliz .


Juntou-se a mim para chorar suas mágoas; estava fugindo também, e foi logo perguntando: você sabe onde fica esse país Uqbar? Saber eu sabia, pois li Ficções de Jorge Luiz Borges, mas como não estava afim de muita conversa, respondi assim: eu não, então ele emendou : se não me engano fica pras bandas do Iraque ou da Ásia Menor e prosseguiu: estou sabendo que está havendo por lá uma gigantesca conspiração de intelectuais para imaginar a criação de um novo mundo, a quem daria o nome de Tlon. Que tal irmos nos juntar a essa gente e conspirar um pouco, já que andamos tão injuriados com este mundinho aqui? É..., pode ser, tô fazendo nada, mas como é que a gente chega lá? Perguntei. Ô criatura de Deus, para que serve a imaginação?


Senta aqui perto de mim, dá tua mão, feche os olhos, concentre-se, que te garanto alcançaremos o destino. Ham, ham... disse eu e fiz o que o amigo mandou. Mas quando abri os olhos, estava só, acho que concentrei errado, ele foi e eu me perdi pelo caminho, ou mais precisamente dentro do meu próprio labirinto físico. E por não falar a língua dos anjos, cadê achar a saída? Prendi um pé num emaranhado de vísceras, chutei um útero, pisei um rim, fui imprensada entre dois pulmões ,caí em cima de um baço, tropecei num pâncreas, deslizei num fígado, esmaguei uma vesícula, até chegar ao centro da cavidade torácica, onde percebi um órgão oco com duas câmaras uma superior que se dilatava quando recebia sangue e a outra inferior que se contraía quando ejetava esse sangue.


Eu fiquei observando aquilo, sabia que era o coração, e se ele era oco, por certo os meus sentimentos, os meus amores, as minhas saudades, as minhas lembranças as minhas tristezas, as minhas alegrias, os meus momentos felizes estavam todos dentro dele... Então..., eu pensei... é... Se eu conseguir sair daqui, tentarei arrancar desta coisa oca e levar comigo algumas coisinhas que andam me incomodando...


Como fazer era que eu não estava sabendo. Também não sabia como sair desse labirinto, estava realmente me sentindo perdida. Lembrei do meu camaradinha, devia também estar pegando tempo lá por Uqbar, como estaria sendo feita a comunicação com os heresiarcas? Está me dando sono, é tudo tão escuro aqui por dentro...


E eu me pergunto, teria algum sentido eu estar perdida neste labirinto? Os gnósticos consideram o labirinto como um símbolo de iniciação. Em seu percurso haveria um centro espiritual oculto uma dissipação de trevas e luz e o renascimento pessoal. Nesse sentido a superação seria encontro da verdade ou opus... Eu acho que dormi...


Mas quando acordei ao meu redor já não havia trevas e sim luz aí eu pensei: será que aconteceu o meu renascimento pessoal? Eu encontrei a verdade? Contudo, só de uma coisa eu sei: estava fora do labirinto e fazia o caminho de volta para o lugar de onde eu jamais deveria ter saído...

LINHA CRUZADA



Sei que não foi elegante nem correto de minha parte não ter desligado o telefone quando me deparei com uma linha cruzada, mas ando numa “Comedy of Errors” de fazer inveja a criatividade de Shakespeare. Mas o que ouvi foi pathetic. A conversa rolava entre dois seres, tratavam de suas intimidades, de seus próprios sentimentos, dos seus desacertos e dos seus desamores e pelo que pude perceber havia um certo antagonismo entre o sentir dos dois.


O ser masculino, pelo tom de voz deixava passar uma frieza desconcertante e bem poderia representar o “não te quero”. O outro ser, o feminino, com certeza, seria “o porque te quero”. E eu lá de ouvido colado. O ser masculino suspirou impaciente e resmungou qualquer coisa. Houve um silêncio, que eu, com vergonha de mim mesma, aproveitei para cuidadosamente colocar o fone no gancho. Levantei-me da cadeira onde estava e me dirigi até a cama, deitei-me, coloquei os braços sob a minha cabeça e comecei a imaginar como seriam fisicamente “não te quero” e “porque te quero”... seriam jovens ou não? Namorados, noivos, casados...?


Teriam condições de fazerem as pazes? Essa “escuta cladestina” me fez lembrar um texto interessante que li outro dia na Internet e que vou transcrever, omitindo o crédito por não saber quem é o autor; também retrata o fim de um amor e o título é “Não te quero querer mais”. É o que se segue:Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te.


Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim.


Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei.


Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.

terça-feira, 24 de março de 2009

EM BUSCA DA MONTANHA MÁGICA




“Por que você me ama? Porque
você permitiu. Essa frase remete ao
mais simples mecanismo de reciprocidade e
lealdade se um pergunta ao outro a razão de seu
sentimento em direção a ele, a resposta só poderia ser essa.”


Às vezes eu converso com os meus comigos. Hoje pela manhã, diante do espelho eu disse : hei dona Zélia, que cara estúpida é essa? Comeu e não gostou, foi? Vamos lá, como diz a musiquinha, enxuga a lágrima faz um sorriso, mostre a essa gente que é feliz e não começa com crises existências que eu não estou afim de ficar com peninha de ti. Fiz uma careta, ensaie um sorriso, só que amarelo... Ai, o comigo disse lá: Um conselho? Por que não fazes as malas e partes em busca da tua “Montanha Mágica”?( fazendo alusão ao livro de Thomas Mann, escrito em 1924, no original com o título em alemão Der Zauberberg e entre nós, “Montanha Mágica). Vai te “curar” em algum sanatório em Davos, nos Alpes suíço, vai procurar tua turma, desligue-se do tempo, sai da “planície” vai discutir com os que têm tendências e pensamentos iguais aos teus, sobre política, arte, cultura, religião, filosofia, a fragilidade humana, o caráter subjetivo do tempo, sobre o amor.


Falar sobre o amor... Qual? Amor físico? Amor platônico, amor materno, amor a Deus, amor a vida? E por falar em amor platônico, sabia que é uma expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos ( um amor impossível de realizar). Mas há quem afirme tratar-se de uma má interpretação da filosofia de Platão, quando vincula o atributo “platônico” ao sentido de algo existente apenas no plano das idéias. Porque Idéia em Platão não é uma cogitação da razão ou da fantasia humana.


É a realidade essencial. O mundo da matéria seria apenas uma sombra que lembraria a luz da verdade essencial. Disso pode-se concluir que o amor Platônico é uma interpretação equivocada do conceito de Amor na filosofia de Platão. O amor em Platão é falta. Ou seja, o amante busca no amado a Idéia – verdade essencial – que não possui. Nisto supre sua falta e se torna pleno, de modo dialético, recíproco. Nem de longe é a noção de amor covarde que nunca se realizará. Em contraposição ao conceito de Amor na filosofia de Platão está o conceito de Paixão.


A Paixão seria o desejo voltado exclusivamente para o mundo das sombras, abandona-se a busca da realidade essencial. O amor em Platão não condena o sexo, ou as coisas da vida material.E, feito a Esfinge, fico por aqui espantando Tebas, até que Édipo me decifre e eu por conta me atire no abismo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

POR QUE VOCÊ SE FOI?




PARA VOCÊ, QUE JÁ NÃO ME FALA E JÁ NÃO MAIS ME OUVE E NO ENTANTO, EU NÃO CONSIGO ESQUECER...

Não, não foi a cotovia que cantou e me despertou, foi o meu próprio silêncio que gritou e roubou o meu pensamento que até então te abraçava. Sentindo a tua fuga, absorvo o perfume que ainda está impregnado na minha pele e no lençol da minha imaginação e me perco nas lembranças...



Mas, o que farei com as lembranças? Me levará a entorpecer de saudade? O que farei com a saudade...? Por quê? Por quê? viver esta fantasia em câmara lenta quando o bom seria ter uma câmara que devolvesse você em forma rápida? Mas, de qual filme quero participar? Não! Não quero estar num filme choramingando feito uma pobrezinha abandonada. Quero um filme que fale de nós dois.



Quero ser a própria heroína, serei uma Dra. Han Suyin e serás o meu Mark Elliott e reviveremos Love Is a Many-Splendored ThingE me ponho a indagar: tudo isso é sonho ou realidade? Deitado estiveste comigo por uma noite toda? Confundem-me as lembranças e tenho medo da minha imaginação que de tanto desejar-te cria fantasias, que se perdem na bruma e nunca mais perto de mim consigo te encontrar, só te imagino, só te descubro perdido dentro de mim, mesmo assim te desejo e te sinto forte e dono.



Enquanto eu... Apenas lembranças... Por que você se foi...?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

BATE MEU CORAÇÃO PORQUE TU AMAS


Queixava-se de uma velha angústia, que dizia carregar a século e que sentia transbordar naquele momento. E como se manifestava a tal angústia? Através do medo? Da tristeza? Da dor? Do sentimento de perda?


Ora, se carregava a tal angústia através de século, por que não aprender a conviver com ela? Precisava pedir para endoidar de vez só por que não sabe ser um angustiado lúcido, sem saber como se conduzir na vida?

Por acaso conheces a vida num manicômio? Queres experimentar? Posso te internar. Então ficarás doido de vez. Dormirás doido e acordarás louco, teus sonhos não terão sentido, não serão sonhos, ficarás alheio.
Esta é tua casa, reconheces? Corrias por aqui quando menino e dormias sossegado naquele quarto. Ainda dormes sossegado? Vais me responder: e a angústia deixa? Você não é mais menino são. Quer Ficar doido quando homem? Por quê? Pelo terror da angústia? Estou com peninha de ti.

Ainda crês em alguma coisa? E religião, tens? Ah, tu és esquisito mesmo! Vai lá, diz pra mim o porquê da tua angústia. Não me digas que sofres por amor, se for eu riu de ti, não lembras quando por amor chorei e zombastes de mim por dizer desconhecer tal sentimento? Pois é, parece que o dia veio atrás do outro e teve esta noite para atrapalhar e enquanto clamas por uma loucura eu lúcida estou. Enquanto pedes um “manipanso” para crer, eu creio. Enquanto pedes que o “teu coração de vidro pintado estale” eu peço ao meu: bate coração porque tu amas!

PS: Qualquer semelhança com o poema “Velha Angústia” de Fernando Pessoa, pode considerar este texto um plágio.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

AINDA BEM QUE TUDO NÃO PASSOU DE UM SONHO



Sonhei que era Teseu e que matei um minotauro para conseguir escapar do labirinto em que me encontrava e assim me sentir livre, livre para voar. Tentei, mas as minhas asas de penas juntas com cera, iguais as do vaidoso Ícaro, derreteram pelo calor do sol e me fizeram cair sobre as águas revoltas do mar. No meu sonho não foi possível visualizar quem me retirou das águas. Só sei, que logo me vi num caminho vazio e sem fim e quanto mais andava a lugar nenhum chegava; as horas não passavam, os relógios não tinham ponteiros; os dias da semana resumia-se num só dia, sempre sexta-feira, triste como a da paixão. Sentia que fugia de mim a razão de viver, não havia alegria renovada para a minha alma.


De repente me vi juntando pedaços de mim... E não sabia se viva ou morta estava. E me senti “Solitária na companhia de meu próprio cadáver”... Não, morta não estava, ouvi um cachorro latir e tinha a impressão que tinha perfeita noção do que acontecia ao meu redor. Mas aquele caixão... Eu dentro dele... Aquelas flores murchas... Aqueles ratos... Aquela escuridão... Aquela falta de ar... Aquele cheiro... E os meus óculos? Cadê os meus óculos? Não, não estava viva, estava sem óculos, estava morta. A idéia foi tomando conta de mim e confesso que já estava me acostumando com a minha morte, embora alguma coisa negasse isto. Foi quando o pavor começou a tomar conta de mim... E se me enterrassem viva?


Tentei movimentar os meus membros e não consegui, também não consegui expressar-me e quando estava resignada a morrer por resignação, acordei. Sobre mim, aberto na página 21, Olhos de Cão Azul - “A terceira Renúncia – de Gabriel García Márquez. Ai, dei um sorriso amarelo, limpei o suor que escorria pelo meu rosto, levantei, bebi água, me certifiquei que estava viva de verdade e voltei pra cama. Afinal, estava explicado o sonho.

MAS, QUAL É O TEMA?



Uai! Meu céu está mais para nebulosa difusa do que para brigadeiro. E olha que o panorama visto daqui não é o de cima de um tamborete, mas sim de uma ponte .

Mas, qual é mesmo o tema para a crônica de hoje? Não sendo astrônoma, de nebulosa difusa que não é, como posso falar de uma coisa de tão difícil definição óptica, como diria das galáxias. Sobre brigadeiro, adoro os de chocolate, só não sei a receita. Além do mais, crônica no dizer de Fernando Sabino tem que ser uma coisa simples, amena. Se bem que haja controvérsia a respeito, há quem diga que ninguém tem mais tempo para ler as chamadas amenidades.

Diante do impasse como faço para entreter meu caro leitor, minha cara leitora... quando na realidade o que eu queria mesmo era falar mal do presidente e do seu governo? Pelo jeito tenho que me livrar de meter o bedelho nas questões graves, como essa da economia global, que ocupa a atualidade. Mas de uma coisa eu não abro mão, já que paira ameaça sobre nós, é de ir ali na botica da esquina mandar aviar uma receita composta de uma dose de moderação, duas de prudência e três de verdade, etiquetar e despachar para Brasília para ser entregue à Sua


Excelência, senhor e amo de todas as excelências.
E agora? Sem originalidade e com tanta gente boa aqui no Recanto escrevendo crônicas, como é que fica a minha? Não fica, dirão os entendidos. Acho que só me resta reclamar dos e das coleguinhas feito o escritor alemão Gottfired Keller, que queixava-se de Shakespeare acusando-o de ter aproveitado todos os temas fecundos, antecipando-se, assim, aos escritores que vieram depois dele, e prejudicando-os na própria originalidade. Isto é o que nos conta Carlos Alberto Nunes em “Introdução Geral e Plano da Publicação do Teatro Completo de Shakespeare”. Não é sem razão que a “obra prima” deixada por Keller foi "Romeu e Julieta na Aldeia". (Pelo título percebe-se de onde lhe veio a inspiração).

Ainda pensando nas excelências, e por isso e por mais aquilo, bateu saudade do meu avó Bernardino, pois se vivo fosse, e me visse “mocoronga” depois de uma bela carraspana, olhava pra mim, chamava pra si, apertava o meu braço nada magrinho (era gordinha quando garota) e dizia: aprenda mais esta, citando Suetônio: Vulpes pilium mutat nom mores. “A raposa muda o pêlo, mas os costumes não”.

AO APAGAR DAS LUZES



Havia um Ser. Havia uma canção no ar... Não era o bolero de Ravel, era L’indifferént com Jessye Norman. O Ser não era nenhuma Capitu de olhos de ressaca, obliquo e dissimulado procurando saída para seus sonhos. Nem tampouco nenhum Werther querendo entender o coração humano nem a queixar-se dos homens, que sofreriam menos se não se aplicassem tanto a invocar os males idos e vividos, em vez de esforçar-se para tornar suportável o presente .


Era apenas um Ser patético, que na sua quase ignorância nas coisas do amor e na sua lerdeza de Quasímodo, agarrava-se a um punhado de palavras escritas, procurando entender o significado delas, pois soavam tão destoantes das que já lhes foram ditas. Aos ouvidos do Ser, todas as palavras machucavam, mas apenas uma mais que as outras e que tanto lhe confundia: louco! Louco! Louco! Por que louco! Por ter amor dentro de si? Por não enxergar a maldade? Por confiar nas pessoas? Por ser tido como bonzinho? Para o Ser, quão difícil estava sendo desviar o olhar daquelas palavras, mas ele sentia que precisava se desligar delas, estavam carregadas de lembranças outras e exigiam dele que fossem sufocados sonhos e bem querer... Ao seu alcance um Caneletto não aberto, não era de vinho que precisava o Ser, ele precisava embriagar-se com aquelas palavras, elas precisavam embotar o seu cérebro, queimar os seus neurônios. Não foi sem dificuldade que o Ser levantou-se. Madrugada já se fora e logo mais a cotovia canta. Ao apagar das luzes, cortinas cerradas, na escuridão do quarto tropeçou em algo, segurou o palavrão e jogou-se por sobre a cama, braços cruzados sob a cabeça virada para um lado, atento ao irritante tic tac do relógio, que foi arremessado contra a parede. Reinando o silêncio, os olhos foram fechados esperando o dia raiar, afinal, um outro dia surgiria e um outro dia é sempre um outro dia...


E o outro dia surgiu , tão calmo e tão sereno, que ao Ser, só coube - observando o quarto em desordem, uma cadeira num canto virada e o sem número de papeis amassados, jogados por todo o ambiente - indagar: VIVI ISTO? SE VIVI, ESQUECI. Cadeira levantada, papeis apanhados e sem mais serem lidos, atirados um a um na cesta do lixo... E com passos firmes e decididos, caminhou o Ser em direção à porta, destrancando-a e saindo para oferecer o seu primeiro sorriso e desejar um bom dia a quem primeiro surgisse à sua frente. E deu bom dia e sorriu para o pequeno jornaleiro.

SOBRE O MEDO



Existem tantas maneiras de sentir medo e muitas vezes ele se manifesta através da angustia, do pavor da inquietação, temor e outras tantas formas inquietantes.
E o que dizer do medo que se passa a sentir de alguém? Há quem afirme que possa parecer um paradoxo, mas quando estamos sentindo medo de alguém, provavelmente este alguém também está com medo de nós. Afinal, somos todos iguais.

Li de Fábio Ferreira Balota, uma descrição sobre o medo, que transcrevo abaixo:
“ O medo é o movimento fantasioso que a mente faz, na tentativa de repelir, de impedir que um acontecimento indesejável do passado ocorra novamente no futuro. Esta repulsão acaba por reforçar a lembrança da dor. É o apego a dor, apego a idéia da dor, da punição, da vergonha, da humilhação. Tal repulsão é o desejo, a expectativa, a ansiedade de que estas coisas não se repitam. Tal repulsão é o desespero para evitar que venhamos a sentir dor , que venhamos a sofrer. É o apego ao pior, ao ruim”.

E acrescenta: “ O medo nasce da comparação entre nossas ações e nossos conceitos, padrões e valores ou das comparações que fazemos entre nós e as outras pessoas o que na realidade também acaba por se remeter a nossos padrões, conceitos, valores, aos nossos julgamentos”.
No meu entender, o mais importante sobre esses conceitos sobre o medo é o que diz: “ O medo embota a mente. Impede-nos de agirmos de forma correta, de forma reta, impede-nos de falarmos diretamente e nos leva à mentira e à falsidade . Com medo não podemos ser retos”

A propósito, antes de se deixar levar pelo medo, é bom nunca esquecer , também, que as lentes dos óculos determinam o modo como você percebe a realidade, segundo Jostein Gaarder. Ainda Gaarder, tudo o que você vê é parte do mundo que esta fora de você mesma; mas o modo como você enxerga tudo isto também é determinado pelas lentes dos óculos e se estas forem vermelhas/escuras, você não pode dizer que o mundo (ou pessoas)é vermelho/escuro ainda que neste momento ele pareça vermelho/escuro. Mas isto são termos comparativos de visão entre racionalistas e empíricos. Disto falarei noutro momento

CRER, FAZER CRER, EIS A QUESTÃO



O meu pensamento está disperso e vadio e nesta condição iniciarei o texto de hoje, se tropeçar nas palavras, paciência, é que também estou me sentindo tal qual Manuel Bandeira quando afirmou: “ Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”.

E esta coisa pensante que sou, que não sabe o que quer , que em nada crer e que só vive enleada em tantas dúvidas e quanto mais procura instruir-se mais descobre a sua santa ignorância, quer saber de quem sabe se quando não existe a razão de crer, como é que fica a vida?
Alguém soprou no meu ouvido parafraseando o chato do Shakespeare: crer, fazer crer, eis a questão.

Quem me fará crer? Que venha a mim “Fiat Lux” e com ela palavras que dêem prazer aos meus ouvidos, prendendo-me e subjugando-me e que os meus sentidos coloquem-se atrás da razão e não se neguem a acompanhá-la para que eu possa deixar de ser para mim própria esse enigma que sou.
Enquanto luz nenhuma alcanço, fico aqui brigando comigo mesma e tentando me situar entre os filósofos do barril (os cínicos) de Antístenes e os estóicos de Zenão, pois estes acreditavam que todas as pessoas são parte de uma mesma razão universal e que cada pessoa é um mundo universal em miniatura, um “microcosmo”, reflexo do “macrocosmo”. Mas também posso descambar para o lado dos epicurus, filosofia criada por Epicuro, baseada no pensamento de Aristipo, que acreditava que o objetivo da vida seria obter dos sentidos o máximo possível de satisfação. Afirmava também que o prazer era o bem supremo e a dor, o mal supremo. Essa filosofia libertadora resumia-se em “quatro remédios”:

Não precisamos temer os deuses.

Não precisamos nos preocupar com a morte.

É fácil alcançar o bem.

É fácil suportar o que nos amedronta.

E por aqui fico. Eu e o Mundo de Sófia...

PERDIDA NO JARDIM DE CAMINHOS QUE SE BIFURCAM



Hoje amanheci perdida no “Jardim de caminhos que se bifurcam” de propriedade de Jorge Luiz Borges, e não faço a menor questão de ser achada . Por favor, ninguém se dê ao trabalho de chamar o Corpo de Bombeiros. Estou fugindo que nem o snoopy, cansada deste mundinho, de me sentir tautológica, de explicar por formas diversas, a mesma coisa: não sou isso; não fiz isso; não faço isso; quê quê isso; não quero isso; quem fez isso; por que isso; isso, isso, isso; de ser indagada “se em B influem A ou C; em Aproximação a A, pressente ou advinha através de B a remotíssima existência de Z. a quem B não conhece”. Agora, eu indago do leitor/leitora se já leu The Secret Fount (1901) pois, desavergonhadamente, confesso, que puxei o aspeado ai de cima, de lá, com a aquiescência do dono do Jardim.

E nessa minha fuga percorri alamedas, transpus corredores, ouvi conversas estranhas sobre espelhos, considerados monstruosos e tão abomináveis quanto a cópula, porque multiplicam o número de homens. Coisa de louco, ou melhor, pensamento dos heresiarcas de Uqbar, relatado por Bioy Césares. Deixa pra lá, coisas saídas da cachola do escritor Jorge Luiz Borges
Cáspite! Mas esta minha crônica está saindo mais complicada do que o texto da criativa escritora AnaMarques: O Testículo Que Não Queria Sair , que, para comentar, pedi help à autora. Quem quiser fazer um teste de inteligência vá lá na Ana, leia o texto e descubra no final, se é o cachorro ou o testículo quem fala.

E assim, caminhando, cheguei às terras baixas - terras baixas, sim senhor, ta lá escrito, de Tsai Jaldún... Estou cansada, se ao menos encontrasse um meio-fio eu sentaria e jogaria pedras a esmo. Mas, também, serviria a margem de um rio... Quando falei em terras baixas me veio à mente “terras elevadas ” da Ana, (sem sobrenome) personagem de que muito gosto da escritora Marília Paixão e em homenagem a tal personagem, o rio bem que poderia ser o Mandu, ai eu penduraria a minha harpa num ramo de um salgueiro, se nessa margem tivesse, sentaria e choraria... Mas, espere ai, eu choraria por quê ? Por isso? Isso? isso? Ah, tenha paciência, choro nada!

SAUDADE DE UM BEIJO QUE NUNCA DEU



Sinceramente, como pode alguém sentir saudade de um beijo que nunca deu? É do que está se queixando o Nelson Gonçalves de sua amada Maria Betânia, musa da canção que interpreta e que a FM executa no momento. Coisa do amor e este tema não é da minha seara, aqui no Recanto tem quem domine o assunto , com a maestria de fazer inveja a qualquer expert , as escritoras Evelyne Furtado (de sensibilidade à flor da pele), que não me deixa mentir, tamanho o conhecimento de causa e a Marília, que apesar de sua versatilidade e capacidade de abordar vários temas e cujo sobrenome: Paixão, parece autorizá-la, junto com o seu jeito peculiar de sentir e dizer as coisas, tecer considerações que envolvem tal sentimento e que muito agrada a nós leitores.

Contudo, didaticamente, posso até falar sobre o beijo. Duvide não, viu? Veremos como me saio:
Quantos beijos imagina o leitor, que trocamos no decorrer de nossas vidas? No mínimo 24 mil beijos! Com relação a “química”, que envolve o beijo o que acontece com os nossos sentidos? Aciona 29 músculos, acelera o ritmo cardíaco de 60 a 150 batidas por minuto, produz uma forte descarga de adrenalina e fortalece os pulmões.

Como surgiu o ato de beijar na boca? De acordo com alguns cientistas o beijo teria se originado no costume das mães primitivas de passarem a comida triturada em sua boca para a boca de seus bebês – uma forma rústica de fazer a papinha ( só que os tais cientistas não explicaram até hoje, porque o hábito de se unir as bocas teria sido mantido mesmo após essa antiga técnica de alimentação ter desaparecido)

Interessante também, é a descoberta do homem da idade da pedra. Ele acreditava que o sal lhe devolvia as forças nos dias de calor e percebeu que poderia obtê-lo lambendo a pele e também os lábios de seus semelhantes.

Demorou alguns séculos até que a teoria da psicanálise fundamentasse que as pessoas encontram prazer através do beijo, simplesmente porque a boca é uma fonte de excitação, assim como outras partes do corpo, não necessariamente próximas dos órgãos genitais. Só que ainda não houve uma explicação quando e porque o beijo amoroso do casal humano se diferenciou do beijo entendido como sinal de afeto ou de reverência.

E para encurtar esta conversa fica dito por mim, que beijar é um ritual inspirado, solene, apaixonado e gentil e constitui há séculos uma forma de transmitir sentimentos entre dois seres que se amam.
Fonte de pesquisa: Tudo - Livro do Conhecimento – Editora 3 .

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

VOA MINHA LIBERDADE



Já não me sinto Sísifo castigado pelos deuses, rolando pedra acima, vendo-a descer encosta abaixo para erguê-la de novo, onde o esforço representa o nada.

Agora me sinto livre, estou pronta para assumir o poder sobre mim mesma, pelo que represento e por quem represento. E eu represento a minha própria liberdade de expressão. Então, eu me permito pensar e falar, e plagiando Jessé vos digo: “Voa minha liberdade/ no estalo do meu grito/ quero ver teu infinito / neste azul sem dimensão...” Só não me permito sonhos desvairados e nem penar, pois a minha liberdade não está mais na dor.

Assim, mudo eu, a “vida, vidinha, vidona”, mas as portas cerradas permanecem fechadas e o que sobra é a diáspora. Afinal, quem matou a paz foi Raskolnikov e não eu. (verdade, Dorian, que está no céu?)

O pensador católico Alceu do Amoroso Lima, sentenciou quando vivo: “Somos todos patéticos”. Acredito que sim. Olhe eu aqui, repetindo o fraseado de um homem de nome pomposo, Dom José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo não salvo a mim mesmo” (sem conotação metafísica). Tem quem afirme (Nivaldo Cordeiro), que depois do “Penso logo existo” de Descartes, esta é a síntese filosófica mais perfeita de um pensador.
Provando mais uma vez o quanto admiro os loucos, deixo de Nietzsche o “VI Selo” (Assim Falou Zaratustra):

Se a minha virtude é virtude de bailarino, se muitas vezes pulei entre arroubamentos de ouro e de esmeralda;
Se a minha maldade é uma maldade risonha que se acha em seu centro entre ramadas de rosas e sebes de açucenas, porque no riso se reúne tudo o que é mau, mas santificado e absolvido pela sua própria beatitude;

E se o meu alfa e ômega é tornar leve tudo quanto é pesado, todo o corpo dançarino, todo o espírito ave: e, na verdade, assim é o meu alfa e ômega;
Como não hei de estar anelante pela eternidade, anelante pelo nupcial dos anéis, pelo anel do regresso das coisas (...)