quinta-feira, 5 de junho de 2008

A MOÇA QUE PERDEU O OLHAR

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Estava lá a moça, meio tristonha depois de muito procurar o olhar que perdeu e com ele a sua alegria de viver, encaminhando-se para o pensatório, batendo a porta atrás de si. Até que tentei ajudar na busca do seu olhar, afinal, amigo – acho eu - é que nem aquelas coisas que o padre manda repetir na hora do casamento: unidos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e por ai vai. Bati na porta, ou bati à porta, sei lá eu , do pensatório, mas qual o quê, fechado estava, fechado permaneceu. Que é que eu fiz? Pus-me feito cão de guarda plantada no chão perto da porta.

Incomodava aos meus olhos um raio de sol que transpunha uma fresta na parede. Mas me mantinha firme no desejo de ajudar a moça e enquanto a porta do pensatório não abria, ocupei-me em contar e recontar os dedos dos pés e das mãos e já ia eu na casa do undécimo e nada da porta abrir.

Enfastiada, passei a enrolar o pensamento e já que falei no sol quis saber do Deus da moça, sim, por que ela, a moça, podia ter todos os defeitos do mundo, mas ela não era descrente, acreditava no Senhor lá do Alto, no céu, no inferno, no purgatório e até em alma do outro mundo! Mas, como ia dizendo, quis saber do Senhor Deus da moça dessa preferência que Ele tem pelos círculos: é lua redonda, planetas redondos, estrelas redondas , é assim que as vejo, nada de pontas e que para variar, por que Ele não fez o sol quadrado? Outra coisa: por que não de crocodilo as lágrimas que começam a rolar das calotas polares? Vou aproveitar para mandar um adeusinho de despedida para os ursos brancos. Esperai, com essa o Deus da moça não tem nada a ver, é coisa nossa.

E quem disse que a moça que perdeu o olhar estava preocupada com detalhes? A crise era existencial, mais profunda, estava tão virada para dentro de si mesma, mas tão virada que a gente até podia ver as costuras do seu avesso e olhe que quem a costurou não usou de profissionalismo.Foi ai que me deu uma vontade danada de dá uma espiadinha lá por dentro e mesmo sem ser autoridade no assunto parti para uma “autopsia” nos órgãos vitais. Fígado: barbaridade! Alinhavaram e deixaram vazar a bílis, que derramou e se tinha alguma coisa doce dentro dela ficou amarga. Pulmões: esses alinhavaram de tal forma que ela já não respira, só suspira. Coração, Deus dela! Fizeram deste, travesseiro de espetar agulha, perdeu sua função precípua: AMAR

Perdeu sua função precípua: AMAR. Não..., parece que aqui não cabe ação de amigo... É coisa pra príncipe encantado, para um “Dom Sebastião” o eterno esperado, dotado dos atributos e capacidade para retirar as agulhas e dá vida a sentimentos contidos , devolvendo assim, à moça, o seu olhar e a sua alegria de viver.

Vou rezar pra isso...


segunda-feira, 26 de maio de 2008

UM POETA EM CADA ESQUINA

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Quem disse foi Apollinaire: “Piedade para nós, que exploramos as fronteiras do irreal”.Apollinaire era poeta. Poeta igual aos que dizem existir em cada esquina de Natal; o que acho belo, belíssimo.

Para mim a profusão de poetas não incomoda nenhum pouco, muito pelo contrário, quisera eu que a humanidade fosse constituída deles, pois como acreditava Pablo Neruda, eu também acredito, que “a poesia é sempre um ato de paz. O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha”.

Há quem defina, também, todo ser humano como “um poeta-trágico”sustentando que: poeta, porque é iluminado pelo senso de beleza; trágico, porque é ensombrecido pela consciência de sua finitude.

Contudo, houve no passado alguém que torcia o nariz para tal profusão. Vejamos o que pensava esse alguém, membro fundador da Academia Brasileira de Letras de nome Sílvio Romero, que assim expressou o seu ponto de vista:

“Um exagerado número de poetas, num povo dado, é claro indício da sua defeituosa organização social e da pouca profundeza e seriedade de sua cultura. O Brasil é a mais eloqüente prova deste fato nos modernos tempos; se uma imensa multidão de fazedores de versos fosse prova de força, cultura, progresso, adiantamento, riqueza e bem-estar, seria o primeiro país do mundo. E não é porque sejam todos maus poetas, são, ao invés, bons em grande número...”

Registrado o pensamento de alguns, tenho diante de mim poemas de poetas que fui encontrando nas voltas que o mundo dá, cujos versos me tocam profundamente, como esses do poema de Yasmine Lemos,“Hora da Colheita” – Pensava ser pedaços de grãos. / Ouvindo o seu canto descobri: / Não sou metade / Sou inteira / Eu fui. / E voltei / Voei / Eu era / E gostei / E quero/

Continuar sendo isso: / Corpo e terra / Alma e semente / Verdade plantada / Amizade enraizada / Defeitos podados / Retirados os gostos amargos / Fazer a colheita / Colher os frutos / Comermos juntos. / Felicidade.

De meu amigo e poeta Assis Fernandes, os versos de seu poema “Despedida” –Adeus amigo! /Chegou a hora de entender o tempo, /o sentido das coisas, / o limite do espaço. / Não me resta senão dizer adeus! / Tudo caminha no correr das horas / e os dias passam / sem retorno ou pausa; / um minuto, sequer, não pode ser roubado / Tenho de ir – as malas estão prontas, / arrumei os volumes com cuidado. /Transporto o mais pesado – o de saudades - , / mandei seguir em frente o de esperanças. /Devo partir, pois já chegou a hora / Quero que saibas, enfim, e para sempre, - / o mais belo capítulo, o da amizade, / fomos nós, / tu e eu / que escrevemos. (Asas e Vôo – poemas)

Seria injusta não recordar minha querida amiga e poeta Welshe Elda, versos de seu poema “Vida”. Passar a limpo à vida / Esgotar no ralo impurezas / Espremer, descarregar culpas / De um corpo e alma atormentados/ Sentir leveza e transparência / Gostar da nova morada / Deixar fluir sentimentos / Sem culpa /Sem tormento/ Com vida. ( Mudanças – poemas).

São tantos e tão bons poetas, que dá vontade de sair ai, feito o Paulinho da Viola tomando benção para todos eles.




quinta-feira, 15 de maio de 2008

EU E O MONGE

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Fim de tarde, nada interessante pra fazer, ninguém pra conversar... Então, o que me resta fazer...? Já sei, vou pro terreiro, sentar na pedra, botar uma mão no queixo e meditar. E lá vou eu. Medita pra lá, medita pra cá para chegar à conclusão de que estou me tornando uma pessoa que pode muito bem ser enquadrada como desmancha-prazeres, dessas que parece que até a alegria dos outros incomoda. Não sou festeira, não gosto de Natal, casamento, feriado, batizado nem tampouco de carnaval; como o maluco beleza, acho tudo isso um saco. Vivo tentando consertar o mundo sem sair do canto nem dar um prego numa barra de sabão, esperando que a sociedade se transforme e funcione assim: “ao passo que ninguém é pobre, ninguém deseja se tornar mais rico, nem tem qualquer receio de ser empurrado para trás pelos esforços dos demais em se lançarem à frente”. (Stuart Mill, 1848).

Esta conversa de não gostar de festas me fez lembrar o monge Savonarola. A História nos diz, que Florença antes dos idos de 1495, era uma cidade de povo alegre, que gostava de festas, jogos e carnaval, aí apareceu um monge de nome Savonarola e acabou com a alegria dos florentinos. Quer saber como? Então lá vai:

Em 1495, quem reinava na cidade de Florença era Jesus Cristo, (declarado rei pelo Conselho da cidade) Existia nessa época um monge de nome Savonarola, de um fanatismo religioso incomum e quem de fato exercia o verdadeiro poder da República. Sua palavra apaixonada convertia os libertinos. Fez suprimir as festas e jogos, substituiu os cantos carnavalescos por cânticos religiosos, isso, porém, graças a um sistema de espionagem e delação que submetia Florença a uma ditadura espiritual sufocante. Em 1497 queimaram-se os símbolos do alegre passado florentino. Para a fogueira lá se foram instrumentos musicais, livros de Petrarca e Boccacio e obras de arte. Alexandre VI, que era o papa da época e foi acusado de costumes dissolutos, por conta do fanatismo do monge ameaçou Florença com a proibição da administração dos sacramentos. Os ricos burgueses temendo o confisco dos bens dos mercadores e banqueiros florentinos situados nos domínios do papa abandonaram Savonarola que, com mais dois dominicanos foram condenados à morte na fogueira por um tribunal onde participavam representantes do papa.

Taí no que deu o ser do contra do monge Savonarola. Sei não... Mas para quem tem medo de fogo dá o que pensar. E eu já pensei: de hoje em diante vou modificar o meu modo de vida , me tornarei arroz de festa .


sábado, 3 de maio de 2008

NÃO ERA BEM O CENÁRIO QUE EU QUERIA




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Eis que é chegada a hora de sentar-me diante desta maquininha infernal e batucando suas teclas, tentar coordenar o palanfrório.

Enquanto os dedos não recebem os impulsos emitidos do cérebro (oco), estico o pescoço em direção da janela. Que paisagem insípida, cansativa este quadrado me oferece: telhados sujos – que não são de zinco – de tão difícil acesso que desestimula até a subida dos gatos no cio; fundos e mais fundos de casas de gente que não conheço.

Esta é a fonte de inspiração que me deparo neste momento.Foi ai que percebi que este não era bem o cenário que eu queria...E senti inveja sei lá de quem... Ou talvez, quem sabe..., dos que perambulam por New York, mas precisamente pela calçada do “Untitled Space Express Bar”. Nesse café você encontra de tudo: diretores, compositores, pintores, escultores e escritores, todos tentando fazer coisas para se justificarem vivos. (Gerald Thomas que o diga)

Ah! Se é pra sentir inveja, que seja dos zés brasil, os que fazem reverência com o chapéu na mão, olhar para o alto em busca de Deus, são os que vivem porque Deus quer; que morrem porque Deus quer; os que acreditam que, se a seca castiga é porque Deus quer; se chove é porque Deus quer; se comem ou passam fome é porque Deus quer.

Ainda não atingi esse estágio. E, nesse pensar vadio, só me resta sair por ai e fazer uma saudação mentirosa a um valentino qualquer, como fazia o mais inquieto e atormentado do que eu: Santo Agostinho, que em uma de suas andanças encontrou um pobre mendigo bêbado que ria e fazia arruaça. Sabia o Santo que a alegria do bêbado não era autêntica. Mas pôs em dúvida a alegria que ele procurava com as suas ambições e enredos tortuosos. Numa noite o bêbado digeria o vinho e sua bebedeira passaria; ele, Agostinho, ao contrário, iria dormir e acordar com o mesmo tormento, hoje, amanhã, quem sabe até quando...

O que me anima é que o Agostinho chegou lá...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

MANEIRAS DE CONVERSAR

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Ultimamente Ando conversando muito sobre o passado, o que está me deixando cismada... Será que este meu interesse pelas coisas idas, significa a velhice chegando e eu chegando ao fim? Está certo que eu não sou do tempo em que a maionese (mahonaise) foi inventada. Abro aqui um parêntese para mergulhar na História e dizer que essa deliciosa invenção aconteceu por acaso: foi durante a Guerra dos Sete Anos, quando o marechal duque de Rechelieu capturou a ilha de Minorca após sitiar com sucesso o forte de Mahon e derrotar a esquadra inglesa. Depois DA batalha, tudo que o mestre-cuca conseguiu encontrar para alimentar a tropa foram ovos e óleo com OS quais deu ao mundo um novo molho, que passou a ser chamado de maionese. O rei DA época era Luís XV e quem mandava na França era a maítresse em trite madame de Pompadour.
Depois desta exibição de cultura inútil e já que falei em conversa, me vem à mente o folhetinista José de Alencar, que antes de ser elevado à categoria de romancista famoso, tinha na corte o seu canto de jornal e num de seus escritos fala das muitas maneiras de conversar e exemplifica:
Os mudos conversam por meio de sinais, razão porque nunca dizem asneiras.
Os gagos conversam fazendo caretas mutuamente e arremedando um ao outro; a única diferença que há entre else e dois amigos é que fazem caretas com a boca, enquanto OS outros as fazem com o pensamento.
Marido e mulher conversam com amuos e espreguiçamentos; quanto mais conversam menos se entendem, porque falam línguas diferentes.
Os políticos conversam enganando-se uns aos outros.Os homens de salão conversam como relógio de repetição ou realejo de valsa. Os diplomatas conversam para não dizer nada. E há até OS indivíduos que conversam para ter o prazer de ouvir a sua própria voz: são OS narcisos DA nova espécie.
Um ministro quando está para se proceder a uma votação importante das Câmaras, conversa com a cara dos deputados e segundo as vê mais ou menos carrancudas, advinha a oposição.
E finalmente, as velhas, que conversam contando histórias do seu tempo, tornando-se assim, uma espécie de calendário manuscrito, em brochura.
Vê meu caro leitor, minha cara leitora como José de Alencar tem razão?Para crônica de hoje, a velha senhora aqui, foi buscar acontecências nos anos 1756/1856.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

NOVIDADE? NENHUMA

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Uma novidade para a semana? Nenhuma. Mas, para não perder o destino das mãos, vou eu cavaquear com o pensamento dos outros, ou melhor, atirar com a pólvora alheia.

Para os de bem com a vida, que primeiro fale Horácio, Ode XXVI: “assinalemos este dia entre os mais felizes, não se poupem ânforas; e como Sálios, descanso não demos aos nossos pés”.

Descanso não demos aos nossos pés, isto porque pela boca de Sancho, Cervantes disse e está lá no cap. XLIX de D. Quixote: “ Cada qual abra bem o olho e fique alerta, porque o diabo entrou na dança e se lhe derem ensejo, ver-se-ão maravilhas. Virai-vos em mel e as moscas vos comerão.

Se o diabo entrou na dança, é bom dar ouvidos a Stendhal quando afirma em o Vermelho e o Negro, cap. XX: “ São conhecidas as suas tramóias; mas as pessoas interessadas em reprimi-las estão de sobreaviso”.

Mesmo estando as pessoas de sobreaviso, não custa nada lembrar o que diz o príncipe de Ligne: “ Muitas vezes, somos iludidos pela confiança; mas a desconfiança faz que sejamos por nós mesmos enganados”.

Se somos iludidos, “Há de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hipocrisia”. Quem nos diz é Cordélia em o Rei Lear. Ato I de Shakespeare.

Há os que escondem a hipocrisia e há os que semeiam promessas, que no dizer de Ovídio, em A Arte de Amar, é o seguinte: “ Semeai promessas – a ninguém causam desfalque e o mundo é rico de palavras. A esperança quando outros nela crêem faz ganhar muito tempo”.

Enquanto o mundo é rico de palavras, o “ Próprio do espírito sorumbático, é andar sempre calado; tagarelar é o encanto e a alma da vida”. Diz La Chaussée.

Ora, se tagarelar é o encanto e a alma da vida, bem diz Lavagne: “Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatório, mentiras e bisbilhotices”.

‘.


terça-feira, 1 de abril de 2008

E EU NEM MORO EM YONVILLE

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O dia chuvoso, a hora 16:00 , a vida quase parando e eu pensando feito Fernando Pessoa: “eu não sei pra onde vou mas não vou por ai”. Só sei que não posso mais correr na chuva nem tampouco sentar na calçada de canudo e canequinha e fazer bolas de sabão.

Daqui a pouco chega a hora do Ângelus e eu por certo vou sentir saudades da Ave-Maria do padre Eyamard com fundo musical de Augusto Calheiros cantando: ...Cai a tarde tristonha e serena em macio e suave langor...

A chuva continua..., a hora 18:00. Na minha saudade, as tardes serenas; só me resta pedir à mocinha que me serve, o meu rosário e debulhando, dizer para Maria que, ao contrário dela, não tenho graça nenhuma.

Toda essa melancolia e eu nem moro em Yonville pois, segundo o mestre do Realismo francês, e eu ai me refiro a Gustavo Flaubert, lá a vida era monótona e sem atrativos, dos que por lá residiam apenas Ema Bovary foi capaz de escapar à mediocridade do ambiente, enfrentando os preconceitos e perseguindo os próprios sonhos e aspirações. Ta certo que a coitadinha acaba destruída: tomou uma dose excessiva de arsênico e para desespero de Carlos, seu marido, foi rastejar no vale dos suicidas. Mas é bom que se diga: Ema matou-se menos por ser adúltera, do que pela incapacidade de enfrentar as dívidas contraídas para salvar o amante.

Maiores detalhes sobre Ema? Fácil, fácil, é só ler Madame Bovary, de Gustavo Flaubert, que passou cinco anos de trabalho incessante na elaboração deste romance (1851/1856), gastando noites em busca de um objetivo, semanas atrás de uma frase, escrevendo a reescrevendo a mesma página dezenas de vezes, buscando assim a forma perfeita, a palavra certa. Valeu o esforço do autor, pois Madame Bovary o tornou em pouco tempo um dos romancistas mais célebres da França. Além de ganhar um ruidoso processo, uma vez que a censura da época considerou a obra imoral. A verdade porém, afirma um dos biógrafos de Flaubert, o romance atacava a moral burguesa posta a nu em sua fragilidade, convencionalismo e falsidade. E, quando o autor ao final do livro, dá como vitorioso o mais estúpido dos personagens retratados, o farmacêutico Homais, protótipo do interesseiro falso que se presume intelectual, a sociedade burguesa sentiu a força do ataque e seus representantes no poder, trataram de punir o atacante. O autor foi absolvido e o livro teve a sua edição esgotada em pouco tempo.

Perguntado a Flaubert quem era Madame Bovary, respondeu: “Madame Bovary sou eu”.

A chuva persiste e a música de Antônio Vivaldi: “The Four Seasons” –Concerto n. 4 – Winter (allegro nom molto), me cria uma atmosfera de paz. Quanto a hora, já passa das 2:00 da madrugada. Pensando em Madame Bovary, começo a contar carneirinho ...


terça-feira, 25 de março de 2008

PAZ E CONSCIÊNCIA

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Lá pelos idos de 1991 o papa João Paulo II proferiu uma frase que lembro até hoje: “Se queres a paz, respeita a consciência de cada um”.

Hoje, digo cá pra meus botões: ah, finada Santidade, está cada vez mais difícil seguir à risca as vossas sábias palavras. As turbulências tomam conta de nós... A paz, nem a individual busca-se mais; atingimos tal estado de desconforto, que por mais paradoxal que pareça, quando tudo vai bem, com certeza, alguma coisa está errada. A sensação de paz angústia, a calmaria mexe com os nervos.

Já sobre a consciência, disse – e também faz tempo – D. Lucas Moreira Neves: “ Na medida em que é reta, ela é imantada e atraída pela verdade e, à luz da verdade, ilumina os caminhos das pessoas, segreda-lhe no fundo da inteligência e do coração o que é bom e deve ser praticado e o que é mau deve ser evitado, estimulo-a a fazer o bem e evitar o mal”.

Medito sobre as palavras de D. Lucas e sinto quão difícil é achar-se hoje em dia, na consciência humana essa condição de reta, esse alinhamento direcionado para o bem, iluminado pela luz da verdade. A sensação que se tem é que a bússola quebrou e as consciências estão à deriva, amortecidas. A esta altura, sem a luz de um farol, não há como se achar o norte do bem. Tenho medo do despertar de todas elas, pois à mim parecem mísseis cujas ogivas têm como explosivos de alta potência, a desumanidade.

E neste pensar vadio, sem nada o que fazer, nem, feito o cronista Vicente Serejo, pregos nas paredes, que não são antigas, para contá-los e imaginar quais foram de cada um a serventia. A casa é nova, conheço as mãos que puseram cada um em seu lugar. O imaginário não funciona, não existem sombras, é tudo tão claro, nem assombração de outro mundo aparece. A única assombração sou eu mesma, que me arrasto escada acima, escada abaixo, à procura de não sei quê; talvez de um sótão ou de um porão..., não sei se foi num desses lugares que deixei um baú velho e dentro dele a paz que perdi.


segunda-feira, 17 de março de 2008

AINDA SE LÊ KAFKA ?

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Que mal pergunto, hoje em dia, onde o cidadão comum continua a ser apenas um mero detalhe, ainda se lê Franz Kafka? Sim, Kafka, aquele autor alemão do primeiro período da literatura contemporânea, que escreveu entre outros contos “A Metamorfose”, “ O Artista da Fome”...

Neste último conto, Kafka retrata a vida de um jejuador numa época em que todos mostravam interesse e não faltava quem ficasse dias inteiros sentado diante da pequena jaula olhando assombrado “aquele homem pálido de costelas salientes que, desdenhando um assento, permanecia estendido na palha esparsa pelo solo, e saudava às vezes cortesmente ou respondia com forçado sorriso às perguntas que dirigiam a ele, ou tirava um braço por entre os ferros para fazer notar sua magreza, tornando depois a sumir-se em seu próprio interior onde permanecia olhando para o vazio com olhos semicerrados, e apenas de quando em quando bebia em um diminuto copo um golezinho de água para umedecer os lábios”. Havia vigilantes permanentes, que tinham a missão de observar dia e noite o jejuador para evitar que pudesse alimentar-se. Jejum esse, que durava quarenta dias.

Um belo dia o “artista da fome” viu-se abandonado pela multidão ansiosa de diversões, e sem outra alternativa foi parar num circo. Com o passar do tempo, sem despertar interesse, foi esquecido dentro da jaula. Uma ordem seca do inspetor ordenou que a jaula fosse limpa. E assim o jejuador foi enterrado junto com a palha. Mas na jaula puseram uma pantera jovem, formosa fera. Nada lhe faltava. Seus guardas traziam a comida que lhe agradava. E a alegria de viver brotava com tão forte ardor de sua garganta que não era fácil aos espectadores fazer-lhe frente. Mas venciam o próprio temor, apertavam-se contra a jaula e de modo algum queriam afastar-se dali.

E tudo continua como dantes... Este texto de Kafta foi escrito entre 1913/1921. Segundo o crítico literário George Steiner, nenhuma voz foi testemunha mais verdadeira da natureza de nossos (eternos) tempos.


sexta-feira, 14 de março de 2008

A RESPEITO DE NADA



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Já dizia o escritor Scott Fitzgerald, que “Suave é a Noite”, com o que concordo e, entre um bocejo e outro, é que me encontro aqui entregue a reflexões vazias a respeito de nada. E o nada para mim neste momento é o assegurado por Luiz de Camões de que “Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos”.

A propósito, não é que o senhor dos Lusíadas tem lá sua razão? Entra ano, sai ano e quais as perspectivas reais no campo político e pessoal para meio mundo se tudo permanece no mesmo “statu quo”: error, faut, mistake, incorrectness, wrong, blunder, oversight, o escambau pra tudo quanto é lado e nós convivendo e aceitando placidamente tudo que nos é servido de bandeja, parecendo - como afirmou certa feita o saudoso Tancredo Neves - mais um bando de deserdados cujo patrimônio é a esperança.

E, neste pensar vadio, vou continuar atirando, - usando para tanto, pedras e estilingues dos outros – embora este meu jeito de ser desagrade a gregoS e troianos. Mas, vejamos quem me empresta a primeira pedra... Diante da atual “conjuntura” ( ó palavrinha desgastada, senhor!) que tal uma acertada na testa com uma pedra de D. H. Lawrence, autor de “O amante de Lady Chatterley” por ter dito: “Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles – e isso porque temos de viver, seja qual for a extensão do desastre havido”.

Vai você agora, Voltaire, atira a sua! E não vale plagiar... Lhe dou o mote: FELICIDADE. Diz lá: E assim falou Voltaire: “ Felicidade é um estado de espírito; por conseguinte, não pode ser duradoura. É um nome abstrato composto de algumas idéias de prazer”. Ai, ai, indago eu: Quem há de discordar...?

Quem está me espreitando aqui, todo tedioso. jogando uma pedrinha pra cima é o Sinclair Lewis. E eu vos digo: Fala grande filósofo! O vosso mote será o TÉDIO. E ele falou: “ E se há solução para o tédio, não o conheço. Se conhecesse, seria o primeiro filósofo que teria inventado um remédio para a vida.” Coisas de filósofos...

E uma pedrinha no amor, quem jogará? Vem cá Eça de Queiroz, “canta” esta pedra aí! E o “portuga” mandou ver: “ O amor é essencialmente perecível, e na hora que nasce começa a morrer”. Será...?

Fica triste não seu Machado, a última pedra é vossa. Aqui até que cabe o vosso Ó temporas, ó mores, para culminar com a sentença “ Tudo acaba leitor; é um velho truísmo a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo”. ACABOU.


domingo, 9 de março de 2008

PARA QUE SERVE O TEMPO?


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O quadro acima é de Goya, representando Saturno engolindo os próprios filhos com medo que um deles lhe tomasse o trono. Hoje, sem mais filhos para engolir, esse deus velho devora o tempo e com ele os anos, meses, semanas, dias, horas e de sobremesa nós pobres mortais.

Para que serve o tempo? Einstein explicou que o tempo existe para que as coisas não aconteçam todas ao mesmo tempo .

Alguém escreveu e eu li num desses blogs da vida que trata de astrologia e cabala, que o senso de responsabilidade é que nos faz perder o nosso tempo. Sempre corremos de um lado para outro, a fim de sermos sempre os melhores profissionais, os que ganham mais, os mais importantes, aqueles que têm o melhor cargo... E nisso a vida passa, os filhos crescem, os amigos mudam de endereço, a gente envelhece e deixa de fazer coisas que seriam muito importante e que nos fariam muito bem. Tudo porque algo dentro de nós nos compele a provarmos nosso valor, a mostramos o quão somos capazes.

Ainda sobre Saturno, a quem tanta “devoração” lhe é atribuída, também lhe é dado o título de senhor do “Karma”, que vem a ser, segundo a entendida no assunto Maria Ramagem, a situação que não sabemos resolver, não sabemos lidar, porque nos sentimos inseguros, desprevenidos ou incapazes. Assim, diante do destino que se apresenta, o interpretamos como a hora do azar.

Razão existe para Saturno ser considerado senhor do “Karma”. Na mitologia greco-romana ele foi o segundo a “reinar no universo”. Como castrou seu pai e o destronou, foi destronado por um filho, inaugurando dessa forma a máxima de que “aqui se planta, aqui se colhe”.

E pensar que sofrer é saber suportar...


quarta-feira, 5 de março de 2008

SEJA O SEU PRÓPRIO COLOMBO


http://www.moviewalah.com/node/448

É dito que Deus é o centro e repouso da alma inquieta, por que será, então, que precisamos, na nossa angústia existencialista, de um “guru” humano para guiar os nossos passos?

Isto vem a propósito da proliferação de “gurus” que assola este mundo e da dependência cada vez mais crescente de pessoas a esses “divinos” em busca de oráculos.

E haja “gurus” e seguidores: uns fundam igrejas; outros partem para o ocultismo; vem outra põe-se à caçar anjos, explicando através de livros – que vende às pencas – o sexo dos ditos; ainda tem quem, através de livros e conferências queira ensinar aos outros como ficar rico; Há quem impressione entortando moedas e soltando os seus “RÁs”!; e até quem lance a trilogia da “Cabala do Dinheiro, A Cabala da Comida e a Cabala da Inveja”.

“Auto-ajuda” é o que não falta para quem acredita necessitar. Mas, o autoconhecimento como é que fica? Diz o médico psiquiatra /Davi Harold Fink, que muitas pessoas consideram a sua pessoa como se fora uma casualidade, como se a descoberta de si mesmo fosse menos importante que a descoberta da América, quando cada um pode ser seu próprio Colombo. E diz mais: dentro de cada um de nós existem oceanos não cartografados que podem ser navegados e ricos continentes para serem desenvolvidos. A exploração e cartografia (discernimento psicológico) é a antítese de caminhar à-toa, do prosseguir caminhando em círculos, não atingindo ponto algum. E que para agir inteligentemente a pessoa precisa saber para onde ir. Precisa saber quais as suas necessidades, saber no que está se esforçando fortemente para fazer, mantendo os pés no chão.

Parece que existe a sua razão de ser a tal história de se firmar os “pés no chão”. A propósito de disso, tem uma passagem da mitologia grega que fala da luta entre Hércules e o gigante Anteo. Hércules era um possante lutador e podia levantar o gigante do chão e fazê-lo cansar. Ms quando já estava perto de vencer a luta, eis que deixou que Anteo pusesse os pés no chão e como conseqüência disso o gigante recobrou as forças e Hércules sentiu-se quase perdido. Entretanto, descobrindo o segredo da reabilitação milagrosa de Anteo, Hércules conseguiu novamente levantá-lo, tirando seus pés da terra e desta forma vencer seu antagonista.

Segundo o doutor Davi, já citado,Isto prova que todos nós somos parecidos com o gigante Anteo. Precisamos retomar à Mãe-Terra para recobrar nossas forças. Temos que permanecer com os pés na terra. Quando nos sentimos abatidos e desencorajados, querendo fugir de tudo, podemos voltar a ser fortes e esperançosos integrando-nos. Para tanto, sendo o seu próprio Colombo.


sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

SOMOS OU NÃO SOMOS DIABÓLICOS?




Ando tão vazia de pensamento, que me pus a cascavilhar o pensamento dos outros.

E vamos atacar de Humberto Eco, dissecando e questionando Pirandello, que do alto de sua sabedoria, tratou nos seus estudos, lições e ensaios sobre o tema “Humorismo”, ficando registrado que o único animal que sabe rir é justamente àquele que, devido a sua irracionalidade e ao seu desejo frustrado de racionalizá-la, não tem razão nenhuma para rir. Ou melhor, que ri justamente e somente por razões muito tristes.

Já Baudelaire, define o riso como profundamente humano, portanto é diabólico, e explica: os anjos não riem; o diabo sim. Tem tempo a perder, toda uma eternidade para cultivar o próprio mal-estar, numa associação do cômico à sensação de mal-estar.

Pensando bem, Baudelaire tem lá suas razões. Vejamos numa seqüência de fatos, que o riso nasce geralmente de alguma coisa errada que não nos diz respeito, e quando somos capazes de rir da desgraça de um semelhante nos tornamos diabólicos.

Quem de nós pode conter o riso diante de um semelhante empertigado a escorregar e ir ao chão?

Quem diz nós não ri de uma piada de marido traído?

Quem de nós não ri de uma caracterização cômica expondo o desvio sexual de um nosso semelhante?

Quem de nós não ri da miséria explorada de forma humorística?

Quem de nós não ri das piadas irreverentes sobre os nossos homens públicos?

O bêbado nos faz ri, a velhice camuflada provoca o riso, os loucos idem..

E sobre tudo o que foi dito, chega-se a seguinte conclusão: “pode-se até sorrir, mas as razões pelas quais se sorri são as mesmas pelas quais se chora”.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

JOSÉ DE ALENCAR E A MÁQUINA DE COSER


Hoje, nada de cogitar idéias nem parafusar novidade, vou dar um mergulho no tempo, me reportar ao ano de 1854, quando aos 25 anos de idade José de Alencar, antes de se transformar no nosso maior escritor romântico, exercitou a pena como cronista nos jornais do Rio de Janeiro.

Segundo João Ribeiro Faria (crônicas escolhidas José de Alencar - Folha de São Paulo) naqueletempo a crônica chamava-se folhetim e era destituída das características que tem hoje. Publicadas aos domingos, tinha por objetivo comentar e passar em revista os principais fatos da semana de forma genérica. E num único folhetim podiam estar, lado a lado, notícias sobre a guerra da Criméia, comentários a respeito do espetáculo lírico, especulações na Bolsa, um baile no cassino ou sobre o asseio da cidade do Rio de Janeiro (acometida na época por um surto de cólera, que o cronista o tratava como "diabo azul" por não ter certeza a qual gênero pertencia, se masculino ou feminino).

José de Alencar em seu folhetim, que levava o nome de "Ao correr da pena", datado de 3 de novembro de 1854, expressa a sua opinião a respeito da "máquina de coser", invenção americana chegada ao Brasil e que ele foi conhecer de perto numa visita que fez à fábrica de coser de Madame Besse, situada à rua do Rosário, n. 74.

Eis algumas considerações do folhetinista a respeito dos "malefícios" da tal invenção no que fiz respeito ao belo sexo:

Sobre a "maldita invenção" diz o cronista, que o belo sexo não pode deixar de declarar-se contra, pois priva os seus dedinhos mimosos de uma prenda tão linda e acaba para sempre com todas as graciosas tradições da galanteria antiga. As mãozinhas delicadas da amante, ou da mãe extremosa, trêmulas de felicidade e emoção, não se ocuparão mais com aquele doce trabalho, fruto de longas vigílias, povoadas de sonhos e de imagens risonhas. Que coração sensível pode suportar friamente semelhante profanação do sentimento?

Para o cronista, no entanto, a invenção da máquina não despoetizou a arte. E diz: " Até agora, se tínhamos a ventura de ser admitidos no santuário de algum gabinete de moça, e de passarmos algumas horas a conversar e a vê-la coser, só podíamos gozar dos graciosos movimentos das mãos, porém não se nos concedia o supremo prazer de entrever sob a orla do vestido um pezinho encantador, calçado por alguma botinazinha azul; um pezinho de mulher bonita, que é tudo quanto há de mais poético neste mundo".

Em 1855, o folhetinista tarado por um pezinho de mulher, prevendo os meios de comunicação de nossa era, sentenciou: "Tempo virá em que uma palavra que cair do bico da pena daí a uma hora correrá o universo por uma rede imensa de caminhos de ferro e de barcos de vapor, falando por milhões de bocas, reproduzindo-se infinitamente como as folhas de uma grande árvore. Esta árvore é a liberdade; a liberdade de imprensa, que há de existir sempre, porque é a liberdade do pensamento e da consciência, sem a qual o homem não existe; porque é o direito de queixa e de defesa, que não se pode recusar a ninguém".


domingo, 17 de fevereiro de 2008

A CULPA É DE MEU PAI


Quando eu era menina de engenho eu queria conduzir carro-de-boi; manobrar as engrenagens do engenho; mexer os tachos de mel efervescente; por às costas os sacos de açúcar e mais: subir no coqueiro; ser vaqueiro e até feitor. Aí o meu jovem pai me dizia: menina não leva jeito para essas coisas. E me mandava brincar com bonecas feitas de espigas de milho verde.

Quando eu era mocinha da cidade eu queria estudar música, compor e ser tão famosa... Como desconhecia uma mulher compositora de nome consagrado, eu dizia: igual a Schubert, por conta de sua Ave Maria, que escutava todos os dias. Queria ser inventora, como Thomas Edson, Santos Dumond, Alexandre Grham Bel, de cujas invenções tanto o meu avô falava. Queria ser filósofa, admirava Platão porque dele me falava o velho professor Cabral, afirmava ele que Platão possuía a sabedoria e também a arte e que o filósofo e o poeta moravam numa só alma. Queria ser dramaturga, como Shakespeare. Queria ser igual a Machado de Assis, afinal já tinha lido e relido A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia. Então o meu velho pai me dizia: mulher não tem cabeça para essas coisas. E me mandava aprender a fazer bolo com a minha mãe, cuidar de crianças, lavar pratos e arrumar a casa com a Júlia e lavar roupa com a dona Maria Ventura.

Hoje, sem pai para me dizer o que me é permitido fazer e do que sou capaz, fico imaginando se de fato essa diferença de quatro milhões de células nervosas, apregoada pela doutos cientistas deixam nós mulheres menos inteligentes do que os homens De minha parte, uma coisa eu sei que não sei: a falta que os tais neurônios me fazem , nem aonde eles deveriam atuar: se no cérebro, cerebelo ou bulbo.

Agora, de uma coisa eu sei que sei: se rodaram poucas saias entre as cabeças pensantes que deixaram legados notáveis à humanidade, a culpa é de meu pai, do pai dele, do pai do pai dele e por aí vai...


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

EMOÇÃO INDIFERENTE





A televisão exibe um rapazinho caído ao relento e desfalecido, alguém o carrega sob os olhares curiosos dos que dele se acercaram. Quadro de novela.

A cena acima descrita suscita emoção. Então, questiono: por ser uma mera representação? Até onde a realidade também nos comove?

Sobre tal assunto li certa vez do mestre Mário Moacyr Porto, um texto onde ele fez uma explanação a respeito do sofrimento de verdade e a desgraça de ficção, como isso nos atinge. Sustenta o mestre que no mundo moral – "que é um mundo construído pela inteligência – o bem e o mal só existe para nós como forças contraditórias e atuantes quando passam da condição de juízo de valor do raciocínio para a categoria de estados emocionais, vividos pela imaginação. O espetáculo da miséria humana, as brutalidades do egoísmo, o sofrimento real e irremissível dos nossos iguais não nos tocam, por isso mesmo, como realidades sensíveis e contagiantes. Basta, porém, que se substitua este sofrimento de verdade por uma desgraça de ficção para que o sintamos em toda a sua plenitude. Um mendigo andrajoso, faminto, miserável, que nos pede ajuda, não provoca, habitualmente, emoção ou piedade, se o espetáculo da sua flagrante miséria não se valoriza com um “décor” estético. É uma realidade neutra. No entanto, o sofrimento de ficção que nos revela o teatro, o cinema, ou qualquer forma de expressão artística, comove-nos até as lágrimas. Como se explicaria, assim, esta aparente contradição da sensibilidade humana, isto é, indiferença aa vista de um sofrimento real e comovido enternecimento em face de um infortúnio de ficção? Por que o sofrimento no teatro é mais real do que o sofrimento que a vida expõe a nossos olhos?"

Explicação do mestre: “ É que o bom e o belo não é o que vemos, e sim o que sentimos". .









domingo, 10 de fevereiro de 2008

INTRANQUILIDADE


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HAVIA TRANQUILIDADE NO MAR

MAS NÃO HAVIA TRANQUILIDADE EM MIM

HAVIA UM CÉU AZUL E ASTROS LUMINOSOS

MAS A MINHA ALMA PARECIA ENVOLTA EM TREVAS

HAVIA, HAVIA E EU SENTIA UMA SAUDADE PROFUNDA

DE GENTE DISTANTE

MAS NÃO HAVIA QUEM DE MIM SENTISSE ESSA MESMA
SAUDADE

HAVIA AMOR EM MIM

MAS NÃO HAVIA NINGUÉM PRA AMAR

HAVIA MEDO EM MIM

MEDO DE NOITES COMO ESTA

MEDO DE VIVER E SER SÓ















quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

FUJO DE TI

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POR NÃO ADMITIRES

O AMOR QUE PROCLAMO

O PENSAR

SEM AMARRAS

O AGIR

SEM CULPAS

ENFIM,

A LIBERDADE QUE EXIJO

FUJO DE TI

Ô MUNDO QUE NÃO TE QUERO REAL

SOU COMO O CAVALEIRO DE TRISTE FIGURA E TODOS OS

SONHOS

E SEGUINDO OS SEUS PASSOS

FAÇO DO MEU CORPO A ARMADURA

DE MINHA REDE O MEU CAVALO

DOS LIVROS A MINHA LANÇA

DA MINHA IMAGINAÇAO OS CAMINHOS À PERCORRER

E PARTO EM BUSCA DOS MOINHOS DE VENTO...



quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

VERDADE

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· Nunca me fez sentido a VERDADE, dizem que também não fazia para Clarice Lispector. Mas, teria eu medo dela? E se medo tivesse seria a razão de enterrar-me viva em casa no fundo do quarto mais soturno?

VERDADE... Quem mais dela sabe, mais capacidade tem de mentir. Coisas do velho Sócrates.

· Já nem lembro..., mas conversamos sobre isto, amigo Dorian? (como se ele pudesse responder. Os mortos não falam, estão mortos. Esta é a minha VERDADE).

· E a VERDADE dos poetas? Uns fingidores! Afirma Fernando Pessoa, um deles; Mentem dizendo a verdade! É o que deixou dito o poeta francês Jean Cocteau; já o mestre Mário Moacyr Porto não acreditava que o poeta apelasse para os seus próprios sentimentos para escrever um poema, o construía só com palavras.

· E pensar que nem a afirmação de que existe céu e ele é azul é VERDADEIRA... E que o VERDADEIRO, segundo o mestre Mário Moacyr Porto, em qualquer plano, está no que sentimos e cremos - havendo fé, naturalmente, pois do contrário tudo não passa de uma miragem dos nossos sentidos ou um equívoco das nossas consciências.

· Finalmente, uma coisa me faz pensar... Quando foi perguntado a Jesus o que era VERDADE , Ele não respondeu, guardou silêncio profundo.

Por quê...?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

SILÊNCIO DE PORTAIS



SENTIMENTOS CONFESSADOS


INCONSTANTES

DISTÂNCIA EXIGIDA


VONTADE IMPOSTA


PALAVRAS QUE MAGOAM


E A VERDADE


ONDE ENCONTRAR...?


NO OLHAR?


NOS GESTOS?


AÇÕES?


A CABEÇA GIRA


EM QUAL EIXO?


EM QUAL FOCO?


E ESTE SILÊNCIO DE PORTAIS


QUE ENTRISTECE...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

POR UM MOMENTO



CABELOS SOLTOS
AO SABOR DO VENTO
QUE TEIMAM EM LHE COBRIR A FACE
E QUE SÃO RETIRADOS
NUM GESTO NÃO MEDIDO
FEMININO
PARA DESCOBRIR OLHARES NÃO PERDIDOS
SORRISOS NÃO CONTIDOS
NÃO ENIGMÁTICOS
NÃO MONA LISA
SOB O SOL
SOBRE A AREIA
OBSERVANDO A GRANDEZA DO MAR
E A PEQUENEZ DE UM PEDACINHO DE GENTE
QUE BRINCA AO SEU REDOR
E QUE NASCEU DELA
POR UM MOMENTO
À MIM PARECEU
FELIZ
A MULHER


Zelia Maria Freire

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

NA MINHA JANELA UM PÁSSARO

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NA MINHA JANELA
UM PÁSSARO FERIDO
ARREDIO
AS MINHAS MÃOS
NÃO O TOCARAM
PERMITIU
QUE EU LHE FALASSE
NÃO SEI AO CERTO
SE ME OUVIA
SE ME ENTENDIA
SÓ SEI QUE PERMANECIA
NA MINHA JANELA
ORA CANTANTE
ORA SILENTE


NA MINHA JANELA
UM PÁSSARO
TESTANDO SUAS ASAS
E ASSIM COMO CHEGOU
ASSIM PARTIU
CURADO?
SEI NÃO...
SÓ SEI QUE VOÔ
DA MINHA JANELA VAZIA
O
VI SUMIR... SUMIR... SUMIR...
SÓ ME RESTOU
FECHAR A MINHA JANELA
E DEIXAR DE PENSAR
NO PÁSSARO

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

QUE PAÍS É O NOSSO?

RORAIMAAMAZONASPARÁAMAPÁMARANHÃOACRERONDÔNIAMATO GROSSOTOCANTINSPIAUÍCEARÁRIO GRANDE DO NORTEPARAÍBAPERNAMBUCOALAGOASSERGIPEBAHIAGOIÁSDISTRITO FEDERALMINAS GERAISESPÍRITO SANTORIO DE JANEIROMATO GROSSO DO SULSÃO PAULOPARANÁSANTA CATARINARIO GRANDE DO SUL



Que país é o nosso? Segundo Jorge Ben Jor, é um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza.

Que povo somos nós? De acordo com Chico Buarque, somos gente humilde

Que governos temos tido? Para usar uma expressão de Chávez,o quase ditador da Venezuela, que por sua vez disse ter repetido do escritor Garcia Márquez e EU os repito: GOVERNOS DE MIERDA.

Muito bem: palmas pra Ben Jor, a natureza não foi cruel conosco e não nos faltam recursos naturais; incompatíveis, portanto, com o nosso estado de pobreza e incompreensível diante de países destituídos de tais recursos como o Japão e a Suíça, considerados ricos e desenvolvidos.

Até onde nos leva a humildade que comove o Chico Buarque? A subserviência? A falta de atitude, conseqüência da não educação e cultura?

Por que governos de mierda? Porque não ensinaram aos seus governados os requisitos de cidadania, tornando-os párias, diferenciados das sociedades ditas civilizadas e desconhecedores das regras básicas que se seguem e que não foram criadas por mim, simplesmente as pesquei na Internet:

1 - A ÉTICA COMO PRINCÍPIO BÁSICO

2 - A INTEGRIDADE

3 – A RESPONSABILIDADE

4 – O RESPEITO ÀS LEIS E REGULAMENTOS

5 – O RESPEITO PELO DIREITO DOS DEMAIS CIDADÃOS

6 – O AMOR AO TRABALHO

7 – O ESFORÇO PELA POUPANÇA E PELO INVESTIMENTO

8 - O DESEJO DE SUPERAÇÃO

9 – A PONTUALIDADE

Foi o que aprendi e o SENHOR REI ordenou que eu passasse à frente

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI SOBRE RUBENS LEMOS

NOSSO HOMEM COMUNISTA






Esta crônica foi publicada no dia 18 de março de 1990, no jornal “Tribuna Tribuna do Norte (Natal RN) republicada, agora, neste blog, para que fique constando nos “anais do Google” um pouco de RUBENS LEMOS, “ O NOSSO HOMEM COMUNISTA”.

Lá se foi o “Cavaleiro da Esperança”... De repente a gente acorda e descobre que neste Brasil surpreendente, já se pode homenagear, elogiar, enaltecer e tornar herói um comunista, nem que seja depois de morto.

Sei não... mas considero um ato sem sentido essa coisa de homenagem póstuma, por conseguinte, já que temos aqui na terrinha o nosso homem comunista vivinho bulindo, a quem preciso prestar minha solidariedade, por seu espírito indomável e a sua capacidade de viver, sofrer e morrer por um ideal, aproveito o ensejo e faço a ele a apologia que se segue:

E eu que pensava que só cabia dentro de casa, noite dessas sai, conheci pessoas das quais muito já havia ouvido falar. Apresentações informais, roda feita, conversa,( no que aliás não sou muita afeita dizem até que gaguejo, razão provável da minha falta de expressão) e diante de mim pessoas. Para espanto meu, eram normais! Apesar de comunistas. Fixei primeiro a figura do homem, talvez, quem sabe... a procura de indícios que me levassem a constatar o que em criança me foi ensinado: eles os comunistas eram dados à prática canibalesca, devoravam criancinhas. Por mais inculcada que me tivesse sido tão malfadada idéia, desmoronou-se diante da figura bonachona, sociável, inteligente, culta e destituída de mágoas cabíveis pelo muito que sofreu o homem comunista. Quis saber mais sobre ele, não ouvi revanchismo, auto-piedade e para deleite meu, ouvi atenta o homem comunista, com a sua voz de narrador bem treinado, dizer poemas de amor feitos no exílio para a mulher amada. E, acreditem, ele ainda saber sorrir, apesar de, com esse gesto mostrar a ignomínia dos seus torturadores. E aquele sorriso que em outra boca seria feio, torna-se na boca do homem comunista a expressão comovente de um ser largo, que por sabe pensar viu-se execrado, arrebatado do seio da família e submetido as mais ultrajantes torturas, sem contudo, perder a dignidade nem a postura .

E a mulher que não era comunista e sim, a mulher do homem comunista? Para ela sobraram os sofrimentos que por terem sido tantos e tão fortes lhes deixaram as marcas do medo em cada esquina.

Minhas homenagens portanto, a você Isolda. A você Rubens Lemos, o nosso homem comunista que...







QUANDO HOUVE O TEMPO DE FALAR
SEM PALANQUE
SEM MANDATO
SEM IMUNIDADE
VOCÊ FALOU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE CALAR
SEM MEDO VOCÊ GRITOU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE PARTIR
VOCÊ PARTIU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE VOLTAR
VOCÊ VOLTOU
QUANDO HOUVE O TEMPO DE SOFRER
PRISÕES
TORTURAS
HUMILHAÇÕES
VOCÊ SOFREU
QUANDO HOUVE O TEMPO DA LIBERDADE
A LIBERDADE FOI DADA
MAS NÃO O DIREITO DE COBRANÇA

SÓ ESPERO QUE A SUA VERDADE NÃO O SUFOQUE, MEU CAMARADA...


domingo, 9 de dezembro de 2007

SERÁ QUE VIVER É SOFRER?



Afirma Leopold Von Ranke (1795/1886), que os tempos felizes da humanidade são as folhas em branco no livro da História.

Teria razão o Leopold? Ou as coisas funcionam como imagina o escritor austríaco J.M. Simmel: anteontem passamos maus pedaços, ontem estivemos bem, hoje começamos a passar menos maravilhosamente bem. Mas, sem dúvida, tudo em breve estará em ordem de novo. O que lembra a história explicada por Kurt Tucholsky, que em 1930, escreveu o seguinte: O círculo da natureza: Meu pai tem um primo, cujo tio costumava dizer: Meu querido filho, neste mundo existem os vermes. Estes são comidos pelos sapos e os sapos pelas cegonhas. As cegonhas trazem as crianças e as crianças têm vermes. Assim se fecha o círculo da natureza.

Sem digressão a gente chega em Jorge Luiz Borges que aponta “ O Mundo Como Vontade e Representação” do filósofo alemão Schopenhauer (1788/1860), como o melhor mapa do Universo, onde no capítulo destinado a confirmação de que viver é sofrer nos deparamos com uma comunhão de pensamento entre Leopold e Schopenhauer. Diz este último: “ Agora que nos convencemos, de certo modo, a priori por meio das considerações mais gerais, como o estudo dos primeiros caracteres elementares da vida humana, de que esta, pelo próprio conjunto da sua disposição, é bem incapaz de encontrar a verdadeira felicidade e de que, por sua essência, não é senão sofrimento sob mil formas diversas, e estado absoluto da infelicidade, podemos, de igual, bem mais vivamente acordar em nós esta mesma convicção a posteriori, se, tomando em exame fatos reais, apresentarmos à mente os quadros ou os exemplos de desgraça sem nome que nos oferecem a experiência e a história, para onde quer que deitemos o olhar e dirijamos nossas pesquisas”.

Acrescenta ainda o filósofo: “ aonde, pois, Dante colheu o material para o seu Inferno senão em nosso mundo real? E fez, entretanto, um Inferno em perfeita regra! E quando quis, ao contrário, descrever o Paraíso e as suas bem-aventuranças encontrou dificuldades insuplantáveis, pela razão do que a nossa terra não fornece os elementos para coisa alguma de semelhante. Não lhe restou, portanto, outro expediente, além de descrever-nos, em lugar das alegrias do Paraíso, os ensinamentos que recebeu dos ancestrais de sua Beatriz e de vários santos. Isto demonstrou bastante que espécie de mundo é o nosso”.

E, comigo, persiste a dúvida: viver é sofrer? Será...?